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Mada 2007 – Segunda noite

Na segunda rodada de shows, ficou claro que este ano o Mada perdeu alguma coisa. Complicado dizer tão em cima o que foi, mas eu apostaria na programação. Poucas surpresas, quase nada para se levar para casa na memória. A chuva contribuiu bastante também para esse resultado. Pouco menos de 3 mil pessoas, quando nos anos anteriores costumava passar de 10. Sempre que isso acontece, o “formato festival” acaba sendo colocado em cheque. Muita oferta para pouca demanda igual à circulação irregular de tantas bandas.

Esse “cheque”, ou falência, fica fácil de ser notado ao se assistir tantos shows em seqüência. O novo discurso independente é de que o palco é mais importante que o disco. Verdade. Mas poucos ainda se preocupam com o fato de que estão ali para uma experiência visual, não apenas sonora. Dessa última parte, a responsabilidade é da equipe técnica. E considerando a inexistência acústica da beira-mar, o Mada cumpriu sua função de maneira excelente. Jogou para as bandas a responsabilidade final, mas elas deixaram a peteca cair.

Pandora no Hako é uma banda local. Bandas “de proposta” são as mais difíceis. A deles é a de misturar músicas de antigas séries e desenhos animados japoneses num desafinado metal melódico. A informação passa despercebida para quem não é um iniciado. Se fossem armados de um cosplay, com o mínimo de preocupação estética no visual, teriam chamado atenção. Como não fizeram, foram apenas esquisitos e esquecíveis. Abriram a noite apenas para a comunidade nerd local.

Enquanto o Lucy and the Popsonics, de Brasília, tinham essa preocupação em mente, mas certamente centrada nos palcos pequenos onde já se apresentaram. No espaço enorme que um grande festival oferece, a dupla ficou perdida no que poderia ter sido um ótimo show. Mesmo caso da carioca Manacá. Boa performance, mas banda que deixa a desejar, principalmente quando se separam demais no tamanho grande do palco. Potencial desperdiçado.

A noite deu a primeira melhorada com o Rockassetes, de Sergipe. A banda tem hits certos no repertório, e isso já os coloca muito à frente de várias que passaram por esses três dias do repertório. Falta apenas um pouco de maldade na postura do palco. Coisa que eles conseguiram somente no fim dos 30 minutos de show. Conversando com os integrantes depois, eles entregam logo o jogo de que é a ansiedade de estar num grande evento. Mas se o festival é o novo “peneirão-vestibular” do rock independente, criar expectativas demais pode acabar reprovando.

Toda essa questão sobre “o que mostrar no palco” fica ainda mais crítica com outra local, a Memória Rom. É como assistir um ensaio. Ok, um ensaio mais empolgado, mas ainda assim pouca preocupação visual, traduzida em calça jeans, camisa de algodão e uma banda que ficou meio neurótica no palco. Eles já tinham se dado bem em outro festival local, o DoSol, mas acabaram se prejudicando no Mada.

Nessa seqüência tediosa, uma banda como a Cabaret já sobe no palco sabendo onde mirar para o gol. São personagens, com visual, roupa e hits em cada manga. Quem passar por perto, para. Quem parar, canta. E quem canta, vira cúmplice da brincadeira toda que eles fazem no palco. É difícil medir algo que não seja jabá para uma banda acontecer, mas se existir, então é apenas isso que falta para esses cariocas.

De todas as apresentações da noite, o Mellotrons pareceu a que estava mais em cima do muro nessas questões. São de fora, mas tem um público local que berrava cada letra exatamente na frente do palco. Eles tem “hit” – dá pra sair do show cantando pelo menos umas duas músicas de cabeça – mas o inglês infelizmente acaba sendo um obstáculo. O peso contra, na real, é que eles trazem informação demais para o palco. Isso não é ruim. Até porque eles mostram que se divertem bastante improvisando teclados e outros instrumentos, mas para um público que está sendo bombardeado de shows numa única noite, compromete. Quem não estiver grudadinho ali na grade, acompanhando os sorrisos, se dispersa logo.

Mesmo não sendo de Natal, já vi shows suficientes do Bugs para afirmar sem medo que eles são a grande banda de rock dessa cidade. Por terem essa maldade necessária para o palco, boas músicas, maturidade, etc, etc. E como toda banda, também mandam uma bola fora. O show funcionou para quem era local, mas se colocarmos eles nessa lógica do festival como um funil de novas bandas, hoje eles teriam ficado na borda.

