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Recbeat 2007 – Primeiro dia

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O infame ego pernambucano faz com que o estado brigue para ser a maior em tudo. O maior shopping, maior livraria, maior aeroporto, maior avenida, maior carnaval; a lista não pára. Esse orgulho mais bobo – aliás, por ser bobo – esquece que maior e melhor não são semelhantes. Ano passado o Recbeat apresentou uma de suas piores edições justamente por estar maior. Este ano, longe da preocupação, abriu a primeira noite já apresentando o que deve ser uma das melhores edições. Espaço menor e bandas com menos ego foram resultado de um ambiente tranqüilo, com circulação livre de pessoas e sem violência. Quase impossível de associar com edições anteriores.

Eu não caio nesse papo de festival para revelar talentos. Acho o discurso bonito, mas ainda acredito que 70 a 80% do público não leva o show para casa. Só a ressaca. A quantidade de imprensa nas costas do palco e nas barraquinhas de comida também mostra outro grupo desatento. Chamar atenção nesse cenário é muito difícil. Difícil pra caramba. Sem um “medalhão” para instigar a ansiedade de todos então, quase impossível. Mas se o Recbeat rompeu com essa ansiedade pelo maior, quem sabe, consegue acabar quebrando outros tabus também?

Confluência já abriu a noite quebrando esse tabu. Parece que o hip hop vem abrindo espaços maiores nesses eventos mainstream, saindo de seus palcos específicos (e, por vezes, restritos). Sob a batuta do Dj Big, que trabalha para esse projeto acontecer há três anos, e no primeiro palco grande que os caras subiram, não é que rolou revelação mesmo? Dois vocais femininos contra dois masculinos. Um deles, o do poeta Ivanildo Vila Nova. Ficou legal no palco porque não parece clichê. Não é mistura de rap com embolada. São os dois sons, ao mesmo tempo, em harmonia.

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Convencido então que ali era um bom lugar para revelações, passei Erasto Vasconcelos. Confesso que teria assistido o show se ele não abrisse o repertório direto com o “O Baile Betinha”, mas gastou o cartucho do hit já no começo. E como falaram na hora “ele pode, ele pode”, eu também posso. Só voltei do bar na hora do Supergalo. Banda de Brasília que, com exceção do irmão do vocalista, todos tinham me confirmado ser bem chata. Não achei. Foi uma surpresa boa (talvez pela expectativa baixa?), mas é um rock feijão com arroz super necessário nessa época de tantos temperos.

Estava convencido que o DJ Big e Confluência era o melhor show da noite antes da mesma chegar na metade. Foi ai que subiu Zefirina Bomba. Mudança na programação, para dar tempo de todos os integrantes do Digital Groove chegarem. Paguei pela língua em dobro, porque a banda da Paraíba também abriu o show com o hit (pelo menos o hit para mim). “Alguma coisa por ai”, e o rock mais sujo e pesado que aquele palco conheceria no primeiro dia de Recbeat. Já na emenda com Aneurysm do Nirvana e dá o recado que aquele será um show violento.

Pausa para o momento surreal da noite. Cara chega ao lado “que banda é essa?”, respondo “Zefirina”, em troca de um “só”. O tempo passa, ele cutuca, “é Zefirina não” / “é sim” / “é não”, até que a música acaba. “É Zefirina mesmo”.

Zefirina Bomba leva a sério o mote da banda de “nós só precisamos de 20 minutos para rachar sua cabeça”. No fim do show, o vocalista Ilsom pula em cima da viola, uma, duas, três… sete, oito vezes. Insatisfeito, repete a capa clássica do London Calling, do The Clash e sacode a bicha no chão. Não tem outra, uma farpa voa pra cima e o sangue jorra para baixo. No camarim, todas as televisões tentam pegar um segundo sequer dele com o pano na cabeça, cheio de gelo. E, no detalhe, o braço com o repertório do show anotado. Quem perdeu, pode se arrepender.

Foi tudo tão intenso, que a sensação era de fim de festival. Gente se dispersando, sem muito interesse pela próxima Digitalgroove. Quando eles lançaram o disco, lembro de terem me dito “é um disco pensado para festa, não muito para show”. Fez sentido quando vi eles no palco. Misturar é legal, mas volta o papo do ‘maior x melhor’. Tudo parece muito over no grupo. De um lado, Felipe Falcão numa pegada e visual rock, do outro, as caretas de virtuoso de Beto Kaiser. No centro, um repentista, um rapper, um coquista. Na ponta, um computador. Perto da metade do show, tudo soava um tanto cansativo (ou confuso, enfim, muita informação). Diferente de como é no disco.

Não vi o Z’África Brasil. Mas se o show deles tiver sido 10% do que apresentaram semana retrasada no palco da Praça do Arsenal, posso garantir que foi bem chato.

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As fotos são de Vladia Lima, cedidas pela produção do Recbeat

Programação Recbeat 2007

Foi divulgado oficialmente hoje, com coletiva no Recife (mesmo tendo sido liberado antes para a Folha de São Paulo, o que pessoalmente desaprovo).

