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Mercadorias e Futuro

A grosso modo, a sinopse de Mercadorias e Futuro, espetáculo que estréia nesta terça-feira no Teatro de Santa Isabel, poderia ser encarado como uma apresentação qualquer do grupo Cordel do Fogo Encantado. “Uma performance que une texto, som, luz e improviso”, protagonizado pelo próprio Lirinha, músico e compositor da banda, aqui travestido de seu nome de batismo, José Paes de Lira. Mas é ele o primeiro a fazer questão de diferenciar, “não sei como te dizer, mas é diferente”, garante e reforça no mesmo fôlego “bem diferente”.

Lirinha assina como José Paes, mas no palco ele incorpora um terceiro personagem, chamado Lirovsky. Um vendedor de livros que inventou uma parafernália de maquinas, que dispara sons, imagens e luz, em forma de carrinho de vendedor de livros. “É um trabalho que acontece sob um mesmo terreno, a zona de fronteira entre teatro e música, talvez isso que gere essa semelhança”, avalia mais tarde o músico/poeta. “Mas o espetáculo é um mergulho na palavra, um aprofundamento no texto, uma relação com a individualidade do público”, explica.

Nesse novo momento, ele pede licença a celebração coletiva presente em seus shows para criar um momento de troca de olhares com as pessoas na platéia. “Comecei apresentando em São Paulo, em um espaço com 100 lugares, foi marcante, muito bom”, recorda Lirinha. O Teatro de Santo Isabel será seu maior palco como ator até agora. “Para mim, é um retorno a um lugar que foi meu inicio dessa coisa toda que faço, de recitar poesia, eu desenvolvo essa coisa de contar histórias através do personagem Lirovsky”, avalia.

Nessa encruzilhada entre música e poesia, Lirinha acabou re-definido alguns conceitos de sua própria carreira como artista. “Poesia foi minha primeira ‘coisa’ de arte, tem sido importante para mim, porque vou levar essa experiência nova para a banda”, conta. “O Cordel tem uma agenda bastante forte, a gente sempre está se relacionando com um público intenso. E eu podia ficar quieto ali, fazendo aquilo, que é algo que já me deixa completo e feliz”.

Uma das preocupações de Lirinha com o espetáculo – que teve produção de sua namorada, a atriz Leandra Leal -  é criar uma distancia saudável entre seu trabalho como músico e esse momento de poesia. “É para não vender uma coisa errada para o público, ninguém achar que é algo ligado ao Cordel”, conta. “Por isso que é o meu nome, que foi como também assinei o livro. Quis diferenciar tudo isso.”, explica o músico.

A divisão, entretanto, também tem rendido frutos positivos para os dois lados da carreira de Lirinha. “Tem um público diferente nas apresentações, eu to sentindo isso”, conta. “Claro, tem aquele pessoal que curte a banda, conhece meu trabalho, então elas se ligam nisso e vão ver o que eu to compondo em outro lugar”, reflete. “Mas em Teresina mesmo era um festival, então já tinha um público que era de lá. E a peça se preocupa com isso também”.

Banda
Enquanto se aventura no teatro, Lirinha e banda estão na pré-produção do próximo disco do Cordel do Fogo Encantado. “Atrasou um pouco porque a gente viajou bastante no meio do ano”, conta. “Mas estamos com desejo de terminar esse ano ainda, para lançar em 2009”. Ele adianta que a produção será a mesma do atual, Transfiguração, assinada por Carlos Eduardo Miranda e Gustavo Lenza. “Já temos 11 músicas novas, inéditas”, conta ele que, faz questão de garantir que “estamos num momento muito bom para a banda”.

Uma coisa não muda. O Cordel do Fogo Encantado continua independente. “Somos uma banda que nunca passou nem uma semana sequer com uma gravadora, então a independência sempre foi algo muito marcante em nossa carreira”, reforça Lirinha. O novo disco deve receber apenas distribuição nacional em parceria com a gravadora Trama.

