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“Isso não é comercial, é independente”

Por falar em Autoramas, olha que legal essa entrevista que Gabriel Thomaz deu ao Last Splash. Ele fala sobre vinil, selos independentes, mercado brasileiro e compara a cena da década de 90 com a atual.

Entrevista: Mallu Magalhães

Mallu Magalhães é um dos mais divertidos acidentes que já aconteceu na música pop. Acidente porque chegou ao complicado prestigio de hype ao preencher a enorme carência de um público que, perto do fim da primeira década do milênio, não tinha mais novos ídolos na música nacional. Um buraco deixado por bandas como Los Hermanos e codificado em comportamento a partir de filmes como Juno. E que chega ao ápice agora que ela lança finalmente o primeiro disco, que leva o nome dela como título.

Essa carência se manifesta em dois públicos. Aquele que acha o máximo recitar as referências que ela faz a Bob Dylan e Johnny Cash, e aqueles que sentem prazer em condenar o simples fato de ela ter referências aos 16 anos. Faz lembrar até outros acidentes do pop, como o trio norte-americano Hanson, que também tinha uma música sem letra, Mmmbop, que grudava feito chiclete igual a Tchubaruba.

Mallu não se importa com isso. Completamente consciente do momento que está vivendo, a suspeita de que ela brinca com a própria idade é intrigante. Vai de respostas sérias a outras totalmente sem sentido quando parece que quer apenas despistar a entrevista. Como quando é perguntada sobre o que acha de, ao viajar, conhecer pessoas que se identificam com Tchubaruba; e ela responde que “além de conhecer a loucura dos aeroportos, conhecer novos olhos não tem preço”.

“Acho que a graça é não se importar com isso, sabe?, diz Mallu. “Tocar para quem quiser ouvir, seja de 10 ou 80 anos, de onde for, tanto faz”. Nessa hora, que a maturidade parece tomar de volta o rumo da conversa, ela chega a dar aula aos mais ansiosos por explicações e fecha com “música é assim”. E, assim, ela passa pelo palco de um festival médio como o Bananada, em Goiânia, ao Coquetel Molotov no Recife e o gigante Planeta Terra, em São Paulo.

Mas Mallu Magalhães ainda não aproveita esse circuito da mesma forma que as outras bandas e produtores que o integram. Sempre super protegida, ela chega na hora do show e sai logo depois. Sempre acompanhada pelo pai, ela ainda se comporta como alguém que não está perdendo muita coisa nessa programação. “Tem um pessoal fazendo musica de verdade. mas tem também muita gente fazendo a mesma coisa”. E antes de cair na responsabilidade da afirmação, regrede um pouco o diálogo para completar a frase. “Mas foi sempre assim, não é mesmo? Em todos os lugares, décadas… o legal é que temos muitos estilos… afinal, somos o Brasil.”

Nesse processo Fast Forward, o primeiro disco já chega com quase todas as músicas conhecidas pelo público. A diferença é que aqueles shows para quase ninguém em clubs de São Paulo – onde conheceria pessoalmente o então ex-namorado Hélio Flanders, do Vanguart – deram espaço para uma estrutura que, mesmo no meio independente, é gigante. Com assessoria, produção executiva, artística, segurança e até o patrocínio da Vivo, que vai distribuir o disco nos celulares de seus clientes. “É tudo bem natural, parte da mesma arte”, reflete Mallu. “Tudo está ali para complementar”.

“Eu tento sempre construir o mais verdadeiro e descobridor de mim mesma o possível”, arrisca a cantora. Em outras entrevistas que deu, ela sempre tem o cuidado de deixar respostas sobre a carreira na voz do empresário. Por isso, qualquer questão sobre como opera essa estrutura, ela deixa a cargo do produtor Rossato. O que esperamos sinceramente que mude, já que sua ex-banda, o Bidê ou Balde, não é exatamente um sinônimo de sucesso da música nacional. “Tenho uns planos de projetos paralelos. Mais discos, shows! viagens! desenhos!”, se empolga, como quem sabe que vislumbra um caminho complicado. “”O impossível assim vem também. As mais destemidas descobertas e abraços”

Mallu Magalhães oficializa sua carreira como parte de uma grife. Todas as músicas foram produzidas por Mário Caldato Jr., que já trabalho com grandes nacionais como Nação Zumbi, a pequenas lendas do lado de lá, como Beastie Boys e Beck. Ela chama ele de Marioca. “Antes de gravar, não sabia direito a função de um produtor, mas ficou evidente no estúdio”, conta. “Milhares eram as vezes que eu não sabia o que faltava e o Marioca ajustava um timbre, mudava de sala, colocava um efeito”.

