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Música, tecnologia e negócios

No meio dos arranjos e sombrinhas do frevo que inundam o clima de Carnaval que já toma cada esquina da cidade, começa uma maratona de debates, palestras, shows e simples conversas que vão funcionar como um oásis de oportunidades para quem produz e compõe música. Com base no bairro do Recife Antigo, o Porto Musical abre sua programação até quarta-feira desta semana prometendo fervilhar de boas idéias e parcerias na cidade.

É um evento de interesse internacional. São 34 palestras, que falam sobre como importar a música brasileira, exportar a internacional e integrar essas propostas com tecnologia. E, por isso, está reunindo gente de todo o mundo no Recife. “A editora de música do Le Monde (principal jornal da França), Veronique Montaigne, já está na cidade”, adianta a produtora executiva do Porto Musical, Melina Hickson, da Astronave Iniciativas Culturais.

Segundo ela, a expectativa é que essas pessoas possam movimentar ainda mais o mercado de música, não só local, como nacional. “Peter Hvalkof, um dos conferencistas, é também o organizador do segundo maior festival de música pop na Europa, o Roskilde, e ele também vem para cá como olheiro, prestando atenção no que está acontecendo aqui para poder apresentar lá”, diz Melina. Ela também lembra da presença de Jean François Michel. “Foi ele quem criou o conceito de bureau de exportação de música e, por ano, passa pela mão dele um orçamento gigante só para investir em música”.

E quem vem para o Porto Musical, pretende aproveitar para ficar na cidade até o fim do Carnaval. Não só para aproveitar a festa, mas também para aproveitar e levar mais material para fora. Caso do jornalista paulista Alexandre Matias. Ele colabora constante para a revista Bizz e o jornal Folha de S. Paulo e, depois da palestra que faz aqui, onde vai debater sobre como a indústria do entretenimento pode ficar mais padronizada ao gosto do cliente, ele pretende ficar atento na movimentação local.

“Eu estou fazendo um projeto com Fred Leal, que vai fazer a conferência comigo, para a gente emendar com o Carnaval, aparecer no Recbeat e montar um ‘podcast’ (rádio online) com uma cobertura do que está acontecendo na cidade”, adianta. Segundo ele, se o projeto acontecer, eles vão “entrevistar pessoas nas ruas, artistas e comparar com opiniões de outros [conferencistas] de fora que também vão estar no Recife”.

Matias e os já citados europeus são apenas alguns, dos vários que, têm hoje o poder de colocar um artista na grande mídia, numa grande rádio ou até mesmo uma grande gravadora. Outros nomes são Fabrício Nobre e Rodrigo Lariú. Eles chegam representando as duas principais gravadoras independentes de verdade no País, a Monstro Discos e a MMRecords. Quem ficar atento aos nomes na programação do evento, pode terminar o Carnaval com malas prontas para uma carreira fora de Pernambuco.

Quem também está na cidade, de olho no Porto Musical, é o Ministro da Cultura, Gilberto Gil. Ele vem para anunciar, hoje mesmo, a parceria entre Brasil e Alemanha na feira Popkomm. Será a primeira vez que um país não-europeu participa do evento. O Brasil leva para seu estande, que terá 150 metros quadrados, 26 shows de artistas nacionais para apresentação internacional.

Shows
Além dos debates, uma programação de shows foi organizada na Praça do Arsenal, com acesso aberto ao público. Virgínia Rodrigues, novo nome de sucesso em Salvador, faz a abertura dos shows no palco onde também vão passar as promessas Bumcello (França), The Gift (Portugual), La Pupuña (PA), entre outros, com os locais DJ Bruno Pedrosa e Bonsucesso Samba Clube.

Programação da segunda-feira (outros dias no site oficial)

Segunda-feira
Porto Digital Apolo
10h
Brad Powell
O Futuro da música independente
Jerome Vonk
Exportação da Música do Brasil
11h
Jorge Maldonado
América do Sul, Internet e as músicas do mundo
Michel Nicolau e Sérgio Sá Leitão
Exportação da música do Brasil
12h
José Carlos Cavalcanti
Incentivando as Indústrias Criativas em Pernambuco e no Brasil
Ney Messias
TV e Rádio Cultura
13h
Almoço Almoço
14h30
Bas Boorsma e Paul T. Morris
INEC International Network e-Communities
Johannes Theurer
Networking excelente cria redes de excelência
15h30 Filipe Luna
O sampler a composição musical
Alex Webb
De olho nos prêmios – A experiência da BBC
16h30 Gian Uccello
Relação gravadoras x telefonia móvel
Zjakki Willems / Jeroen Revalk
Titin na terra do mangue
Go Digital | Go Internacional | Go Brazil

Vou ver se faço um fotolog da cobertura aqui no site

Transformer

Boas idéias demoram, mas eventualmente, chegam. Em dias onde todo mundo inventa de ser DJ, Bruno Pedrosa (do núcleo dos DJs de padaria) dá um reforço classe A no repertório das noites da cidade. “Transformer”, CD que nasce com patrocínio da Chesf, traz músicas de artistas pernambucanos remixados por DJs que vão do dono da idéia à presenças nacionais, tipo o Drumagick (SP). As 14 faixas tem desde Cordel do Fogo Encantado à Mundo Livre S/A com programações que ficam entre o drum’n’brass e tecno.