Publicado originalmente no Pernambuco.com

“É preciso urbanizar o forró”

Foto de Paula Muniz

Não precisa de muito esforço, numa manhã de pouca chuva no Mercado da Madalena – ponto de encontro dos forrozeiros em Pernambuco – para perceber o quanto a figura de Xico Bizerra é central. Ele, ao contrário da maioria, não está tocando nenhum instrumento ou mesmo cantando. Mas quem se arrisca num acorde, sempre olha de volta em busca de uma aprovação. Quem chega, faz questão de cumprimentar ele que hoje é o compositor mais gravado do forró no estado. São cerca de 160 interpretes. Apenas “Se Tu Quiser”, sua música mais emblemática, foram mais de 65 regravações.

Quem percebe, mas não conhece sua história, atribui a seus cabelos brancos uma longa trajetória no forró pernambucano. Mas, na verdade, de carreira efetiva são curtos oito anos que ele soma no currículo. “Eu comecei a compor aos 15 anos, mas eu achava que não teria uma atividade profissional com isso. Preferi ganhar a feira, porque com música não conseguiria”, recorda. “Quando eu me aposentei, no ano 2000, comecei a pensar no que fazer para me ocupar o tempo e lembrei das músicas que fazia”.

Xico Bizerra nasceu no Crato, interior do Ceará, mas veio para o Recife ainda jovem no começo da década de 70. “Tenho mais tempo de vida aqui, por isso sempre digo que sou cearense de paridez, mas pernambucano de coração”. A primeira lembrança musical ainda vem de lá. “A poesia vem do meu avô, com quem eu me correspondia por carta, sempre em forma de sonetos; enquanto minha mãe tocava Bandolim. Acho até que ela usava isso de desculpa para andar com meu pai”, sorri. “Eu compunha, mas não dava vazão. Guardava para mostrar a alguém no momento correto”.

Quando chegou essa hora, Xico mandou uma cópia da sua primeira gravação, Forroboxote I, para 10 músicos do cenário pé-de-serra do Recife. “Foi gravado por Zé Bicudo na Sanfona, que esse ano está sendo homenageado no São João do Recife. E dois meninos que eu conheci no Bompreço. Bico de Pádua e Serginho Luz”. Três, dos 10, retornaram o compositor com elogios e incentivo para continuar e colocar o disco nas lojas. Irah Caldeira, Maciel Melo e Petrúcio Amorim. Ele prefere não lembrar o nome dos sete, mas garante que hoje todos já gravaram pelo menos uma de suas canções.

Esse foi também o primeiro contato que garantiu ao compositor contato com outros músicos de pé-de-serra. “Fui me chegando, juntando, conhecendo as pessoas. Foram me respeitando, talvez pelos meus cabelos brancos, vendo minha experiência. Então foram ouvindo, respeitando, gravando. Hoje eu faço parte até como fundador da Sociedade dos Forrozeiros de Pé de Serra e Ai”, lembra. Essa é outra parte de sua história que, para entender melhor, o cenário precisa mudara para sua residência.

Num apartamento bem mais distante do centro, em Candeias, a assepsias das paredes brancas contrasta com o cenário que o forró constrói em seu público. O escritório de Xico é extremamente organizado, com um ar condicionado forte garantindo a tranqüilidade no trabalho no computador. Sinais de uma organização quase compulsiva, que justifica todo o funcionamento de uma sociedade dos forrozeiros.

“E Ai”

Segundo Xico Bizerra, tudo começou de forma bastante empírica. “A gente se reunia para conversar aqui e acolá, trocando idéias do que deveria ser, até que em 2005 ela foi constituída por direito”. A Sociedade dos Forrozeiros Pé de Serra e Ai (o termo no fim é expressão comum no meio) é uma Organização Não Governamental que tem como principal objetivo “gerenciar o forró” e repassar informação de gestão para os músicos e compositores.