E ela ainda encontra espaço para romantizar o processo técnico, dizendo que “as mesas antigas, os rolos de fita, o som dos chiados, todos foram escolhidos pela arte da intuição”. Arte que ainda não conseguiu dar a pegada certa ao principal porém de Mallu hoje nos palcos, que é a falta de entrosamento com uma banda de integrantes muito mais velhos. “Quando escrevo as músicas, tento passar para eles uma atmosfera quem vem do meu dentro. Eu bem que toco uns instrumentos, mas meus meninos são essenciais para caracterizar cada ponto”, explica a cantora.


Na faixa – Jimmi Hendrix era mais novo que Mallu quando começou a tocar, assim como Angus Young, ao fundar o AC/DC. Pouca idade, na música pop, está longe de ser um mérito. Mas o disco de Mallu já chega com a informação que foi gravado durante as férias, apenas para carimbar mais uma vez que ela tem apenas 16 anos. Algo que acrescenta pouco ao que se escuta faixa a faixa. E também chega caro, numa total falta de diálogo com o público com quem ela pode se comunicar.

“Compro cds sempre que dá, mas é caro”, concorda Mallu. “Eu fico esperando, escolhendo bem, até que vou e compro. Adoro ganhar cds. Para mim é o melhor presente; um cd bem pensado. Baixar, uma ou duas do mesmo cd, se gosto, vou pesquisar na net e depois nas lojas”, conclui.

Sua parcela conhecida, com as músicas Tchubaruba e Vanguart mostram mesmo uma cantora acima da média. Mas, nas novas, o folk de cidade grande parece pouco convincente. Tanto em Angelina quanto em Noil, a sensação é de que os ouvidos pedem uma Mallu ainda mais menina, ao contrário dos sinais que ela dá maturidade. O equilíbrio fica em Don’t Look Back, que ainda assim passa longe da tarefa de salvar o repertório.

Em tempo. Essa entrevista foi feita antes dela oficializar o namoro com Marcelo Camelo. E, antes que você pergunte porque não toquei no assunto, na boa, é porque essa bobagem não faz a menor diferença. Pelo menos por enquanto.

Economia solidária da música

Quando um grupo de amigos decide montar uma banda, ensaiar, gravar um EP e, quem sabe, arriscar alguns shows, quase sempre não faz idéia de quanta gente está envolvida em todo esse processo. Do vendedor de instrumentos ao dono do estúdio, passando pelo produtor da casa de show e o próprio público, todos estão em uma mesma cadeia produtiva. E todos estão sempre com um mesmo problema em comum: a falta de dinheiro.

Ao perceber que tantas pessoas estavam conectadas, um grupo de bandas independentes do Cuiabá, em Mato Grosso, decidiu montar um sistema de cooperativa inspirado em modelos de economia solidária. “Hoje em dia até para ser egoísta você tem que pensar coletivamente”, brinca Pablo Capilé, a frente do Espaço Cubo. Formado em 2002, a idéia inicial deles era viabilizar um circuito onde os grupos podiam se apresentar ao longo do ano inteiro.

“Eu troquei um carro em um estúdio e passamos a convidar algumas bandas para ensaiar lá”, lembra Capilé de como foi o começo de tudo. Nesses encontros, ele começou a conversar sobre política pública com as bandas locais. “O que era uma secretaria municipal, o que é um conselho”, conta. De lá, eles montaram mais duas frentes. A Cubo Eventos, para organizar shows, e a Cubo Comunicação, para dialogar com a mídia.

Para viabilizar isso, eles criaram uma moeda própria, o Cubo Card. “As bandas se apresentam e recebem um número X de card para utilizar uma série de serviços”, explica Pablo Capilé. “Elas usam para ensaiar; alugar nossa casa de shows, fazer eventos e ficar com a bilheteria; pagam a segurança com card, alugam o som”, lista. Hoje, eles articularam ainda mais usos para a moeda. “Já tem plano de saúde com card, curso de inglês, alimentação em restaurante, compra de roupa e locação de dvd com card”.

