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Novas bandas do Recife: Electrozion

Não deve ser muito arriscado dizer que existem duas Electrozion‘s. A primeira é a das gravações que você encontra na integra no SomBarato e em trechos no Myspace. A segunda é a que faz apresentações ao vivo, ao menos teoricamente, com as mesmas músicas. Coisa de quem ainda tá se encontrando no som que pretende fazer. Descomplicando a teoria, o trocadilho no nome (electro + zion) é justamente a melhor explicação para a música feita por Padrones, Léo Vila Nova, Ju Orange e Peter Noya. Reggae + Programações… ou, como eu prefiro chamar, dub do espaço.

Ao vivo as músicas são bem mais lineares. Remetem direto ao gênero mais antigo, com uma programação mais leve. Ao vivo, a coisa muda de figura. O dub do espaço cantado por uma mulher encontra um interlocutor rapper de timbre grave e, de repente, sobram referências a nomes como Gorillaz e The Good, the Bad and The Queen. Não é para tanto, apenas um caminho fácil de visualizar a parte etérea deles.

Ju explica ai nos comentários o porque da diferença. Além desses quatro, quando eles se apresentam ao vivo sempre trazem um convidado. Sacada inteligente que evita a mesmice nos shows, com você sabendo agora que precisa ir a todos sem saber muito bem o que pode encontrar de novo.

A Electrozion entra no circuito ainda de forma tímida, com uma boa apresentação no Festival de Inverno de Garanhuns, mas ainda sem ser percebida por eventos mais voltados a cena independente. Sinal dos tempos. Uma dificuldade que essa galera – dos festivais, não a das bandas – vai enfrentar daqui pra frente quando os gêneros ficarem difusos demais e os eventos segmentados demais. Em que noite de um grande festival você encaixaria, por exemplo, The Mobius Smile, essa faixa ai abaixo? Tem que se adaptar, para não praticar o mega vacilo de deixar de fora.

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LCD Soundsystem – Sound of Silver

LCD Soundsystem

Quando me disseram essa semana que o novo disco do LCD Soundsystem era muito melhor que o primeiro, minha reação foi “preciso ouvir de novo, tem algo errado”. Na hora, mantive minha opinião: super chato. Mas quando voltei as faixas aqui no computador, pensei que todo mundo que me falou bem estava ouvindo o disco em algum MP3 player desses portáteis. Veio o estalo… peguei um fone e descobri o segredo. James Murphy é um gênio. “Sound of Silver” deve ser o primeiro álbum feito para ouvir com fone de ouvido. Todos os barulhinhos saindo direto de uma caixa de som perdem a graça.

E quem é esperto se ligou que isso não deixa o disco individualizado. Muito pelo contrário. Get Innocuous abre o repertório com barulhinho insuportavelmente grudante e, se ouvido num volume ensurdecedor, é capaz de criar alucinação. Consigo imaginar uma festa inteira – começo, meio, banheiro e fim – apenas com esse “Sound of Silver”. Afinal, tudo que a gente escuta no exagero dos volumes de um fone de ouvindo cai perfeitamente na pista de dança. Feito para doer nos ossos, são nove faixas que são muito melhores que aquele primeiro disco duplo inteiro.

Tem pelo menos uns cinco hits certos. E todo eles em sequência. Na segunda música eu já estava com uma tremedeira na perna, pensando “preciso tocar isso muito algo em algum lugar”. Como passava das 23h, eu não tinha muita opção. E é por isso que eu preciso dizer que esse novo disco do LCD Soundsystem tem alguma coisa de nervoso. “Aperriado”, em bom pernambuquês. Era quinta-feira e eu não tinha dinheiro para sair pela cidade com um pendrive na mão para pedir desesperadamente para alguém tocar isso bem alto. E de tanta falta de opção, fui abrir uma cerveja.

Em North American Scum – e nessa hora eu já estava ouvindo o disco pela quarta vez – eu me dei conta que, no fundo, esse “Sound of Silver” é muito mais para vodka que cerveja. Na minha opinião, essa música é a melhor de todo o disco. É a nova Daft Punk Playing at My House, com direito a mensagem política. Alías, uma coisa que ficou clara ainda na primeira vez que ouvi é que James Murphy anda muito mais deprê. E acho que prestar muita atenção nisso – coisa que fiz no começo – também deixa a gente deprê. Ele está cheio de “nós somos o lixo da America do Norte”, “nós contra eles” (no velho trocadilho do ‘us’, que é nós em inglês, com a sigla U.S, de United States).

Se tem algo que não mudou, nessa overdose toda de músicas, foi a que da nome ao disco. Eu não explicar muito bem o motivo, mas acho que é pq a voz grave não funciona com o LCD, que é tão agudo. E tem esse batidão quase 7 melhores da jovem pan. Voz grave, com baixo grave por trás, com batidão baixo astral = algo errado. E se isso é o que dá nome ao disco, bom, então tem algo ainda mais errado. Mas, paciência. Um para nove é uma boa proporção, maior que muito disco legal até.