“Até alguns anos ninguém sabia o que era um home list ou uma proposta de negociação, era uma coisa muito solta”, conta Xico. Já organizados nesse ponto, eles começam a ganhar noções maiores de uma cadeia produtiva do forró pé-de-serra através de cursos e parcerias. “Pretendemos também dar curso de zabumba e triangulo, já tivemos um de canto”, garante. Formação que nunca fez parte da história do compositor.

“Nunca cheguei a estudar música”, afirma Xico Bizerra. “Aliás, eu não quero aprender absolutamente mais nada. E não é por achar que já sei de tudo, mas é que meu tempo para isso passou”, completa. “As vezes até brinco quando me perguntam se uma música é em tom maior ou menor. Eu não sei! Faço de um jeito que a música sai e pronto”, brinca. Apesar da produção prolífica, ele também garante que não tem método. “Eu não sento no computador e digo ‘pronto, vou compor’ e faço algo”.

O discernimento justifica para ele, mesmo com um grave quase barítono na voz, nunca ter arriscado cantar. “Não canto por vários motivos e o primeiro é que eu não sei cantar. O segundo é porque tem tanta gente boa por ai, que é melhor que faça as músicas e elas cantem”, afirma com modéstia. Xico diz que já se arriscou montar uma banda, mas a experiência não funcionou. E, nesse compasso, ele já completa sete discos que carregam sua marca Forroboxote.

Discografia

Com o sucesso do primeiro trabalho, Xico Bizerra passou a lançar um disco por ano sempre com uma temática central. O segundo foi todo interpretado por Cleo Dantas e, no terceiro, fez uma homenagem as cantadoras do estado. “O disco se chamava ‘Mulheres Cantadeiras de uma Nação Chamada Nordeste’, com Irah Caldeira e Nadia Maia, entre outras cantando minhas músicas”. A versão masculina veio no Forroboxote 4, chamado “Cantadores da Nação do seu Luiz”, com participação de Dominguinhos, Flávio José e Quinteto Violado.

Seu disco mais marcante seria lançado no ano seguinte. Mesmo sem saber tocar sanfona, Xico Bizerra lança o “Alma Sanfonica”, seu primeiro disco sem nenhum forró. “Foi justamente para mostrar a beleza da sanfona como instrumento harmônico, então tinham sambas, choros, tudo instrumental”. Em seguida para homenagear os 60 anos do Baião, ele resgata os interpretes originais da terra do ritmo em “Baião do Reino Encatado do Novo Exu, as Veredas do Resto do Mundo e Adjacências”.

Em 2008, ele consegue implementar o forró pé de serra como instrumento didático nas escolhas públicas de Pernambuco com o Forroboxote 5. “Lancei o ‘Ser Tão Criança’, um disco com temática infantil, valorizando ritmos como xote, xaxado, baião, com temática mais lúdica, falando de céu, terra, sol e de outras coisas que não ‘chupa que é de uva’, para tentar combater esse crime, que é essa música que faz estimulo a droga, bebida e raparigagem”.

Estética do forró

Xico Bizerra está longe de ser um modelo purista, daqueles que quer guardar o ritmo que toca em uma redoma. “Precisamos urbanizar o forró. Tem que cantar o Sertão sim, mas também tem que cantar o urbano. Se continuarmos falando de Juazeiro, da asa branca, do jibão e da sanfona, o público mais jovem não vai querer saber disso”, reflete. “É por isso que eu procuro em meus trabalhos ter sempre algo moderno”. Entre os interpretes mais contemporâneos de Xico está também o cantor Geraldinho Lins, que representa melhor esse público.

“Até porque Gonzaga, em sua magnitude, esgotou. Falou de tudo, do passaro, da planta, do árvore, do rio, da terra, da seca. E falou tão bem que qualquer pessoa que falar disso hoje não conseguir fazer como ele fez”, completa. O orgulho se fere mais quando o forró eletrônico entra em questão. “Já fui sondado por uma banda, queriam conhecer meu repertório, mas disse que o meu estilo não combina com o que eles fazem. São concessões que não valem a pena fazer”, diz.