Essa estrutura deu base para lançar duas das principais bandas do circuito independente hoje no país. Vanguart e Macaco Bong são presenças confirmadas na programação de qualquer festival, enquanto a primeira já começa a alçar vôos maiores ao assinar com a gigante Universal. “Aqui em Cuiabá, quando as bandas começam já passam a formar coletivos”, diz Pablo Capilé. “Cada integrante vai fazer parte de uma comissão, seja de eventos, sonorização e comunicação, para a banda aprender a se auto-gerir”.

A espinha dorsal dessa articulação é o Festival Calango, um dos principais do circuito independente do país. “Quando os eventos vão agregando um valor maior, você consegue trazer o investimento da iniciativa privada. Não em dinheiro, mas em produtos”, explica o produtor. “No festival, gastamos quase R$ 15 mil em alimentação no restaurante e, em contra partida, ele passa a fazer parte de nosso sistema financeiro”.

Pablo Capilé, que estará em Salvador, na próxima quinta-feira (13), durante o Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, para falar sobre cooperativismo na música, encerra explicando que “essas iniciativas fez surgirem mais bandas e, consequentemente, fez esse mercado girar. Com o tempo, as próprias empresas passaram a investir mais em produto e em espécie na cena de Cuiabá”, uma lógica de mercado que ele acredita ser ainda mais viável no Nordeste.

* Publicado originalmente no Caderno Dez! no jornal A Tarde

Entrevista: Anderson Foca

Nos últimos três anos, Foca se tornou uma das figuras centrais para o rock independente do Nordeste. Começou pequeno, abrindo um bar para shows na Ribeira, onde antes acontecia o festival Mada. Com o tempo, conseguiu reunir as bandas locais num maior espírito coletivo, e o DoSol Rockbar acabou virando também um selo para lançar os discos de quem tocava por lá. Hoje, essas ações resultaram também numa produtora de vídeo, estúdio de ensaio e no festival DoSol.

Essa ações se multiplicaram pelo Nordeste. Em parceria com o Hey Ho de Fortaleza, as bandas agora encontravam um circuito de shows até então nunca aproveitado na região. Quem viesse de São Paulo, não faria mais bate e volta. E o mais importante: os contatos estavam expostos para se articular essas turnês. Indiretamente, o DoSol movimentou shows em João Pessoa, Recife, Fortaleza e até a mais distante Salvador. Abaixo tem um papo rápido com Foca, feito por email:

Ano passado o festival não teve patrocínio e vcs se ferraram. Você chegou a considerar encerrar? E, independente disso, porque decidiu continuar?

Em nenhum momento nem eu nem Ana, minha sócia, pensamos em desistir de fazer o Festival e também já sabíamos com pelo menos um mês antes do festival acontecer que tomaríamos prejuízo. O que aconteceu é que quando o evento já está na rua perdemos nosso maior patrocinador. Só que confiamos tanto no nosso trabalho que resolvemos fazer o festival e apostar na continuidade do projeto. Acho que foi uma decisão acertada já que para esse ano e pro ano de 2009 as coisas estão bem mais tranquilas para realizarmos o festival.

A gente nunca cogitou continuar porque jamais pensamos em parar de fazer o que fazemos. As indas e vindas são chatas, mas acontece em qualquer área de trabalho.

Esse ano vc conseguiu ver quase todos os festivais independentes importantes. Como é que estamos aqui no Nordeste em relação ao Brasil? Dá para comparar?

Não só dá para comparar como estamos no mesmo patamar artístico e organizacional que todos eles. Agora você há de concordar que fazer um festival perto do Sudeste custa bem menos dinheiro e por tabela dá bem menos dor de cabeça. Esse ano tive muitos problemas logísticos para montar a programação porque as passagens aéreas jamais estiveram tão caras. Aqui temos grandes festivais em estrutura física como o MADA e grandes festivais com propostas artísticas interessantes como o próprio Dosol e o Coquetel Molotov. Temos também gigantes estruturais e artísticos como o Abril Pro Rock e o Rec Beat. Então em todos os sentidos, grandes ou pequenos, estamos muito bem na fita e com a região povoada de festivais em quase todas as capitais.

