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Recbeat 2009: Primeiro dia

Primeiro dia incomum, esse do festival Recbeat. O palco mais diversificado do Carnaval de Pernambuco virou o único palco, pelo menos na abertura da programação. Uma chuva, do tipo que Recife não via já tem muito tempo, fechou todas apresentações que aconteciam no bairro do Recife Antigo. O palco principal, no Marco Zero, chegou a se deslocar sozinho por mais de um metro. Isso acabou ajudando uma maior concentração de pessoas, coisa que não costuma acontecer no primeiro dia de Recbeat. Isso + chuva + Eugene Hurtz insano no palco fez parecer que já era o encerramento. Ecos da noita histórica com Pato Fu em 2008 passavam na memória de todos.

catarina

No geral, foi uma noite mais descompromissada. Talvez com exceção da potiguar Camarones Orquestra Guitarrística, que tinha o show mais ensaiado, as outras atrações que passaram no palco estavam em clima de descontração. A começar por Catarina Dee Jah. Esse foi o segundo show que vejo dela e, pelo menos nessa noite do Recbeat, parecia que a presença dela no palco tinha melhorado quase que exagaradamente (o que se justifica, afinal, o show anterior que eu tinha visto foi o primeiro que ela fazia na carreira). Acho que pouca coisa não funciona no Carnaval do Recife e, por isso, o brega modernoso dela até agradou. Mas com o começo pontual do festival, às 20h, pouca gente arriscava ganhar banho de chuva.

camarones

O bom de uma programação enxuta (sem trocadilhos. São quatro por noite) é que permitem apresentações mais longas. Com quase uma hora de show, a chuva já tinha ido embora e mais gente se acumulava para ver o começo da Camarones. Outra que também parece ter crescido um monte desde a última vez que pisou no Recife (e olha que não faz tanto tempo assim). Cresceu principalmente a parede sonora deles, algo importante para uma banda instrumental. O impacto das músicas são bem mais fortes, ao mesmo tempo em que elas estão mais pesadas e encorpadas. Foi o show mais redondinho da noite e o único que parece ter sido ensaiado. O que não tirou a espontâneidade deles, que conseguiram fazer um show acima da média sem todos os equipamentos no palco.

hamster

O que aconteceu é que a urucubaca da primeira noite do Carnaval também atingiu o Recbeat. O festival por pouco não segue os palcos vizinhos no cancelamento. O chileno Original Hamster também tocou sem parte dos equipamentos de palco, o que deixou o som um pouco mais baixo que o normal, algo que prejudica uma apresentação de um DJ solo. Ainda assim, foi ele quem começou a dar a forma dessa edição 2009 do festival. O começo foi bem modesto e ele até tocou remixes famosos (mas de outros DJs), até pegar o microfone e começar a cantar e instigar o público, que nessa hora já estava no clima certo para a noite.

dolores

Se eu tivesse que escolher um show para a noite, seria o do DJ Dolores. Geralmente as apresentações que ele faz com banda costumam ser mais melódicas, mas para o Carnaval ele preparou um formato totalmente a favor do harmônico. Com Jr. Black (Negroove) no microfone, cantando quase como se estivesse sendo remixado ao vivo, ele deu uma nova cara a antigos hits e fez a apresentação mais animada (e honesta) de toda noite. A única coisa deslocada foi uma “boxeadora” que ficava rodando pelo palco sem fazer muita coisa. Era pelo mis-en-cene, eu sei, mas ficou informação demais.

gogol-01

Por um momento, parecia que o show do Gogol Bordello (que resolveu tocar com banda e não sozinho) chegou a ser mesmo uma alternativa muito melhor que o Afrika Bambaata, que tocaria originalmente na programação. Eugene Hurtz é um tipo de Kramer dançarino e perde totalmente os bons costumes quando está no palco. É bem louco, correndo, pulando e gritando como se sobreviver dependesse da adrenalina de todos. E a turma até que foi na onda dele também, fazendo o mesmo.