“Eu pessoalmente recrimino, e contesto a estética do forró que eles usam”, continua o compositor. “Acho até que o Ministério Público é omisso em algumas circunstancias porque uma música que fala ‘dinheiro na mão, calcinha no chão’, incita a prostituição. Um órgão público deveria impedir isso”.

Matéria publicada originalmente na Revista Continente de julho

Nordeste Independente #4

Você costuma pagar para frequentar shows? Alguns produtores e bandas do Nordeste andam comentando que o público não está contribuindo muito com as casas que abrem para apresentações de bandas locais. Esse foi o assunto principal da quarta edição do Podcast Nordeste Independente, gravado por mim e pelo Luciano Matos, de Salvador.

Tem ainda mais um pouco de festival Bananada, uma entrevista com o Fabrício Nobre (MQN, Abrafin, Monstro) sobre a qualidade do público de Goiânia, e uma vista rápida pela cena de João Pessoa. Essa foi nossa edição menos bairrista, com apenas uma banda de Pernambuco e uma da Bahia. Sacaê o tracklist:

1- Julia Says – Mohamed Saksak
2- Bad Folks – Pillow Case
3- The Dead Lovers Twisted Hearts – Walking Down the Streets
4- Dois em um – Dias
5- Star 61 – Fácil Demais
6- Cabruera – Bendito São José
7- Goldfish Memories – Rise Above the Flame

[podcast]http://www.popup.mus.br/mp3/neindie04.mp3[/podcast]

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E o MySpace Brasil?

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Equipe do MySpace Brasil

Os últimos dois meses foram decisivos na forma como vamos consumir música no futuro. Desencadeado pela decisão da banda Radiohead em deixar que o público decida quanto vale seu disco, várias ações foram desenvolvidas de forma muito acelerada, reconfigurando a própria cadeia produtiva da música. Paralelamente, esse foi o tempo que a maior plataforma social de música no mundo, o site de relacionamentos MySpace, se instalou no Brasil. Passado esse primeiro impacto de novidades, a Folha de Pernambuco conversou sobre as mudanças com o jornalista Luiz Pimentel, Diretor de Conteúdo e um dos elaboradores do MySpace Brasil (http://br.myspace.com)

Criado em fevereiro de 1999, o MySpace chegou a marca de 100 milhões de usuários em 2006, se confirmado como principal rede social do mundo. Em apenas um ano, esse número dobrou, e com uma média de crescimento de 200 mil novos usuários por dia, o site já tem mais de 200 milhões de pessoas cadastradas. A grande maioria desse número é de bandas e músicos em geral. “Um portal como o MySpace fazia falta enorme aqui. Quer dizer, sempre tivemos MySpace, mas com ele em inglês ficava sempre uma plataforma distante”, comenta Pimentel. “Quando lançamos a versão em português, havia 55 mil bandas brasileiras, agora triplicou o número de registros e de acessos ao site”.

O MySpace é uma ferramenta poderosa. Nos Estados Unidos, turnês inteiras são fechadas e novos artistas contratados por selos e gravadoras através do site. Uma das estratégias mais vitoriosas, já em implementação no Brasil, é a articulação para que artistas lancem o disco primeiro no MySpace (para ser ouvido apenas) antes do CD físico chegar às lojas. “Nós estamos fazendo uma tonelada de lançamentos”, celebra Luiz Pimentel. Só no mês de janeiro, a plataforma serviu de ponto de partida para o novo clipe do Sepultura e dos discos das bandas Nitrominds, Carbona, Hill Valleys, Miss Kittin, Nada Surf e Bullet for My Valentine.

Sobre a forma como vamos passar a consumir música, os números dão ao MySpace posição central para o olho do furacão da música digital. “São 270 milhões de perfis no mundo inteiro, 120 milhões de visitantes diferentes por mês, 10 milhões de bandas no MySpace. São uploadeadas (enviadas) 10 milhões de fotos todos os dias, 100 mil vídeos, e os números não param de crescer. Você não tem limite de amigos, nem de fotos nem de vídeos, tem um blog acoplado ao seu perfil, um instant messenger com skype gratuito, pode ouvir músicas, assistir vídeos de todos esses artistas e adicionar todo esse conteúdo ao seu próprio perfil, que é inteiro customizável”.