O que você viu nesses festivais, não apenas de bandas, mas de novas idéias e estruturas, que pode ser aproveitado pelo DoSol e outros festivais da região?

Bem, são trocas de experiências interessantes, mas o que podemos fazer fica mais no âmbito dos detalhes. Eu gosto de ver bandas em ação e isso ajuda na escolha dos grupos que se apresentam não só no festival como no dia-a-dia  do bar. Então aproveito para ver quem eu não conheço, fazer negócios, conhecer pessoas. Em Cuiabá conheci melhor o Eduardo Ramos, por exemplo, e desde então tenho trocado uma figurinhas com ele e o Sérgio da Amplitude, pessoas que eu não conhecia se não rodasse por aí. Viajar faz ficarmos mais exigente com nós mesmo.

Esse ano, pela primeira vez, parece que Natal está conseguindo firmar boas bandas no circuito de shows independentes. Temos pelo menos uns três ou quatro nomes ai que parecem que vão ajudar a repercutir o nome da cidade. No seu ponto de vista de produtor, qual é o próximo passo para a cena daí agora?

Acho que o próximo passo para as bandas daqui é tentar “ser banda” mais tempo (o máximo possível). Acho que isso é o que tá faltando, aliás não só para as bandas daqui, serve para grupos do Brasil inteiro, principalmente aqueles grupos que não tem tanta visibilidade. Mas aos poucos tem uma galera se formando numa lógica um pouco diferente, que é a lógica do começo dos anos 80 nos EUA por exemplo. O espírito é o mesmo, trampar pela música, tentar viver dela e acordar de um dia querendo outro dia ainda melhor. Só assim bandas crescem, cenas crescem e saimos do marasmo.

Ficar reclamando, dizendo que não tem espaço e choramingando porque “não é chamado” é um caminho paternalista para cacete! Quero ver bandas de Natal metendo a cara, marcando tour, indo atrás, se jogando, porque banda vira “de verdade” na estrada e até melhora artisticamente nela, um exemplo disso é o CSS que se tornou um grupo respeitado por causa da estrada e melhorou 1.000% artisticamente com as gigs.

Falando específicamente do festival agora, adianta ai para nós, como é que vai ser o DoSol esse ano? Vai ser com as duas casas de show, igual na edição passada? Ou palcão tradiocional? O que vamos encontrar lá?

Basicamente a estrutura é a mesma do ano passado, mas nossa política de ocupação dos espaços do bairro antigo da Ribeira será 150% ampliada para esse ano. Ano passado ocupamos o Centro Cultural Dosol com shows e o Armazem Hall (ao lado) também com shows. Esse ano, além dos dois galpões de shows, ainda teremos um terceiro espaço para shows que é a Casa da Ribeira onde vai acontecer o Festival Dosol Música Contemporânea nos dias 12 e 13 de novembro. Além disso,  dentro do espaço do festival nos dias 01 e 02 teremos uma área de convivência para as bandas na Grito Filmes (galpão ao lado do Centro Cultural Dosol) e uma área de convivência pro público no espaço Calígula.

Significa dizer que saímos de dois galpões para cinco esse ano. Não acredito mais no formato tradicional de festival com grandes palcos e estruturas, acha que uma aposta em conteúdo e ocupação é mais parecido com o que fazemos no nosso dia-a-dia.

Você tinha falado de planos para um DVD. Vai sair mesmo? Que outros produtos o Festival DoSol vai gerar esse ano?

Sim, o DVD está todo pensado e só esperando a hora para ser registrado. Ele vai ter a direção do áudio feita pelo Gustavo Vasquez da RockLab de Goiânia e direção de vídeo pela Dosol Image. Acho que isso é uma grande coisa que faremos esse ano, se bobear uma das mais importantes. Sempre gostamos de gerar conteúdo das ações que fazemos e para esse vai ser possível. Além do que é um diferencial já que acho que no Brasil ainda não foi feito nada parecido. Sempre via os DVDs da Warped Tour ou do Ozzfest  e ficava imaginado que um dia faria algo parecido. Então esse ano eis que deu certo. É o que eu sempre digo, sonhar não custa nada!

Como você fez para montar a programação? Queria que você justificasse porque escolheu as principais bandas que tocam esse ano no DoSol.