Mas o show teve uma pitada forte de enrolação. Por que, na verdade, ele estava apenas trocando uns CDs para tocar, cantando por cima de uns e dançando em outros. Perdeu totalmente o sentido quando ele começou a tocar O Pobre dos Dente de Ouro, do Cidadão Instigado e, depois, Alceu Valença (sério). A partir dai ficou parecendo apenas um daqueles DJs bebados estraga festa. Mas isso foi para quem tava sóbrio, vendo o show quase sentado. Para o público, tudo era festa.

O Papa quer ser Pop

Joseph Ratzinger ainda estava se acostumando a ser chamado de Bento XVI, quando na ocasião de sua primeira saída do Vaticano decidiu aparecer num show. Sim, desses de música mesmo. Foi na cidade alemã de Colónia e sua produção teve a feliz idéia de contratar um artista moderno – será que na esperança de acalmar uma das lideranças mais conservadoras que já teve? – para receber o pontífice. Ninguém menos que o nosso DJ Dolores. “Não sei porque diabos me chamaram, mas levaram a banda toda e com um ótimo cachê”, comenta Helder Aragão, o dito cujo. A apresentação foi em um estádio de futebol lotado, com cerca de 60 mil pessoas. “60 mil pessoas sóbrias”, reforça o DJ Dolores, que passou o restante do dia tentando de tudo para conseguir uma dose de whisky. Só depois de muito tempo que conseguiu uma garrafa de Jack Daniels, toda enrolada e escondida em um pano. “Parecia droga pesada!”, lembra. Ele não era o único brasileiro presente no evento. Pelé também curtia sóbrio os samplers de Dolores, ao lado de figuras como o diplomata Kofi Anan.

No Japão
Imagina como deve ser, para um artista de Pernambuco, tocar no Japão? Silvério Pessoa esteve lá se apresentando e publicou todo o diário de viagem, com direito a fotos, em seu blog. Os dois discos e o ótimo novo DVD já são vendidos até daquele lado do mundo. Quem quiser conferir em detalhes, o endereço é o www.monolitico-tema.blogspot.com

Livros
Everett True, que quase desembarcou no Recife ano passado para o festival Coquetel Molotov, acaba de lançar lá fora 600 páginas sobre a vida de Kurt Cobain. Numa época onde jornalistas ainda tinha esse poder de descobrir bandas, foi True quem disse que o Nirvana seria a próxima grande virada no rock. Por enquanto, não tem previsão do livro aparecer aqui.

Blues
Um “dream team” está sendo montado para se apresentar no Recife. Robben Forde, guitarrista que já acompanhou lendas como Miles Davis e Wayne Shorter. Ele será acompanhado pelo baterista Gary Novak, parte da banda de Alanis Morrisete e o baixista Chris Chaney, do Jane’s Addiction. O show será dia 15 de junho. Mais detalhes em breve.

Festivais
Foi lançado ontem o 1ø Edital Petrobrás de Festivais de Música. A primeira conquista concreta da Associação Brasileira de Festivais Independentes, a Abrafin. O Instituto Moreira Salles, que está mapeando esses eventos no país, será o responsável na gestão desse edital. O regulamento e ficha de inscrição estão no endereço www.editalfestivaisdemusica.com.br

Novas mudanças

Depois de visitar tantos festivais, ficou meio claro que aquele formato clássico de grande evento para 10 mil pessoas acabou. A tendência parece ser realmente diminuir. Perder o público interessado apenas na “balada”, para ficar aquele que gosta mesmo de música. As últimas três edições de eventos como o Porão do Rock, em Brasília, e o nosso Abril pro Rock, servem de exemplo de que quantidade de público não é mais equivalente à qualidade dos shows.

Depois da queda de importância do disco, essa é a segunda mudança mais significativa desse novo tempo da música. O que significa que quem precisa dessa cadeia para sobreviver, vai ter que se adaptar. A maioria das bandas ainda não se adaptou a isso. Fazem shows que são pura transposição do estúdio de ensaio. Sem atrativo visual ou o menor cuidado cênico. Até se tocarem dessa importância, devem perder bastante público e oportunidades de entrarem em festivais.

Vizinho hermano

Já pensou ser vizinho do Marcelo Camelo, do Los Hermanos? Isso não está longe de acontecer. Depois desse recesso da banda, ele está se organizando para vir morar aqui no Recife. Não fosse o bastante, já tem evento tentando marcar apresentação solo dele na região.

