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Lucy and the Popsonics

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Um dos principais lançamentos que a Monstro Disco desse semestre é a dupla de Brasília Lucy & the Popsonics. Fernanda e Pil, um casal de Brasília, passou a burocracia de encontrar um baterista pra a banda de electro-rock que fizeram contratando Lucy. Lucy é um MP3 player carregado com batidas e programações eletrônicas feitas por eles. Atitude e performance deles que serviu para tocar em vários festivais independentes do Brasil. “A Fábula (ou a Farsa) de Dois Eletropandas” é IDM com postura rocker, com letras muito bobas e de nomes super criativos.

A entrevista editada com eles foi para a Folha de Pernambuco, aqui eu descarrego o bruto de um papo por que rolou por email. Com as respostas foram todas muito legais, achei que não dava para abrir mão de nada.

)) Primeiros discos são sempre bons para apresentações. Então, explica para quem não conhece, o que é o Lucy and the Popsonics?

FERNANDA
O Lucy And The Popsonics é uma mini banda, com dois integrantes, que faz bases no computador e toca guitarra, baixo e cantam por cima. Hoje, as pessoas dizem que fazemos eletro-rock, mas antes de nos chamarem assim, éramos conhecidos pelo minimalismo das músicas e letras. Somos fofos, apaixonados e cantamos sobre coisas do mundo pop.

PIL
Um garoto, uma garota e um mp3 player.

)) Muito do que a banda conquistou até agora foi antes de lançar um disco. Com a CD na mão, já mudou alguma coisa?

FERNANDA
Muita coisa mudou. A respeitabilidade é infinitamente maior. Antes abriamos os shows, agora tocamos em horários mais legais.
Para os jornalistas e produtores, passamos a existir oficialmente. O nosso disco também encontrou algumas portas já abertas porque muita gente já tinha ouvido falar da gente, o que facilitou o trabalho. Como banda, acho que trabalhar em um disco engrandece muito também. Aprendemos muito com os produtores e acho que com todos os outros envolvidos: arte gráfica, fotografia, estilismo.

PIL
Acho que com o cd conquistamos reconhecimento para a música que fazemos. Antes de ter o disco, as pessoas conheciam a gente porque ou éramos um casal, ou marketeiros, ou banda de internet, ou por causa das roupas, ou posers, etc. Agora podem falar da nossa música.

)) Eu percebi que na Internet você está sempre com o status “estudando”. Em que nível de prioridade a banda está na vida de vocês? Vem algo primeiro, vcs já estão abrindo mão de algo?

FERNANDA
Nós não abrimos mão dos estudos e do trabalho. Nós só abriremos no dia em que vivermos de música. Quando ela nos pagar o suficiente para largarmos nossas vidas de hoje com tranquilidade. Ainda não trabalhamos seriamente a possibilidade de largar tudo um dia.

Confesso que a música me atrapalha um pouco e por isso sempre estudo em horários meio esquisitos: no meio da noite, fim de semana. Eu realmente estou sempre estudando quando não estou trabalhando com a música. O Pil tenta se dedicar ao trabalho sempre mais quando não estamos tocando também. Mas, as coisas tem andado cada dia que passa mais difíceis de lidar. Os shows nos exigem mais. Agora mesmo estamos em produção de mais músicas, um novo set pra show. Por mais que não estejamos tocando, sabemos que quando voltarmos para a estrada, tudo ficará mais difícil, então estamos sempre na correria. Agora mesmo quando você me passou a entrevista, estava preparando uma apresentação de trabalho e agora são as 2 da manhã de domingo para segunda. hehehe.

Para os shows, nós estamos tendo de ensaiar todos os dias. Temos arrumado alguns exercícios para estudar mais os instrumentos e assim tocarmos melhor daqui pra frente. Acho que isso irá nos ajudar. Para aguentar shows maiores, estamos tendo que fazer regimes… até pensamos em fazer algum exercício físico, mas tomaria muito tempo da gente. Estamos preocupados em dormir e descansar mais quando estamos em Brasília. Estamos evitando as festinhas. Agora só saimos para jantar em família e para ir ao cinema. hehehe. Aliás, simpsons é muito legal! hehehe.