O que pega de surpresa é a última música. Essa sim, a realmente deprê do disco. E talvez uma das melhores de todas. “New York I Love You” é linda, lentinha, com um clima de nariz fungando de tristeza. A frase título se completa no refrão com “but you bringing me down”. Lembrei de uma entrevista que li com James Murphy que o título era “o rei de Nova York”. Se a relação do “rei” com a cidade está mal e isso significou um disco tão bom… então fique mal James Murphy. Fique muito mal. Nós agradacemos.

Sound of Silver só chega nas lojas daqui uns meses. Mas já vazou todo na Internet. Faz um esforço que não é difícil encontrar ele para baixar! =)

Eta Carinae – Mirando a Estrela

A música mais alternativa do Recife se divide em dois blocos bem distintos. O primeiro procura atingir uma estética própria, um tipo de música que cause dor de cabeça quando o dono da loja tiver que escolher em que seção vai entrar o disco. O segundo não se importa em assumir referências, fazendo música que é fácil de se associar a outras bandas. “Mirando a Estrela”, disco novo do Eta Carinae, está no primeiro grupo, misturando batidas eletrônicas com melodias regionais. Música urbana, contemporânea e cheia de fôlego, daquelas que são “tipo exportação”.

As batidas do Eta Carinae são convidativas. A banda assume um risco de misturar sotaques com canções orgânicas, que são preguiçosamente associadas ao genérico World Music. Mas faz essas misturas com segurança e supera pré-conceitos que possam surgir no caminho. Tem groove, com dub, samba e samplers e algo que parece guitarra. Parece, porque tantas texturas convidam até o ouvinte mais desatento a confabular leituras de cada instante da canção.

Dirceu Melo, ex-Jorge Cabeleira, vocalista e dono da idéia da banda, e sua trupe foram espertos. Esse é o som das contradições. Excessivamente urbano e moderno, mas que só encontra liberdade criativa em terras áridas do Nordeste. Como DJ Dolores e Silvério, ele faz uma música boa que vende como água onde quem tem a cabeça aberta para melodias. Pode não ser o tipo de música que lote uma festa no Recife, mas quando entra na ponte aérea São Paulo – França, vira sucesso. A mão dupla do pré-conceito não deixa os modernos daqui aceitarem essa música, mas deixa quem é de fora aceitar, porque nos vê então modernos.

O disco tem 15 músicas. No geral, elas falam do cotidiano, de amores e a constante necessidade do movimento. “As minhas pernas já estão coçando” e “Lua minha, me apresente ao sol / para não ficar só eu e você” estão entre os versos mais espertos de Dirceu. Eles são entoados por Karina Falcão, dona da voz que dá o resgate orgânico e regional para as músicas. Tem ainda trompete, teclado (Andrét Oliveira), bateria (Fabio Xucurú) e baixo (Kennedy Costa), que somam na programação dos samplers (Dirceu).

E a medida que as músicas se reinventam, permitem que “Mirando a Estrela” seja um disco longo, mas sem ser cansativo. A banda se programa para lançar um single virtual, com músicas de graça na Internet, através do selo RecifeRock discos ( www.reciferock.com.br). Também foram escalados para participar do Bananada, festival de bandas independentes em Goiânia. É uma maratona com 15 bandas por dia, durante três dias. O Eta Carinae é a única representante de Pernambuco no evento.

Eta Carinae – Mirando a Estrela
Preço médio: R$ 20

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix

Helder Aragão, o DJ Dolores, foi convidado para assinar a trilha sonora do filme Narradores de Javé. Preste atenção em quantos padrões do óbvio vão ser quebrados nas próximas linhas. Ele só está fazendo o lançamento agora, três anos depois da estréia filme. No lugar de usar seu nome, deu ao CD a assinatura de um coletivo de músicos e DJs de peso nacional. Fez tudo usando uma modelo de licença Creative Commons (CC), onde os artistas convidados tinham direito de fazer o que quiser com as composições. Até mesmo ganhar dinheiro com elas.

Não é apenas um disco é ousado. É também o primeiro, depois de muito tempo, em apostar na moral da própria música, e isso é muito legal. “Entreguei as faixas abertas para todo mundo”, explica Helder. “Alguns usaram só as baterias, outros usaram todos os instrumentos, dei liberdade total para cada um fazer o que quiser”, completa. No time, estão presenças de responsabilidade, como o paulista M.Takara (do Hurtmold), a banda Cidadão Instigado, o rapper BNegão e outros artistas do coletivo Instituto.

O convite veio do próprio Helder. “Acho bacana você ter sua música trabalhada por outros artistas dessa maneira”, diz o DJ, que não esconde ser tambem fã do Creative Commons. Uma licença que permite o autor dar a liberdade que acha necessária sobre sua obra.