A maior surpresa da noite foi o Mombojó. Não sei o que colocaram na água da cidade para a presença deles atrair tanta gente assim, já que eles não tocam em rádio, não estão nas paradas, nas novelas, nem nos canais tradicionais. E pela primeira vez, desde os incontáveis shows que assisti dessa banda, desde que eles tinham apenas metade dos integrantes e se chamavam Play Damião, eu vi eles saberem o que fazer com tanto público.

Show violento, com o vocalista Felipe S correndo e se contorcendo, subindo, pulando e caindo por todo canto do palco. Talvez seja aquela troca secreta que artista e público faz no palco. O Mombojó parece finalmente ter recebido o suficiente para oferecer algo no palco. No momento final, com Deixe-se Acreditar, um jornalista carioca que assistia o show ao meu lado chegou a dizer “caramba, parece até que são os Beatles de tanta comoção”. Meio exagerado, mas ótimo para passar uma idéia de como foi.

Mas o melhor show da noite, foi mesmo do Moveis Coloniais de Acaju. O que falei antes sobre o Cabaret, se aplica nessa banda de Brasília multiplicado por 30. Porque, aqui, quem olha também pula feito pipoca, grita bastante e sorri na frente de toda a metaleira da banda, formada por nove pessoas, correndo feito loucos no palco. Com o buraco deixado pelo Los Hermanos, eu aposto que falta pouco para esse se tornar a próxima grande banda jovem do Brasil.

O Mada também serviu para desmistificar essa história de que Natal tem uma grande relação com o Detonautas. Quando eles subiram no palco, numa pose meio hippie pró-paz que não cai bem no novo discurso social e anti-violência da banda, boa parte do público fez questão de ir embora. Média de 1000 pessoas encararam a chuva para curtir um show que teve até Raul Seixas e só terminou depois das 4h da manhã.

Festival DoSol em vídeo

Os programas que a Trama Virtual fez quando esteve lá. Eu apareço em um, mas só de costas. :)

Programa 1

Programa 2

Café com discos

Café da manhã em Natal. Encontro histórico, passando despercebido pela fila para pegar o pão com queijo, bolo e leite. A mesa do canto está com Fabrício Nobre, do MQN e Monstro Discos, Fred 04, o pessoal do Walverdes, alguns jornalistas, todos disfarçam sua ressaca numa conversa sobre projetos futuros. Aquele papo de que ninguém está comprando disco, que lembrou da edição passada desta coluna. Todos viajando longe em histórias de lançar singles em vinil, disco duplo com DVD. A idéia é pegar aquele público mais louco mesmo, que ainda gosta de comprar música por kg.

Igual um rapaz que estava lá no festival DoSol. Desesperado, com as mãos coçando para por as mãos no Bebadogroove, do Mundo Livre. “Eu estou doido por esse disco, mas agora eles só vendem em shows, por isso nunca encontrei”. É nessas que a gente entende que as idéias de 04 nem são tão loucas assim. Um dos stands lá faturou mais de R$ 1 mil em vendas. Foi só falar no palco que “o CD tá a venda logo ali”, que todos saíram marchando para comprar. Foi bonito de ver.

Os pais
Se você é feito os potiguares, que adoram um hardcores melódico sem cair nesse papo de emo, vai gostar dessa notícia. Já ouviu falar no NOFX? Uma das banda mais legais de todas. Pais de todo esse papo de punk da Califórnia. Conhece? Pois comece a juntar uma graninha, que os meninos estão chegando no Brasil. Vai ser histórico.

Fotos
O festival Coquetel Molotov já começou. Lá na Livraria Saraiva, eles colocaram uma exposição das fotos dos shows da edição passada. Material bonito, revelado em papel fosco, bem charmoso. Vale uma conferida para começar a empolgar.

Promoção
Agora já era. Só para quem lê antes no jornal, DVD Cliperarama da Deckdisc. Coleção de clipes da gravadora, com Cachorro Grande, MxPx, Marcelinho da Lua e uma pá de gente.

Fóssil cearense

Então. Sei que a primeira parada dessa turnê de boas bandas começou longe, mas agora já volta para o Nordeste. Lá no Ceará, a terra do Cidadão Instigado, tem também uma outra ótima, chamada Fóssil. “Um grupo de música instrumental, fortemente influenciado pelo rock e pela música experimental, que usa bastante efeitos e repetições em suas músicas”. Quem explica é o baixista Frizzo. A Fóssil nunca repete a forma que uma mesma música é tocada.