Por ser uma ferramenta que permite interação com outros sites, o MySpace tem uma experiência positiva de remunerar artistas pelo download de música através do serviço Snocap. “O usuário que gosta, vai lá e compra a faixa por uma vitrine, por trás, ele está comprando do Snocap”, explica Pimentel. É similar ao que acontece com a Trama e sua plataforma Trama Virtual e ao mais recente serviço lançado pelo site Last.FM, com diferença de uma escala global – já estão sendo implementadas versões indiana e russa do site.

No momento, esse é o principal entrave para o Brasil. “Aqui há essa dificuldade de editores, mas vamos chegar a um modelo justo para os artistas, para que valorizem a própria obra”, comenta Luiz. “Na verdade, as bandas acabam inserindo o MySpace nas gravadoras, pois de modo geral elas gostam e usam. A maioria dos perfis de bandas, daqui e de fora, é tocado pelos próprios artistas. E nós somos amigos das gravadoras no sentido de que acabamos promovendo artistas”, completa.

Enquanto não chega a um acordo com os jogadores principais da indústria fonográfica, o MySpace Brasil se aproxima de outras frentes que também estão provocando mudanças no cenário nacional. Em breve, eles devem anunciar uma parceria com a Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin). “Nosso universo com o da Abrafin é o da música boa. Aqui não existe jabá, ninguém nunca sequer fez menção de falar para eu colocar tal banda, nada disso. Então, estamos juntos. Falta formalizar o melhor para ambos, afinal isso é o princípio de parceria”, conclui.

Bandas fecham turnês internacionais pela plataforma

Uma das definições desse novo mercado de música é que ele funciona totalmente através de nichos. Uma banda que encontraria poucos seguidores no Recife, por exemplo, consegue juntar público considerável pelo Brasil com muito mais facilidade e encontrar pares na Europa na distância de um clique. É o caso da banda de trash-death metal Project 666 (www.myspace.com/project666metal), de Olinda. “Uma das vantagens é que a banda recebe visibilidade no mundo todo. Para nós, que fazemos um som que visa tocar na Europa, o site já rendeu comentários de produtores e bandas de lá”, comenta o baterista da banda, Eduardo Martins.

Situação parecida com a da banda Astronautas (www.myspace.com/osastronautas). Depois de fechar o circuito de festivais independentes no Brasil, eles começam a mirar no exterior e o MySpace é um dos principais passaportes para o exterior. “Temos realizado contatos muito importantes, dentro e sobretudo fora do Brasil”, conta o vocalista André Frank. “Produtoras, agenciadores, bandas, estamos montando nossa turnê européia inteira a partir do MySpace”, completa.

História de um rabequeiro

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Ouvir as músicas e as histórias sobre a vida de Siba serve de combustível suficiente para a imaginação se apoiar em vários estereótipos, enquanto a mente se diverte formulando como deve ser a imagem desse recifense que decidiu morar na Zona da Mata Norte para extrair sua música direta da fonte. Na verdade, ele se confunde fácil na multidão. Mesmo naquela concentrada na livraria Cultura, onde ele passeia de boné verde, bolsa, camisa de botão e tênis. Toma café e atende com sorrisos aqueles que o reconhecem, enquanto pesquisa os livros expostos.

Siba Veloso, um dos criadores do Mestre Ambrósio, desfruta de uma certa tranqüilidade que é almejada por muitos músicos. “Toda vez que dou um passo, o mundo sai de lugar”, seu segundo disco solo, já na primeira semana de lançamento teve respostas de todos os principais jornais do Brasil. Todos na primeira página do caderno de cultura, alguns destacando que aquele era o grande lançamento do ano de 2007. “Minha vitória”, reflete o músico, “é o nível de diálogo e questionamento que consegui atingir dessa vez com a imprensa. Antes tinha aquela busca do velho contra o novo, elétrico contra acústico, estereótipos superficiais, e o tom da minha conversa com eles agora é de questionamento justamente disso”.