PIL
Ainda não houve necessidade de abrir mão de nada. Todo o trabalho da banda é muito divertido. Encaro como hobby, então se em algum momento, se abri mão de algo, na verdade foi uma opção pelo entretenimento. Posso ter deixado de dormir ou comer, mas fiz por prazer.

)) Ser banda e ser um casal se misturam? Facilita ou dificulta?

FERNANDA
Facilita e dificulta. Facilita por termos os mesmos gostos, os mesmos horários e nos amamos muito. Quando estamos fora, é mais que uma viagem a trabalho é diversão. Gostamos de passar pelas coisas juntos. Curtimos as mesmas coisas. Dificulta porque se brigamos por causa da banda, muitas vezes a gente leva pro lado pessoal. Estamos ainda aprendendo a lidar com isso. Ainda não somos profissionais do ramo! hehehe.

PIL
Com certeza, facilita! Há uma mistura sim! Por exemplo: Viagem pra tocar, pra gente vira lua de mel. Passeio na tarde de domingo vira ensaio. E tudo isso é positivo.

)) Vocês acham a associação do com de vocês com o do Cansei de Ser Sexy valida? O que vocês acham da banda?

FERNANDA
Eu gosto do CSS. Gosto muito do disco deles e estou feliz pelo sucesso que eles estão alcançando a cada dia que passa. Eu fico mais feliz ainda quando eu penso que o que eles estão fazendo, ninguém, no Brasil, nunca fez antes. Alguns falam que o Sepultura já, mas acho que são níveis diferentes. Eles são do metal, né?

Sobre a comparação, nós fazemos pop e nós utilizamos bases eletrônicas como eles fazem, mas isso não implica dizer que fazemos a mesma coisa. Musicalmente, nós temos uma pegada mais rocker e utilizamos bases mais engraçadas, menos sérias. Nossas músicas acabam sendo mais brincadeira, mas também não deixa de ser algo dançante. Gosto quando as pessoas dançam nossas músicas de forma bem esquisita. Acho que esse é o lance. Não fazemos as pessoas dançar da forma normal. Tem de parecer esquisito. Eu as danço de forma bem esquisita!

O que me incomoda é o pré-conceito sobre o som e o estilo. Muita gente acaba caindo no lugar comum e não percebe. É muito cômodo utilizar a comparação para fazer críticas ruins e denegrir. É cômodo tentar não entender e fechar uma conclusão mais óbvia. Mas, acho que isso aconteceria de qualquer forma, se tocássemos outro estilo musical e tivessemos também uma boa aparição pública, as pessoas achariam outros referenciais com os mesmos objetivos. Disso, conclui-se que o problema não se centra nas referências utilizadas, mas em alguns fracos críticos musicais presentes hoje no Brasil.

Algumas pessoas nos perguntam sobre a “New Rave”. Bom, para começar, esse não é o primeiro movimento musical que mistura rock com eletrônico, mas as pessoas se deixam levar pelo pré-conceito imediato e não consegue distinguir coisas. Alguns dizem que somos próximos desse movimento. Eu acho isso muito questionável. Em alguns pontos nos aproximamos, em outros nos afastamos. Acho que somos o que somos e ponto.

PIL
Acho que temos pais e primos bem próximos. Provavelmente, ouvimos as mesmas coisas. Temos referências em comum, não tem como negar. Agora, eu vou ser bem sincero, eu nunca ouvi o disco do início ao fim. já ouvi em festas, vi clipes, e vi um pocket show aqui em brasília. foi muito massa! torço para que eles cheguem bem longe. fico surpreso qdo vejo a lovefoxx em ensaios de revistas gringas. Eles estão abrindo um caminho que a gente pode seguir. não vejo nenhum problema nisso. não fazemos nossa música por conta dessa possível facilidade ou pela admiração ao trabalho deles. Não é pra seguir uma “ondinha”, como já falaram sobre a gente. Cara, a música que fazemos é a mais fácil do mundo. Precisamos mexer um pouquinho no computador e conhecer alguns acordes. Só!

)) Que bandas, dessas que estão tocando em festivais independentes do brasil, que vocês gostam mais?

FERNANDA
Móveis Coloniais de Acajú (sempre!), Montage e MQN.