A banda é formada por George Frizzo no baixo, Vitor Collares e Eric Barbosa nas guitarras e Victor Bluhm na bateria. As melhores referências para pensar na música da banda são difíceis. Daqui, tem a Superoutro com um som parecido. De fora, tem a inacessível Explosions in the Sky. Eles já apresentaram no Festival DoSol, ano passado em Natal, que teve um espaço grande para a música instrumental. “Fortaleza tem uma agenda muito bagunçada, mas todo fim de semana tem show das bandas daqui”, explica Frizzo.

O disco da Fóssil está à venda em qualquer loja, com distribuição da Peligro/Open Field. Quem quiser conferir antes, é só acessar o www.tramavirtual.com.br/fossil

Devotos
Já dá para conferir uma prévia do próximo disco do Devotos. A banda promete o novo trabalho para agosto, mas ainda sem data específica para o lançamento. Por enquanto, três músicas estão disponíveis no site www.devotos.com.br

Sem noção…
A rádio Transamérica se gabar de 30 anos com festa aqui na cidade. Eles se tocaram que a programação com Timbalada e Lulu Santos estava ridícula e colocaram um nome local. Para tentar superar o absurdo, escalou a Terceira Edição, que acabou não tocando porque quando o axé terminou já era tarde demais.

Internacionais
Uma produtora do Recife já sinalizou interesse em trazer para cá os shows do Slayer e de Ziggy Marley. Para quem ainda não estava sabendo, ambos têm datas marcadas em agosto e setembro no Sudeste. Quando tiver mais confirmações, você fica sabendo primeiro aqui.

Promoção
Então. Quem lê a coluna no jornal – todas as terças, na Folha de Pernambuco – também concorre a CDs. O desta semana é um do Cidadão Instigado e da banda Fóssil. Se você chegou agora, mais sorte na próxima. Quem levou o do Mombojó e Cabaret (RJ) foi Nataly Costa.

Mais trabalho sujo

Mudar é sempre um processo complicado. Nos últimos três anos, os festivais tem feito um esforço considerável para mudar os hábitos do público do Recife. Mostrar que uma banda como o Rappa ou Los Hermanos já cabem num contexto sozinhas e não num grande evento. Trazer o que tem de novo, bom e interessante na música parece um serviço desanimador quando se encontram públicos de pouco mais de mil pessoas (como aconteceu em 2005 no Coquetel e este ano no Abril).

Mas eles seguem como quem dá murro em ponta de faca. E, por essa iniciativa saudável, os festivais estão de parabéns. Mudar o hábito de quem gosta de música vai ser um processo lento e constantemente questionável. Mas é necessário. Recife precisa parar de ser essa cidade que “não dá dinheiro para músico”, frase que já está virando clichê pela mídia.

Motorhead
O produtor Paulo André Pires (Abril pro Rock) confirmou que está negociando a vinda da banda Motorhead para o Recife em outubro. Faz parte de uma parceria dele com o festival Live’n'Load, que já resultou na vinda do Atrocity para o país. Sinal que a história pode dar certo.

Europa
Silvério Pessoa e o Mombojó já estão com datas marcadas para turnê na Europa em maio. Os gringos vão rever a turnê do “Cabeça Elétrica, Coração Acústico” e conhecer – sim, antes de nós mesmo – os shows para o novo “Homem-Espuma”.

Punk
Não recomendo perder essa. Quinta-feira, a galera do Cólera re-configura a banda e vira o Rádio Clash. Sim, se todo mundo anda fazendo projeto de homenagem, eles vão mandar um repertório do The Clash em show no Novo Pina, às 22h.

Bobagem
Alexandre Matias, dono do verdadeiro Trabalho Sujo, está sendo detonado no orkut apenas porque registrou no Trama Virtual suas impressões sobre a cidade de Maceió. O pessoal só está provando que é realmente atrasado fazendo esse tipo de bobagem

Absurdo
Roubaram a sanfona de Arlindo dos 8 Baixos. Praticamente um patrimônio da música nordestina, o instrumento e o instrumentista. Para ter uma idéia, Arlindo, que é cego, só voltou a tocar o 8 baixos depois de muitos pedidos de Luiz Gonzaga. Agora, está ameaçando que não toca mais.

DoSol
O festival de Natal revelou algumas boas novidades para nós (eu e agora vocês). Confirmados: Dance of Days, Ludov, MQN, Parafusa e Carfax. Em negociação: Dead Fish e Forgotten Boys. No puro chute: parece que vai ter Cordel também.

Pensando aqui…
Será que o Recife merece receber novidades? A informação que chegou até este colunista era que na sexta-feira do Abril pro Rock, tinha mais gente no Garagem (sim, numa borracharia) que no show do Stereo Total. Meu voto é para que “não, não merece”.