Programação bem melhor que ano passado – o que não chega a ser um mérito. Agora bem mais coerente, com atrações que valem a pena segurar a madrugada.

Sábado – 17/02

19h30 – DJ Big & Confluência (PE)
20h30 – Erasto Vasconcelos (PE)
21h30 – Digital Groove (PE)
22h30 – Supergalo (DF)
23h30 – Zefirina Bomba (PB)
00h30 – Z’Africa Brasil (SP)

Domingo – 18/02
16h30 – Concentração do bloco Quanta Ladeira
20h30 – Canja Rave (RS)
21h30 – Rivotrill (PE)
23h00 – Isca de Polícia (SP)
00h15 – Digitaria (MG)
01h20 – Bonde do Rolê (PR)

Segunda – 19/02

17h00 – Recbitinho: Cia Teatro Rasgado / “O Pequenino Grão de Areia”
19h30 – Mellotrons (PE)
20h30 – Vanguart (MT)
21h30 – Raies Dança Teatro (SP)
23h00 – Mr. Catra (RJ)
00h00 – Instituto canta Tima Maia Racional (SP)
01h20 – Montage (CE)

Terça – 20/02

18h30 – Maracatu Nação Camginda Estrela (PE)
19h30 – João do Pife e Banda Dois Irmãos (PE)
20h30 – Parafusa & Trombonada (PE)
21h30 – Curumin & The Aipins (SP)
22h00 – 2IN-Par (Esp)
00h00 – Macaco Bong (MT)
01h20 – Tom Zé (BA)

Eta Carinae – Mirando a Estrela

A música mais alternativa do Recife se divide em dois blocos bem distintos. O primeiro procura atingir uma estética própria, um tipo de música que cause dor de cabeça quando o dono da loja tiver que escolher em que seção vai entrar o disco. O segundo não se importa em assumir referências, fazendo música que é fácil de se associar a outras bandas. “Mirando a Estrela”, disco novo do Eta Carinae, está no primeiro grupo, misturando batidas eletrônicas com melodias regionais. Música urbana, contemporânea e cheia de fôlego, daquelas que são “tipo exportação”.

As batidas do Eta Carinae são convidativas. A banda assume um risco de misturar sotaques com canções orgânicas, que são preguiçosamente associadas ao genérico World Music. Mas faz essas misturas com segurança e supera pré-conceitos que possam surgir no caminho. Tem groove, com dub, samba e samplers e algo que parece guitarra. Parece, porque tantas texturas convidam até o ouvinte mais desatento a confabular leituras de cada instante da canção.

Dirceu Melo, ex-Jorge Cabeleira, vocalista e dono da idéia da banda, e sua trupe foram espertos. Esse é o som das contradições. Excessivamente urbano e moderno, mas que só encontra liberdade criativa em terras áridas do Nordeste. Como DJ Dolores e Silvério, ele faz uma música boa que vende como água onde quem tem a cabeça aberta para melodias. Pode não ser o tipo de música que lote uma festa no Recife, mas quando entra na ponte aérea São Paulo – França, vira sucesso. A mão dupla do pré-conceito não deixa os modernos daqui aceitarem essa música, mas deixa quem é de fora aceitar, porque nos vê então modernos.

O disco tem 15 músicas. No geral, elas falam do cotidiano, de amores e a constante necessidade do movimento. “As minhas pernas já estão coçando” e “Lua minha, me apresente ao sol / para não ficar só eu e você” estão entre os versos mais espertos de Dirceu. Eles são entoados por Karina Falcão, dona da voz que dá o resgate orgânico e regional para as músicas. Tem ainda trompete, teclado (Andrét Oliveira), bateria (Fabio Xucurú) e baixo (Kennedy Costa), que somam na programação dos samplers (Dirceu).

E a medida que as músicas se reinventam, permitem que “Mirando a Estrela” seja um disco longo, mas sem ser cansativo. A banda se programa para lançar um single virtual, com músicas de graça na Internet, através do selo RecifeRock discos ( www.reciferock.com.br). Também foram escalados para participar do Bananada, festival de bandas independentes em Goiânia. É uma maratona com 15 bandas por dia, durante três dias. O Eta Carinae é a única representante de Pernambuco no evento.

Eta Carinae – Mirando a Estrela
Preço médio: R$ 20

Boas surpresas

Falem o que quiser da facilidade para pegar músicas na Internet. Nada substitui o prazer de comprar um ótimo disco pelo puro acaso. Atraído por uma capa bem simples, um fundo branco e um pequeno efeito na foto de um guitarrista, junto com um nome que parecia mais uma onomatopéia de uma metralhadora. “Ratatat”. Alguma coisa simplesmente parecia certo na caixinha perdida num mar de tantos CDs na prateleira da loja.