PIL
Qualquer show do móveis e do montage é fenomenal! nos shows do superguidis eu canto todas as músicas e no do MQN me dá vontade de tomar cerveja (isso é pq eu não bebo… hahahahhaah)

)) Quais festivais vocês mais tocaram? E dê detalhes! O melhor, o pior, a maior supresa e a maior decepção que tiveram circulando o país.

FERNANDA
Tocamos muito em festivais em Brasília e Goiânia – óbvio – Cuiabá, Minas Gerais e Natal. É complicado dizer qual o melhor e qual o pior porque cada festival tem sua particularidade. Os piores foram em Brasília. Aqui os técnicos de som são as estrelas no palco. O artista tem implorar pela compaixão deles. No Mada tivemos problemas técnicos em 80% do nosso tempo de show. Isso não significa que foi o pior festival. Na verdade, foi um dos mais legais, só não tivemos a oportunidade de tocar direito. O Rio de Janeiro dá pouca estrutura para as bandas. Acredito que em todos os outros festivais nós tivemos momentos maiores de tranquilidade. Os melhores festivais são os feitos pela minha gravadora, a Monstro.

Fora dos festivais que nós tivemos os melhores e piores shows e as maiores decepções. O melhor show é o mais difícil porque já tivemos os vários melhores shows. Alguns em São Paulo, outros em Minas e em Goiânia. O pior show da minha vida foi o nosso lançamento do disco em Brasília. Na casa onde fomos fazer o show, não tinha a melhor estrutura de som. Pagamos um super som pra dar conta do recado, mas ele não funcionou na hora. Estavamos há 8 meses sem tocar em Brasília e havia uma super expectativa no nosso show aqui. Foi triste. Eu chorei de decepção depois do show. Se fosse para eleger um dos piores lugares para se tocar, em termos de infra-estrutura, Brasília estaria entre os tops. Rodando o país o lugar que mais sofremos para tocar foi em Porto Alegre. Pegamos horas de chá de cadeira no aeroporto, depois ao chegarmos em Florianópolis tinhamos que pegar um ônibus para Porto Alegre. Só que não havia mais ônibus porque chegamos muito tarde na cidade. Passamos 9 horas dormindo na rodoviária. Passamos algo em torno de 24 horas para chegar ao nosso destino. A viagem era para ter durado menos de 12 horas. No dia do show, tomamos um calote e ficamos um bom tempo sem dinheiro por isso.

A nossa primeira maior supresa foi o Bananada em Goiânia. Nunca tinha visto um povo tão louco e sedento por rock! A segunda maior surpresa foi conhecer o pessoal de Cuiabá. Eles são muito organizadinhos. Isso eu nunca tinha visto coisa igual. Parecia que eu estava em outro país.

Um dos shows mais engraçados foi um que uma menina invadiu o palco para dar um beijo na boca do Pil. Não fiquei com ciúmes porque eu entendo o sentimento dela. Deve ser legal conseguir fazer uma coisa dessas. hehehehe.

PIL
A gente não repetiu nenhum festival ainda. Acho que o melhor, que mais me surpreendeu foi o bananada em 2006. Foi nosso primeiro show fora de brasília e foi incrível ver como as pessoas estavam dispostas a nos ouvir, a se divertir com a gente. Goiânia tem os shows mais legais de sempre! quem já foi, sabe o que estou falando.

Minha maior decepção foi o Mada. Nos preparamos bastante. Tínhamos altas expectativas, mas tivemos problemas técnicos que prejudicou o início do show e acabou tirando todo o nosso tesão para o restante da apresentação. Isso, com o tempo muda, vc acaba percebendo que essas falhas são frequentes para qqer lugar ou artista, e que qdo solucionado, não deve interferir no restante do seu show. A estrada está nos trazendo isso. Um dia faremos shows bons independente das condições técnicas.

)) Vocês já estão perto de fechar o circuito de festivais ainda enquanto lançam o primeiro disco. Onde a dupla vislumbra o Lucy and the Popsonics em 2008?

FERNANDA
Tocando em mais festivais legais e fazendo o que gostamos de fazer a nossa maneira. Queremos cumprir a promessa de tocar na França.  Os festivais independentes brasileiros são legais, mas  têm seus limites.