Novidade

O DJ Dolores já está com o disco novo finalizado. Ele adianta que as músicas estão bem diferentes do anterior Aparelhagem. Sem data certa para ser lançado, existe a chance do CD sair junto com um livro de ilustrações. Para quem não conhece, os ótimos desenhos de Dolores estão na última edição da revista Ragú.

Metal na TV
Agora, o público headbanger do Recife vai poder acompanhar um dos programas mais populares de Heavy Metal no Brasil. O Stay Heavy passa a ser exibido na região metropolitana pela TV Nova (canal 22 na grade aberta e 29 pela operadora Cabo+). O programa vai ao ar todas as segundas-feiras, das 19h às 20h.

Revistas
A história que corre, ainda nos bastidores, é que a revista Bizz deve sair de circulação de novo até o fim do ano. Enquanto eles ainda sofrem para conseguir um anunciante, a última edição da concorrente RollingStone veio com 54 páginas inteiras de propagandas. Este mês, a primeira também perdeu todos seus principais colaboradores para a segunda.

Abril pro Rock 2006: Primeiro dia

O 14º Abril pro Rock começou ontem, no Centro de Convenções, e já é a edição mais peculiar de todas. Sem muitos rodeios, este foi o ano com mais interesse da mídia pelo evento e com menos interesse de público. O que leva pensar que muita gente, no fim das contas, não faz um bom show. Mas pouca gente definitivamente faz um show ruim. E o pavilhão nunca esteve tão vazio. E isso nunca foi tão incomodo.

Quem chegava ao Centro de Convenções percebia de cara a novidade. O pavilhão onde o Abril pro Rock acontece todos os anos estava fechado. Uma área menor fazia um “palco 3” logo na entrada, onde aconteceriam todas as apresentações da noite.

Sim, essa foi a tal noite eletrônica. Depois dela acho que dá para concluir duas coisas. Ou esse público aqui é muito pequeno, ou ele não serve para nada. Porque às 23h, quando o Montage subiu no palco, não tinham nem 300 pessoas ainda para conferir o que seria uma das melhores apresentações da noite. Mesmo com uma estrutura de som péssima que só rendia ruídos, Daniel, uma mistura de Brian Molko-David Bowie-Vive la Fete, roubou a cena com uma presença de palco para lá de divertida.

A música não trazia muita novidade. É aquele eletrônico afetado, meio rock, feito com uma guitarra e um computador. Letras em português e inglês, que não fariam tanta diferença, não fosse o público já cantando elas de cor, colados no palco. Pensar em Internet é pensar que o público do Abril está mais refinado e, talvez por isso, tão restrito. Quando a apresentação terminou de meia noite, o pavilhão continuava com o clima vazio.

A disposição da programação do Abril pro Rock é bem engraçada. Este ano, o que eles têm de atração forte, ficou no meio e não no fim da noite. Na sexta, pareceu que eles quiseram entregar logo as cartas, mostrar o que tinham trazido de melhor e pior logo de cara. Porque depois do Montage, subiu uma das escolhas mais infelizes do evento, a dupla Kook and Roxxy. Supostamente alemã, já que a menina, a Roxxy, é daqui do Recife.

Com declarações de que “é muito lindo tocar em casa”, a dupla não acrescentou muita coisa além de caretas na cara do público. O “Palco 3”, inaugurado clandestinamente pelo The Playboys ano passado, agora é oficial e também muito pequeno. A aparelhagem técnica tinha melhorado o som da dupla, mas o espaço parecia pouco para a menina que não parava de dançar esquisitamente no palco.

Hora de lavar a alma, com o toque da meia noite no relógio e a dupla Stereo Total se organizando no palco. Não tem como negar um sorriso para a simpatia dos dois. Uma mistura de Walter Matau com Kramer (do Seinfeld) e uma professora de colégio americano, mais o delicioso sotaque inglês (eles são da Alemanha) e uma hora de música eletrônica-minimamente-fofa.