Bem, nossa curadoria é do gosto pessoal meu e das pessoas que trabalham com a gente. E não tem como ser diferente. Recebemos mais de 2.000 inscrições online e pelo menos 200 bandas poderiam tocar no festival. Depois disso, analisamos algumas bandas que vimos ao vivo, alguns grupos que tem uma repercussão (por mérito próprio) dentro da cena de Natal e fechamos o cast.

A banda com mais nome (nem sei se tem alguma nessa condição) é The Donnas que é uma excelente banda americana que é uma espécie de sonho que estamos realizando e que só está viável graças ao dólar baixo e aos bons contatos que a Abrafin, associação que fazemos parte, tem com produtores brasileiros e gringos. Tem o Mukeka que é a banda har core mais foda do Brasil e que amamos desde sempre. Nem são bandas enormes porque o Dosol tem a característica de não ter uma escalação muito díspare da realidade local. É todo mundo de igual para igual dentro do possível.

Um dos discursos comuns a Abrafin é de que a banda ganha em mídia espontanêa. Mas o DoSol conseguiu ser um dos primeiros festivais a antecipar essa fase mais negativa da associação com a grande mídia, onde a mesma se mostrou claramente desinteressada e, por vezes, preguiçosa em acompanhar esse momento da música independente. Lembro de caso de jornalistas convidados que sumiram no dia do show à clássica cobertura da MTV que só mostrava a turma de camisa-preta. Como é que vai ser esse ano? Quais vão ser os ganhos para uma banda que tocar no DoSol, já que esse não é mais um ponto a favor?

Bem, uma banda que sai de casa com tudo pago (95% das bandas da programação tem seus custos totalmente cobertos pelo festival) para tocar numa estrutura legal, para um público que está afim de novidade e ainda por cima ganhar um clip ao vivo de alta qualidade para o currículo não pode reclamar né?  Acho que está de ótimo tamanho. E muitos delas ainda estão aproveitando o custeamento das passagens dadas pelo Dosol para participar de outros eventos Nordeste afora. Como banda isso seria um sonho para mim. Então o que quero que aconteça comigo como músico é o que tento proporcionar para as bandas que visitam o festival. Nosso saldo tem sido bem positivo.

Entrevista: Eduardo Ramos

Eduardo Ramos é melhor conhecido como o ex-empresário do Cansei de Ser Sexy. O cara que foi com a banda para os Estados Unidos e catou na unha show por show até que acontecesse a história como nós a conhecemos. Inclusive as confusões depois, entre constante troca de acusações e processos judiciais envolvendo também a gravadora Trama. Esse texto não vai perder nenhuma linha alem dessas sobre o assunto. A entrevista abaixo é a sequência do post anterior “Independência, parte dois” sobre o novo projeto dele como produtor.

- Primeiro, a inevitável: qual o destino da Slag Records? Você falou que está se juntando com a Amplitude, mas existe algo mais concreto? Ainda tem artistas ligados ao selo? Vão virar um selo só? Vão virar o Day One dos independentes? :)

De concreto só o chão da estrada, porque é ali que está o futuro. Nós não sabemos nem como definir o que é um selo… antes era uma “coisa” que lançava discos, mas por que ter um selo se é só colocar as músicas on-line atualmente? Este “algo mais” foi o que sempre faltou no mercado independente brasileiro… e hoje categoricamente não falamos em discos (no conceito antigo de prensar 1000 discos e fazer distribuição). Não vamos virar uma coisa só porque as propostas artísticas dos dois selos são absurdamente opostas. Não vamos virar nada mega… somos 4 pessoas em uma sala pequena, cheia de discos, livros e idéias e é assim que vai continuar. Selo no sentido de lançar disco… não tão cedo. Banda para ter disco lançado tem que fazer 60 shows por ano, então invertemos a equação, vamos fazer 60 shows por ano e dai ver o que acontece… e não necessariamente trabalhando só com as bandas do selo (como o Macaco Bong que é da Monstro). Ninguém sabe o que está acontecendo no mercado independente e deste caos queremos achar algo!

- No release de vocês tem um buraco enorme entre “ligações para casas sem a menor idéia” e *bum* 40 shows marcados. Como foi que vocês conseguiram montar esse circuito efetivamente?