PIL
Exterior e um circuito de casas e festas. Os festivais te apresentam para o público mas não são sustentáveis para se manter a banda ativa por dois, tres anos. não acontece da banda se repetir na programacao por dois anos consecutivos e concordo com isso. por isso estamos navegando nesses novos caminhos. o final do ano será muito legal pra gente e praticamente não teremos nenhum festival independente na agenda.

E mais Coquetel Molotov

Há mais ou menos três meses, entrei bebado na piscina com meu celular. Ele voltou a funcionar tem poucos dias, não sei como (talvez se eu tivesse testado antes, ele teria voltado antes :P). Para comemorar e testar as funções, fiz umas entrevistas no Coquetel Molotov. Acabou ficando legal! A música da Vamoz, que toca no começo, é a “Target of Rock” e não aquela que diz no final.

Edição surpreendente, essa última do festival, hein? Acho que o show do Love is All na primeira noite foi o mais representativo. Uma banda que ninguém conhece, ninguém estava falando, não apareceu em canto nenhum desde que foi anunciada, mas com o público inteiro desesperado na frente do palco, dançando e até arriscando cantar. Receptividade como não se via no Recife já tem bastante tempo.

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Representativo, mas não bastou isso. Na segunda noite, recorde de público antes da metade do festival. Os ingressos esgotaram e as pessoas não param de chegar mesmo assim. Fila como nunca se vê no teatro da UFPE. Se não fosse proibido ultrapassar, eu arriscaria que tinha mais gente do que cabe no teatro. Gente da cidade falando que aquela era a primeira vez que estava indo para Coquetel Molotov, gente de outros estados (Bahia, João Pessoa, Natal, etc), que disse nunca ter vindo antes ao Recife. Realmente, algo surpreendente.

Quando o Coquetel Molotov começou, era um festival esquisito. Hoje, parece que sua fase de transição passou e agora é difícil imaginar como a cidade era antes. No final da banda Vamoz! um menino que não devia ter passado dos 16 reclamava com os amigos dizendo “que absurdo! Viu o que o vocalista falou no palco? Que era um show de rock, eu sai na mesma hora que ele avisou”. Novos tempos, novos públicos. Mesmo com um som deficiente – muito deficiente, pelo que parece, esqueceram de tirar a regulação do Nouvelle Vague qdo começaram os show – a Vamoz fez bonito. Detalhe que o público nem sempre repara, ainda mais com a presença de palco super profissional do trio.

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Nessa hora, deixei de ver os shows para fazer essas entrevistas do video. Vi duas músicas só do Wado e pareceu tão bom quanto estava deslocado. Era a atração que mais trazia informação nas músicas, coisa que o público realmente não conseguiu processar. Quem curtiu, tem a boa nova de que ele já tem um novo show marcado na cidade, junto com a elogiada Inquilinus. Coloco os detalhes aqui em breve. O clima por trás do palco era muito, mas muito agitado. Alguns vários convidados assistiam o show de Cibelle por trás do palco, todos vidrados, sem tirar os olhos dela. O cineasta Leo Falcão ficava no laptop cuidando do telão que projetava imagens.

Estavam todos lá. O pessoal do Supercordas, do Love is All, as meninas do Hello Saferide e o Suburban Kids with Biblical Names. O clima era de confraternização, junto com gente de outras bandas da cidade, alguns jornalistas de fora da cidade que estavam cobrindo o evento. Quando começou o Nouvelle Vague, parecia uma festa inteira a parte, menor apenas da catarse causada no público que, tá ok, talvez nem soubesse o que era o Bauhaus, mas entrou no clima nas versões sempre deliciosas que a banda francesa faz das músicas. Fiquei pensando até onde aquilo era um cover de luxo, até passar a pensar o quanto eu estava pensando bobagem. :P


No segundo dia, o karaokê indie armado pela patrocinadora Tim tinha virado atração-mor do festival. Até os caras do Love is All ficavam assistindo as perolas do público. Tudo só aumentava a zona livre do festival, que dava proporção de que aquela era mesmo a edição mais numerosa. Perto do último show, algumas bancas de camiseta já estavam vazia.cibell.jpg