Essa distância entre filme e disco é exemplo da utilidade da licença CC. “Tive alguns problemas para legalizar a participação de todo mundo”, explica Helder. Se todos já trabalhassem neste formato, o processo teria sido praticamente automático.

O próximo passo de Dolores é colocar as faixas originais na Internet, com a licença especial, para que todos possam fazer seus próprios remixes. É uma ação inédita para um artista de Pernambuco, a primeira no Brasil que atinge um disco inteiro de um artista que é referência no mercado. Antes disso, Gilberto Gil havia liberado apenas uma faixa em CC, a Oslodum.

Todas essa idéias nem passavam pela cabeça da diretora do filme, Eliane Caffé. Mas conseguiu casar em 100% com a decisão dela pela escolha de Dolores na trilha sonora. Em entrevista para a revista Época, ela disse que “[na cidade onde o filme foi feito] Algumas casas não tem nem banheiro, mas a população está ligada no mundo. DJ Dolores tem essa nordestinidade contaminada pela sonoridade externa ao sertão”. Comentário exagerado, mas que cabe bem na descrição do CD.

Disco
Falar em samplers é sempre complicado. Ainda mais num disco de compilações, que são fomosas por serem sempre tão irregulares. Não é o caso da trilha de Narradores de Javé. A cumplicidade do coletivo Instituto é a primeira coisa que chama atenção no disco. As batidas e remixes tem um carga forte de experimentação, sempre recheada com muita influência hip hop. Vantagem de quem não vai precisar circular com um show deste trabalho. Sempre puxando a próxima faixa, o disco prende o ouvido pela curiosidade.

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix
Gravadora: Independente / Distribuição Tratore
Preço: R$ 23,90
Para comprar: Submarino
Escute aqui:

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Dois em um: Four Tet e Mamelo Sound System

A música eletrônica se cansa num ritmo impressionante. Só não é mais impressionante que o ritmo, ainda mais rápido, que ela se renova. Características de trabalhos que, na pista, tem uma vída útil bem curta. Esse mês, as lojas receberam representantes desses dois extremos. O primeiro, o cansado, é o remix do remix feito pelo Mamelo Sound System, parte do coletivo Instituto. O segundo, o renovado, é o “Everything Ecstatic”, disco de número quatro na carreira solo do guitarrista Kierram Hebden, que prefere ser apresentado como Four Tet.

O disco legal, o de Hebden, tem uma sensação de “big band” de jazz nas músicas que saem direto de um laptop. As colagens, envolvidas por remixes e samples, somam numa experiência dançante, divertida e com uma textura bem organica. É boa música eletrônica, que não se vende pela batida, mas sim pelo conjunto, como se os acordes e notas funcionassem como timbres. Você escuta, volta a música e consegue encontrar sempre novos detalhes.

Algumas músicas, sozinhas, já rendem uma boa festa. Outras, no todo do material, acabam estregando um pouco o disco. São lentas demais, reflexivas demais e deixam pesado um um som que já tem muitas referências. Acaba deixando o CD irregular demais. Ainda mais considerando que “Everything Ecstatic” tem apenas 10 faixas. Tirando essas mais tercinadas, faixas como “Sleep, eat food, have visions” e “and then paterns” são viagem pura.

Já a experiência do Mamelo… é uma coleção de excessos. A começar pela proposta de remixar um disco que já tinha samplers próprios. “Mega-Montagem Urbália”, remix assinado por Tejo, surpreende. Dá a impressão que o restante da faixas vão ser mesmo um bom negócio para o ouvinte. Mas para quem chega com a proposta de fazer uma compilação de mixes, “Operação: parcel ou remixália”, como é chamado o disco, tem muito mais hip hop que o esperado.

O contexto do disco é complicado. Aa “remixália” é também uma homenagem as referências sonoras da cidade de São Paulo. Mas um lugar de tantos ritmos merecia batidas diferentes. Mas, uma verdade a considerar é que, talvez com apenas o hip hop, o disco consiga comunicar para mais pessoas.Afinal, as ditas “músicas paulistas” sempre são alvo de xenofobia fácil.

Bom mesmo, é juntar esses dois discos. Selecionar faixas é fácil, mesmo numa audição de 30 segundos de cada. Você anota as mais interessantes, vasculha a Internet e compila sua própria “festa-em-cd”. Afinal, trabalhos com distribuição independente sempre permitem – e agradecem – poder fazer parte desse contexto livre.

Four Tet – Everything Ecstatic
Gravadora: Slag Records
Preço: R$ 31
Para comprar: Submarino

Escute aqui: A Joy

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Mamelo Sound System – Operação Parcel ou remixália
Gravadora: YB Music
Preço: R$ 20
Para comprar: Submarino

Escute: Mega Montagem – Urbanália

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