A mensagem do começo, falada em inglês, nem fez tanto sentido quando o “play” dava início aquela degustação injusta de 30 segundos. “Eu faço rap há 17 anos, ok? Eu não escrevo mais minhas coisas, ok?”. Isso mesmo, era todo instrumental. Guitarras, sintetizadores, palmas e beats. Rock, eletrônico e até minimalista. Um achado.

Da próxima vez que tiver um tempo livre, perca um pouco dele passeando naquela loja mais próxima. Escolha os CDs pelo acaso e perturbe um pouco o vendedor para ouvir cada um com cuidado. O prazer da descoberta vale muito mais que o mais rápido dos downloads.

Escute: Ratatat – Seventeen Years

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Sampa
Pernambuco está em alta em São Paulo. Durante essas últimas duas semanas, passaram pelos palcos de lá o Eddie, Bonsucesso Samba Clube, o DJ Bruno Pedrosa e o Mundo Livre S/A. Uma amiga de lá comentou que não adiantava marcar outro programa, porque todo mundo já estava certo que o show do fim de semana eram das bandas daqui.

Sirrose
O projeto de Silvério Pessoa cantando Reginaldo Rossi, o Sir Rossi, que foi adiantado aqui na Folha terça passada já tem datas para os primeiros shows. Claro, vai ser uma dobradinha com a Del Rey com músicas de Roberto Carlos. O encontro dos reis será no Clube das Pás, dia 07 de abril. Os ingressos vão custar R$ 12.

Internet
O Programa Independente, agora programa Recife Rock Independente, está colocando a partir de agora na Internet as edições que vão ao ar na Rádio Universitária. É só acessar o www.reciferock.com.br . Já o site CircuitoPE liberou, sexta-feira, seu terceiro podcast. Agora Fred 04, do Mundo Livre S/A, apresenta o novo e ótimo disco Bebadogroove. Para acessar: www.circuitope.org .

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix

Helder Aragão, o DJ Dolores, foi convidado para assinar a trilha sonora do filme Narradores de Javé. Preste atenção em quantos padrões do óbvio vão ser quebrados nas próximas linhas. Ele só está fazendo o lançamento agora, três anos depois da estréia filme. No lugar de usar seu nome, deu ao CD a assinatura de um coletivo de músicos e DJs de peso nacional. Fez tudo usando uma modelo de licença Creative Commons (CC), onde os artistas convidados tinham direito de fazer o que quiser com as composições. Até mesmo ganhar dinheiro com elas.

Não é apenas um disco é ousado. É também o primeiro, depois de muito tempo, em apostar na moral da própria música, e isso é muito legal. “Entreguei as faixas abertas para todo mundo”, explica Helder. “Alguns usaram só as baterias, outros usaram todos os instrumentos, dei liberdade total para cada um fazer o que quiser”, completa. No time, estão presenças de responsabilidade, como o paulista M.Takara (do Hurtmold), a banda Cidadão Instigado, o rapper BNegão e outros artistas do coletivo Instituto.

O convite veio do próprio Helder. “Acho bacana você ter sua música trabalhada por outros artistas dessa maneira”, diz o DJ, que não esconde ser tambem fã do Creative Commons. Uma licença que permite o autor dar a liberdade que acha necessária sobre sua obra.

Essa distância entre filme e disco é exemplo da utilidade da licença CC. “Tive alguns problemas para legalizar a participação de todo mundo”, explica Helder. Se todos já trabalhassem neste formato, o processo teria sido praticamente automático.

O próximo passo de Dolores é colocar as faixas originais na Internet, com a licença especial, para que todos possam fazer seus próprios remixes. É uma ação inédita para um artista de Pernambuco, a primeira no Brasil que atinge um disco inteiro de um artista que é referência no mercado. Antes disso, Gilberto Gil havia liberado apenas uma faixa em CC, a Oslodum.

Todas essa idéias nem passavam pela cabeça da diretora do filme, Eliane Caffé. Mas conseguiu casar em 100% com a decisão dela pela escolha de Dolores na trilha sonora. Em entrevista para a revista Época, ela disse que “[na cidade onde o filme foi feito] Algumas casas não tem nem banheiro, mas a população está ligada no mundo. DJ Dolores tem essa nordestinidade contaminada pela sonoridade externa ao sertão”. Comentário exagerado, mas que cabe bem na descrição do CD.

Disco
Falar em samplers é sempre complicado. Ainda mais num disco de compilações, que são fomosas por serem sempre tão irregulares. Não é o caso da trilha de Narradores de Javé. A cumplicidade do coletivo Instituto é a primeira coisa que chama atenção no disco. As batidas e remixes tem um carga forte de experimentação, sempre recheada com muita influência hip hop. Vantagem de quem não vai precisar circular com um show deste trabalho. Sempre puxando a próxima faixa, o disco prende o ouvido pela curiosidade.

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix
Gravadora: Independente / Distribuição Tratore
Preço: R$ 23,90
Para comprar: Submarino
Escute aqui:

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