Teve bronca no bar. A polícia apareceu para proibir a venda de bebidas que estavam fazendo do lado de fora do teatro e teve até gente sendo presa. Resultado, acabou a bebida no meio da noite. O pessoal foi agil e conseguiu repor, mas por latas ainda quentes. Bronca com cerveja, aliás, é um clássico em festival de música. Com exceção do Tim Festival, onde a bebida custa mais caro que duas garrafas. Aí ninguém bebe mesmo :P

Projeto parecidos, valores diferentes

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No ano passado, a Secretaria de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife distribuiu, através do Sistema de Incentivo a Cultura (SIC), um total de R$ 329.947,48 entre 11 projetos ligados à área de música. Aproveitando a recente lista dos aprovados para este ano, a reportagem da Folha de Pernambuco foi conferir cada um dos projetos aprovados na edição anterior. Na primeira matéria dessa série (publicado dia 04/07), foi mostrada a dificuldade que alguns projetos tem em captar recursos, sinalizando uma possível mudança no perfil do sistema. Nesta, será observado os detalhes dos projetos da área de música.

No SIC, música não é apenas a área com o maior número de projetos aprovados, como é também a que tem os maiores valores. Seguido de teatro, que em 2006 aprovou dez projetos. No total, todos os aprovados somaram R$ 1,200,000 (um milhão e duzentos mil), que equivale a 1% da arrecadação do município. Parcela que ainda é considerado pouca para a maioria dos produtores, que defendem um recorte maior dessa arrecadação.

Para ter uma idéia de quanto representa este valor, consultamos o técnico de som Leonardo Domingues, do estúdio Mr. Mouse. Segundo ele, um disco com média de 12 faixas, gravado e mixado em estúdio, com uma prensagem de mil cópias, tem custo médio hoje de R$ 20 mil. O que significa que com o valor total arrecadado poderiam ter sido gravados, por exemplo, cerca de 17 CDs. Para o SIC, custos de lançamentos devem ser suprimidos, o projeto tem que ter a cultura como um fim e também uma contrapartida social.

Os 11 projetos observados tem diferenças entre os valores específicos. Os horários de gravação, por exemplo, estão custeadas entre R$ 40 e R$ 80, sendo o último valor cobrado por menos que quatro estúdios da cidade. Os mais requisitados pelos artistas que aprovam no SIC, o Fábrica e Mr.Mouse, tem valor tabelado respectivamente de R$ 70 e R$ 60, sendo sempre negociado de acordo com o cliente. Apresentam também valores diferentes para a prensagem dos CDs, serviço que só é oferecido por duas empresas, ambas cobrando o mesmo valor de R$ 4.

Segundo as regras de pontuação do SIC, esses detalhes técnicos tem peso 1 na decisão da aprovação do projeto. Para o secretário de cultura da cidade, João Roberto Peixe, “não se pode padronizar todas as áreas, cultura é algo que tem uma flexibilidade muito grande, então não teríamos como ter todos os discos ou obras de arte feitas com o mesmo valor”. A garantia que a Prefeitura pode dar é estabelecer um limite de R$ 50 mil por projeto. “Um projeto diferenciado requer um custo diferenciado por ser tecnicamente diferente, não temos como estabelecer critérios para isso”, explica.

Apesar disso, existem subjetividades relevantes entre os projetos aprovados. Enquanto o disco “Coque: Arrebentado Muros Invisíveis” pediu R$ 24.084,91 para um projeto que incluía ensaio, transporte e gravação de oito bandas diferentes, o disco “Maestro Ademir Araújo – O Mestre da Banda” conseguiu quase o dobro, R$ 49.999,09 (havia pedido R$ 71,590,79). Sem especificar transportes ou horas de ensaio, a única diferença entre os dois projetos é que o segundo previa o pagamento de direitos autorais no valor total de R$ 3 mil.

Observando os projetos concluídos, foi percebido que existe também um acumulo das funções propostas. Muitas vezes o próprio músico é o projetista, captador de recursos e, principalmente, produtor musical e executivo do projeto do disco. Situação que é comum na cadeia produtiva da música independente, quando as funções existentes no modelo de uma grande gravadora são suprimidas. No Sic, juntas, essas funções somam cerca de R$ 10 mil em quase todos os projetos.