Trabalhando absurdamente, tentando convencer gente que não tem a menor idéia do que estamos falando. Desde março estamos formatando esta idéia… são 6 meses de trabalho!

- São Paulo é uma região urbana muito atípica, comparada ao Brasil, para formatar um projeto desses. Me parece ser bem mais fácil – porque ninguém vai encontrar uma cidade como Bauru no interior de Pernambuco, por exemplo – … vocês pensam em exportar essa idéia para outras capitais? Ou o circuito já é esse mesmo, fechado?

A idéia é criar um circuito nacional. Para isso existe uma comunicação e uma coordenação com outras cenas. Começar em São Paulo foi uma necessidade, pelos motivos já citados e porque é fácil para pegar um carro e atravessar o estado em 6 horas no máximo. Mas, por exemplo, existe uma coordenação acontecendo com o Foca (do DoSol) em tours futuras para fazer uma perna no nordeste. Ele adorou a idéia e é possível realizar pelo menos mais 10 datas coordenadas. O Fabrício (Nobre da Monstro) vive me falando que dá para armar uma perna com Uberlândia/Uberaba/Goiânia/Brasília. Na verdade em Minas Gerais está rolando uma movimentação parecida. Se você adicionar o Sul… estamos falando de muitas cidades, estamos falando de um circuito de 90 shows, ou seja, pela primeira vez estamos falando de uma tour de verdade pelo Brasil, que vai sustentar uma banda independente e dai sim, justificar um disco sendo distribuido nacionalmente. Até agora, vou ser sincero… distribuição nacional é uma piada, porque não existe nada nacional.
Assim como nos EUA, ninguém toca no interior do Colorado… assim como vai ser muito complicado ir tocar no interior de Pernambuco, mas é uma piada uma tour passar pelo nordeste e não tocar nas capitais. É isso que buscamos com este projeto.

- Sendo esse o caso… como pensar primeiro no problema das capitais? São Paulo foge totalmente a regra pela dimensão urbana, mas em outros casos, seria pensar “tocamos nos EUA, mas ainda não fomos a Caruaru”. Quando na verdade as bandas não estão tocando nem no Recife…. Traduzindo melhor o que quero falar: você não acha que falta muita profissionalização nos centros, para começa a pensar já nas periferias?

Falta tudo Bruno… as bandas precisam mudar para começar. Precisa acabar esta postura de “banda de final de semana”… Eu não quero me envolver com isso, não estamos montando este projeto para este tipo de banda. Eu quero uma banda que vira e fale: isto é a minha vida! Porque este projeto é a nossa vida!!! Eu adoraria ser público e usufruir (como selo) disto tudo, mas novamente, se não colocamos a cara para bater, ninguém coloca. E este que é o problema! Hoje eu recebi umas 30 ligações de bandas (algumas até relativamente estabelecidas) falando que querem tocar no interior! Porque os tais “produtores” deles (atuais ou do passado) não fizeram isso antes? Porque as bandas não pegaram o telefone e fizeram isso? Porque não existe planejamento! A maioria das bandas são uma piada ambulante… ficam felizes de lançar um CD e mostrar para a namorada/família e eventualmente aparecer em uma matéria na Rolling Stone! Isso não existe… nem aqui e em nenhum lugar do mundo, apesar que este marasmo das bandas é algo universal, não é problema só daqui não. No Reino Unido acontece direto, nos EUA acontece direto. Odeio quando alguém vem e fala que as estradas brasileiras são uma merda, isso é desculpa de perdedor.

- A maior crítica que é feita hoje aos festivais independentes são as “ajuda de custo”. Quem entrar nesse circuito ai vai ganhar por show? Como vão ser os cachês?

Me responde uma coisa: quando o Black Flag começou a fazer tours em 1981, eles pediram ajuda de custo para quem? Os EUA em 1981 eram uma piada, 1000 vezes pior do que o Brasil hoje, então qual a desculpa que alguém vai inventar agora? O circuito independente americano foi formado de uma maneira simples: eu preciso ganhar o dinheiro para ir para outra cidade. Este é o cachê! O cachê é a mesma bilheteria que a merda do Foals ganhou por um ano e meio antes de assinar com a Transgressive, o mesmo cachê que o Animal Collective ganhou antes do Sung Tongs… então mais uma vez, eu só escuto desculpas das bandas! Por isso que tem que ser 8 ou 80! Por isso que no meio das tours quando os caras do Butthole Surfers passando fome e frio se perguntavam: POR QUE? Eles respondiam: porque eu prefiro isso do que ficar trabalhando em um banco das 9 as 6!