Tudo feito com responsabilidade. Bruno Pedrosa fez questão de pedir a versão “master” (a que tem a voz e instrumentos gravados em canais diferentes) para cada artista. Deu liberdade artística para cada DJ convidado fazer da maneira que achasse melhor o remix. Assim, no som, não tem nada de realmente modernoso. Essa é a melhor parte do CD, que não embarca na moda trance ou no afetado electro para embalar músicas tão regionais. Todos os sons casam muito bem na “versão pista”.

O disco já abre com uma preciosidade. É a música “Morte e Vida Stanley”, do Cordel do Fogo Encantado, que ainda não tinha sido registrado pela banda em nenhum disco. Nesse mesmo quesito, traz também “Meu Esquema”, do Mundo Livre S/A. A trupe de 04 tinha perdido as masters quando se desligou da primeira gravadora. Entraram em estúdio para refazer tudo, apenas para participar do disco. Por isso, aproveitou ainda para entrar em versão acústica, encerrando o “Transformer”.

Apesar de vir com esse estigma, “Transformer” não é para ser tomado como um “disco de festa / balada / pista”, etc. Dentro dessa categoria estão “Na Boléia da Toyota”, de Silvério Pessoa com remix do Drumagick e “Deixe-se Acreditar”, do Mombojó em versão BTK and Spleen. Fora dela, estão “O Baile”, de Erasto Vasconcelos e “Veja Lá”, do Bonsucesso Samba Clube, em climão de Lounge Eufrásio Barbosa com batidas leves e discretas.

A versão jungle de Mombojó está entre os pontos altos de todo o disco. Não altera arranjo nenhum da música, apenas com as batidas “anosnoventa” por cima, casando tudo com perfeição. Consegue renovar o clima da banda de uma maneira legal e com cara que vai dar muito certo numa festa perdida na noite da cidade.

Cotação: [rate 5]
Escute: Mombojó – Deixe-se acreditar / BTK and Spleen remix
[http://www.popup.mus.br/mp3/mombo.mp3]

Diplo – Florida

Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

Publicado originalmente em 01.10.05

Virou moda

Não foi o pop dos anos 90, indies, nem a música com interferências eletrônica ou regionais. Quase ninguém se deu conta, mas o que acabou virando moda foi mesmo o gênero “mpb-rock-em-cima-do-muro”. Começou com o surto do Los Hermanos e hoje as bandas que mais chamam atenção de público e crítica são a Nervoso, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Cidadão Instigado, Columbia e a lista segue, sem ter medo de soar pop demais.

Recife, por sinal, está muito bem nessa onda. Mombojó, Parafusa, Mula Manca e a Triste Figura, Del Rey e, forçando um pouco a barra, até a Rádio de Outono. O mais curioso é que essas são as músicas mais simples. Ninguém parece estar muito interessado em inovação ou rebuscamento. Por isso, não dê ouvido ao exagero que fazem com forçada invasão de referências que a mídia do sudeste persiste. Confie nos palcos.

No embalo
Procurando por sons interessantes no festival Cultura Independente, uma banda conseguiu ser realmente surpreendente: a Circo Vivant. Trompete, trombone, teclado, baixo, guitarra e voz, climão de Roberto e Erasmo com circo, que não tem medo de parecer com Los Hermanos na época boa – aquela onde eles ainda faziam melodia. A banda já se apresentou no Pátio do Rock e, ao vivo, parecem ser ainda mais promissores que no primeiro CD Demo. Quem quiser conferir, é uma ótima aposta para 2006. As músicas estão no site www.tramavirtual.com.br/circo_vivant.

Falando em moda
O jornalista paulista Lúcio Ribeiro deve ter gostado da comida típica do Recife. Ele vai voltar a cidade pela terceira vez em menos de cinco meses com sua festa “Popload”. De tanto querer lançar modas na sua coluna, ele decidiu fazer parte do mundo fashion e chega direto de uma apresentação no São Paulo Fashion Week. Aqui, ele toca na abertura da Comtex, feira importante para a indústria têxtil e mercado de roupas do Nordeste.

Na Internet
Ninguém faz a menor idéia ainda de quem seja Ewerton Assumção. Sua música, “Vou te excluir do meu orkut” foi a mais comentada na rede nessa última semana. Já tem até a letra no portal Terra. Quem também vazou na rede foi “Meds”, novo disco do Placebo, bem regular, sem hits certos e que promete passar batido.

Publicado originalmente em 24.01.06