O show mais legal da noite teve ainda o pessoal que estava na frente do palco subindo, tocando os instrumentos, dançando e cantando junto. Tudo num clima ótimo e bem divertido, desses para guardar como boa lembrança. Talvez por isso, pareceu demorar muito mais que a uma hora que teve duração. Perto das mil pessoas, o Abril pro Rock chegava ao seu ponto alto. O que fez valer a noite.

Diplo funcionou como uma espécie de divisor de águas da noite. Com a injusta tarefa de se apresentar em uma hora, o DJ americano fez um set pra lá de misturado. Com o esperado funk a remixes legais das velhas músicas de sempre. Divertido, mas naquele momento, a noite começava a ficar mais segmentada. Algumas pessoas já iam se afastando, cientes que não conseguiriam nada melhor que aquilo. Teria sido muito legal, não fosse a inocente idéia de Diplo de homenagear Chico Science. Desnecessário.

Nos bastidores, o DJ, bem eufórico, disse que tinha sido uma de suas melhores apresentações. Não entendeu, no entanto, porque o público não tinha gostado tanto da homenagem que ele fez a Chico Science. Bem vindo ao Recife, Diplo. =)

Quando o DJ Dolores entrou com seu bloco Mega Hits já eram três da manhã. Pouquíssima gente, um calor infernal. A idéia de Helder Aragão (alcunha que um dia foi o nome verdadeiro de Dolores) é muito, mas muito legal. Também é totalmente deslocada da noite do Abril pro Rock. Uma orquestra de verdade, da Bomba do Hemetério (um dos bairros barra pesada do Recife), tocando aqueles sucessos mais batidos de uma festa cansada. Depeche Mode com Eye of the Tiger (isso mesmo, a trilha da cine-série Rocky).

Bizarro, o ator Mateus Nachtergaele, completamente louco, subiu no palco e tentou cantar (ou era recitar?) alguma coisa.

Quando a noite entrou na reta final, já era dia. Quatro da manhã, João Gordo e Iggor Cavalera no palquinho, Black Sabbath na caixa. A dupla fez o set hetero do Abril pro Rock. Som pesadão, com hip hop e muita guitarra. Mas depois da maratona, era preciso muita boa vontade para agüentar mais uma hora de música. Pelo menos nesse contexto bem irregular que foi o repertório da sexta-feira.

Música Fast Food

De todos os vícios do novo século, 2006 vai ser marcado principalmente pela pressa. O disco mais esperado do semestre, o primeiro da britânica Arctic Monkeys, não conseguiu completar um mês de sucesso. É a biografia inversa. Antes a carreira começava a contar a partir do primeiro disco, agora ele marca o final. O processo de produção e consumo rápido será o mal do ano.

E a pressa passa, mas o erro sempre fica. Alguns independentes encontraram a solução para isso nos EP’s. Discos que não passam das seis / sete músicas. Muitas já estão considerando os singles – com até duas músicas – parte definitiva da discografia. No fim, não vai ser a Internet quem vai decretar o fim da materialidade do disco, mas essa vontade descontrolada por novos sons.

Coquetel
O coletivo Coquetel Molotov anunciou a data do seu segundo festival, o “Coquetel Molotov Independente”. Será dia 28 de janeiro, no Pátio de São Pedro. No mesmo formato da edição anterior, o evento terá quatro bandas. As primeiras atrações já confirmadas são as locais The Dead Superstars e Backing Ballcats Barbis Vocals. Ano passado o festival também trouxe duas bandas de fora, Lulina (SP) e Brincando de Deus (BA).

Independentes
Um dos mais importantes prêmios da música independente do Brasil, o London Burning, divulgou a lista de seus indicados. Pernambuco está presente com o DJ Dolores, que concorre na categoria Melhor Disco de Eletrônica; e a Rádio de Outono, que aparece em duas categorias: Banda Revelação e Melhor EP. A votação é pública – pelo site – e vai até o fim do mês. O resultado sai em fevereiro.

Regulamentação
O Sindicato dos Músicos Profissionais de Pernambuco vai servir apenas de intermediário na nova disputa entre Ordem dos Músicos do Brasil(OMB) e o novo “Movimento dos Músicos de Pernambuco”. A iniciativa de participar como mediador das discussões foi do próprio sindicato, que faz questão de deixar claro que não tem nada contra a OMB.

Publicado originalmente em 10.01.06