Entender sua música é conhecer um pouco de sua história. Assim com hoje sua imagem se mistura na multidão, na adolescência Siba poderia ser confundido com qualquer garoto comum. “Não sei dizer muito bem como, mas aos 15 anos comecei a me interessar por rock. Sempre ouvia muita música em casa, do Quinteto Violado a Alceu Valença, MPB em geral, até discoteca dos anos 70. Tinha ainda meu pai que gostava muito de cantoria de viola, sempre tive essas referências sem conflito”, lembra, “mas ai me envolvi com o rock.  Tocava guitarra, ouvia Led Zeppelin, Black Sabbath, tive várias bandinhas de garagem que nunca se apresentaram”.

O começo com a música veio bem mais cedo, quando a mãe o matriculou na escola de música do Colégio São Bento. “Mas era coisa de criança, durou uns sete anos”, explica Siba, “foi involuntário, mas me dei super bem”. Ouvindo Jimmi Hendrix por dois anos, ele aprendeu a procurar novas referencias sonoras. “Até os 20 anos nunca tinha ouvido jazz, mas ele me abriu muito a percepção. Passei a ouvir reggae, música pop africana e isso foi muito importante para mim, porque era uma música tradicional se renovando, com referencias do rock e da música cubana”, conta.

Aos poucos, Siba encabeça o modelo ideal de identidade de um modernismo tardio, estudado por Stuart Hall na fundação de seus estudos culturais. Nesse caso, sua identidade cultural não é centrada na localidade, mas em sua mobilidade por várias camadas de produção estética. Siba absorve, para depois reproduzir e transformar um ambiente urbano que está em constante movimento. Como um retrato de um cidade que tem, pincelado por cima, uma tela transparente de elementos regionais. E ele move essa tela, reconfigurando o cenário da maneira como acha coerente.

Toda essa negociação acontece de maneira instintiva. “Cheguei na Zona da Mata Norte por acaso, no final da década de 80. Fui acompanhando um pesquisador norte-americano, trabalhei um ano com ele na região, mas quando ele foi embora eu fiquei”, recorda o músico. Do envolvimento, ele absorveu a referencia que usaria em 1992 ao formar a banda Mestre Ambrósio, que teve com principal importância a aproximação de um público completamente jovem ligado a música pop e rock a ritmos realmente regionais, como o forró. Parecido com o que a Nação Zumbi fez com o maracatu, mas de uma maneira menos pop e com ritmos que carregavam muito mais estigmas.

“A gente sabia que estava fazendo parte de algo maior, isso que é chamado de manguebeat, que estava fazendo uma transformação local fortíssima, porque de repente pela primeira vez as pessoas aqui se reconheciam com um som feito no lugar”, lembra Siba. “Era possível fazer algo aqui e partir para fora, estávamos abrindo uma porta que não deveria ser fechada. Quando chegamos em São Paulo, víamos surgir novas bandas como Chão e Chinelo e o Cordel do Fogo Encantado, que só foram possíveis porque o Mestre Ambrósio quebrou aquela barreira”. Mas, antes de soar polêmico, explica, “não é que elas existam por causa do Mestre, mas a gente quebrou um lacre, sabíamos que tinha uma contribuição nossa ali”.

O Mestre Ambrósio começou como um grupo de estudo para os integrantes. “Tocávamos rabeca, baixo, pandeiro, tocávamos cavalo marinho, estudávamos toadas, forrós, depois entrava com gaita, sempre juntando as coisas, meio de improviso”, conta Siba. Uma maneira de reunir tanta informação que era trazida por membros de identidades distintas. “Eu tinha um envolvimento direto com a escola da tradição, Mauricio (Alves, percussionista) vinha de uma família de ubanda e candomblé, Hélder (Vasconcelos) era um cara que pesquisava muito, comprava discos, todos estavam num processo de assimilar”.