- Essa é mais pré-conceituosa… Porque você acha que o interior do Brasil está culturalmente pronto para isso? Talvez isso esteja mais ligado a essa minha dúvida inicial sobre montar esse circuito. Quer dizer… o dono de um bar em uma cidade menor toparia pagar um cachê razoável para uma banda instrumental de Fortaleza com músicas que duram quase sete minutos?

Qualquer cidade do interior tem um bar de rock, qualquer cidade do interior tem 200 pessoas que escutam rock da maneira mais genérica possível… estas pessoas vão assistir o show do Fóssil e falar “TOCA RAUL”, da mesma maneira que na gringa gritavam “TOCA STONES”. Destes 200, 20 vão gostar… da próxima vez 40… e por ai vai. Não tem que ficar pedindo cachê, 40 latas de cerveja ou comida… tem que ir e tocar, parar de frescura. Frescura é coisa de classe média, tocar e ter hotel garantido, som garantido… NÃO EXISTEM GARANTIAS NA VIDA! Eu respeito quem faz isso, mas não é este tipo de banda que eu trabalho/vou trabalhar e não são bandas assim que vão fazer parte deste circuito.

- Como vai ser feita essa logística on the road? Nos EUA as bandas alugam vans – se não me engano, o Debate fez isso também – ou micro-ônibus. Isso vai ser uma estrutura pronta dessa empreitada de vocês ou vai ser um gasto de cada turnê?

Existem problemas no Brasil obviamente. Para dirigir uma van legal, você precisa ter uma carteira especial… então por mais que uma van usada custe uma grana, tem este lance da carteira… é um saco, estamos esbarrando nisso. Mas qualquer um pode pegar um carro e sair tocando… é esta idéia. Obviamente este esquema é complicado para fazer uma tour do Móveis Coloniais por exemplo, por sorte as bandas que vamos trabalhar tem um tamanho mais “normal”… e estamos alugando carros para realizar as tours… mas já pensamos em comprar uma van para as próximas tours… em tentar criar uma estrutura melhor. Mas lembrando que até agora tudo está sendo feito com nosso próprio dinheiro.

- Vai existir alguma integração no sentido inverso? Essas casas que vocês fecharam certamente tem muito pouca a nenhuma ligação ao modus operandi do independente brasileiro. Vocês pretendem abrir esse canal? Abrindo myspaces ou orkuts das casas?

Abrir o canal? Você diz abrir a informação? Claro… eu quero mais é que mais pessoas façam o mesmo que estamos fazendo. Quem precisar de qualquer informação me liga que eu explico. Estou de saco cheio de gente que não circula informação.

- Qual o propósito disso tudo? Fazer muito show para ficar mais conhecido? Ganhar dinheiro fazendo show? Vender discos nas cidades do interior? A idéia de um circuito com 90 shows é bem interessante, mas o que acontece com a banda depois disso?

O objetivo é ter um circuito independente que se auto sustenta… isso tem a ver com discos, shows, camisetas, downloads, empresas pagando a conta… é fazer existir um circuito, não ACHAR que existe algo. O que acontece com a banda depois de fazer 90 shows? Descansa por alguns dias, grava um disco novo e começa tudo novamente, tenta fazer algo lá fora… isso que é a vida de uma banda. Nada de banda de fim de semana ou turismo musical.

- Conectando com a pergunta anterior – e encerrando – qual a vida útil de um circuito como esse? Ou, me repetindo nas perguntas, existem novos trechos por vir para as bandas cairem na estrada?
Vida útil? Cara… isso tem que rolar para sempre. É um absurdo isso já não existir… tem que abrir mais cidades, mostrar para as pessoas que existe público(e existe), fazer cidades menores entrarem no esquema. Eu estava conversando com o Nobre estes dias e falei: cara a 10 anos atrás se alguém falasse para você que iria ter um show do Vaselines e do Black Lips em Goiânia, você acreditaria? Eu não! Agora – pelo amor de Deus – Goiânia fica no meio do nada e tem público, como em São Carlos não tem?