Tantas referências construíram duas bandas que, ouvidas de perto, funcionava como duas. Mesmo depois do primeiro disco lançado, o Mestre Ambrósio (o nome vem de um personagem do cavalo marinho, uma variação do bumba meu boi), era elétrico e acústico. “Eu meio que puxei a banda para que fizéssemos uma síntese, esse que seria o grande lance, com o baixo no forró, a guitarra no maracatu”, recorda Siba. O resultado mais ideal disso consegue ser conferido no álbum “Fuá da Casa de Cabral”.

Paralelo a história da banda, que estava com contrato assinado com a multinacional Sony (“nunca encontramos um equilíbrio entre o que eles queriam fazer e nós”, lamenta), Siba continuava envolvido com a Zona da Mata Norte. “Eu tinha uma inquietação de fazer parcerias musicais lá, porque o que eu sempre gostei de cantar mesmo foi maracatu, essa era minha onda mesmo”, lembra o músico. Em 1996, ele passa a avisar a banda que, em um ano, iria até a Mata Norte fazer esse trabalho, “mas que não tinha a ver com terminar o Mestre Ambrósio ou sair dele”, garante.

Passados seis meses, ele decide não voltar. “A banda continuava, as vezes eu até pagava passagem para ir fazer um show, mas outros conflitos levarem o grupo ao fim logo depois”. O Mestre Ambrósio encerrou em seu maior momento. “Aparecemos em todos os programas de TV, com exceção de Xuxa e Faustão, era reconhecido na rua, as pessoas paravam para dizer como nossa música tinha afetado elas. Um assédio constante, mas leve”. Siba chegou a achar que sua carreira não iria tão longe após essa fase.

De volta a estaca zero, ele contava (e cantava) agora com os músicos da Mata Norte, que nunca haviam feito turnê e só tocavam juntos a três meses. “Não sabiam nem o processo da passagem de som antes do show”, recorda. Situação inversa do que acontece hoje, cinco anos depois dessa história. “A Fuloresta (como chama sua banda) poderia ter dado muito errado, gastei toda minha grana que ganhei em São Paulo, mas consegui tecer uma rede legal de parceiros”, e comemora afirmando que “chegamos no ponto máximo que queríamos”.

Assim como o processo criativo de Siba não obedece a regras geográficas, sua circulação também atende processos distintos. A Fuloresta faz poucos shows no Recife, no reflexo de uma cidade de poucos contratantes, mas tem várias apresentações na Europa. “Faz-se um certo exagero sobre isso, porque na verdade, lá o que fazemos é ocupar um espaço específico de mercado. A gente não toca na rádio, não aparece na TV, ninguém sabe quem a gente é na Europa”, explica. “Mas existe um mercado para música do mundo inteiro lá, com vários festivais interligados, chegando até a Rússia, que contam com selos e rádios independentes. Dentro desse circuito sim, temos um trabalho significativo”.

Apesar do pouco anseio pelo universo pop, Siba tem consciência de que sua música se comunica com diferentes representações culturais.  “Esse meu trabalho novo tem um som que se tocar no rádio, não vai incomodar ninguém. É uma linguagem que o cortador de cana entende e que um engenheiro entende. Essa é uma busca minha como artista”, se defende, mas admite, “só que nunca vai tocar. Porque esse problema das rádios é um problema muito potencial que ninguém nunca quer tocar”.

Siba trabalha esses conflitos junto a uma necessidade de refinar as políticas culturas de Pernambuco, ao mesmo tempo em que se preocupa em definir os rumos da carreira. “Cada disco é um conceito, estou fazendo um agora só com rabecas [instrumento que quase não aparece no atual trabalho] com Roberto Correia, violeiro de Brasília. Também um trabalho mais elétrico, com uma viola elétrica que adaptei. Tudo como projeto solo mesmo”, adianta.

Matéria publicada originalmente na revista Continente de janeiro de 2008