Uma outra subjetividade delicada diz respeito a contrapartida social proposta pelos projetos. Em quase todos os projetos referentes a gravação de disco, é oferecido a doação de uma parte da prensagem. O grupo Sá Grama, por exemplo, destinou 150 cópias, de uma prensagem de 3 mil CDs, ao Instituto Social à Criança, presidido pela dama do Recife. Já o CD “Onde o Amor foi Demais”, que aprovou um valor de R$ 48.232, ofereceu a contrapartida na forma de “Gerar empregos diretos e indiretos … porque a gravação vai ser feita em nossa cidade”.

Segundo sociólogo, compositor e professor da pós graduação em sociologia da UFPE Paulo Marcondes, “a contrapartida é válida, porque o CD é o material que o artista dispõe e, apesar de ser um produto estético, é também de mercado”. Numa reflexão em primeira instância, entretanto, ele também opina que “seria mais válido que fossem determinados um número de shows pagos, com a renda revertida para essas instituições, porque hoje em dia o artista fatura verdadeiramente com o show e não com o disco”.

Entrevista – Vanessa da Mata

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Marcada com uma semana de antecedência pela gravadora, parecia que uma má sorte de eventos cancelaria a conversa com Vanessa da Mata. Tensão resolvida após longos minutos, com a assessora avisando que ela falaria do próprio celular. E pela quantidade de barulho do vento, ainda devia estar na rua enquanto falava. No terceiro disco, parece que pressões desse tipo – essas agendas costumam ter 10 a 15 entrevistas por dia – já são um lado mais fácil de seu trabalho.

Eu deixo a pressão chegar a mim, eu funciono bem com ela”, comenta, sempre entre sorrisos. “Mas ela não é bem-vinda, depois de Ai, Ai Ai, eu liguei um nem ai para quem vinha perguntar quando viria o próximo sucesso”, explica. Botão que ela não aperta para si mesma. “Pressão minha sempre tem, quero fazer um negócio que me orgulhe, mas ai já é algo que eu lido melhor”, comenta e compara “Muita gente faz autopressão e não sai do lugar”.

Vanessa não se preocupa também em confessar logo as novas referências. “Eu já tinha idéia de fazer um disco de reggae, algo que tivesse o som do norte do Brasil, brinquei também com o carimbó e outros ritmos”, enumera. O convidado que dá peso ao disco, ela explica, foi idéia de seu produtor. “O Mário Caldato mostrou a canção para o Ben Harper em Los Angeles e ele adorou”. Caldato já produziu os Beastie Boys, Bebel Gilberto, Beck e se prepara agora para pôr as mãos no próximo disco da Nação Zumbi.

Pressão minha sempre tem, quero fazer um negócio que me orgulhe

Os outros convidados foram todos ótimas coincidências”, explica. “Encontrei o Pupilo por acaso no Rio de Janeiro, conversamos, parecido como foi com Catatau, que já estava no disco anterior. O trabalho deles é muito estiloso, era algo que eu queria no disco”. Tantos bons acasos, quando se está numa grande gravadora, costuma ser duvidoso. Um outro personagem desse disco é o jornalista Bruno Natal, que gravou imagens que farão um DVD a ser lançado em breve. “Conhecia o trabalho dele pelo Chico Buarque, gostei porque o que ele faz não é piegas”.

O vídeo será todo concentrado no estúdio. “É uma coisa natural para mostrar como é lá dentro, o trabalho de estúdio é bem árduo”, explica Vanessa. E desses dois lados do artista, ela confessa também que prefere o outro. “O estúdio para mim é muito frio, tenho necessidade de sair dele, prefiro estar na estrada”. A próxima estrada, por sinal, será bem longa. O show de Sim estréia primeiro em Nova Iorque, depois em Portugal.

Entrevista – Ortinho

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Fim de tarde chuvoso no bar Copo Sujo, no bairro de Santo Amaro. Passada as formalidades – aperto de mão, entrega do novo disco e a infeliz recusa da parte deste repórter em acompanhar na cerveja – Ortinho dispara algumas horas de declarações ácidas – “a gravadora pagava jabá  para o Querosene e Jacaré” – e reflexões sobre o momento da cidade – “quero atingir uma minoria de massa” – e adianta os planos para o show que fará naquela noite. Um dos poucos músicos da geração 90 que não quer trocar o Recife por São Paulo, onde já morou durante alguns anos, Ortinho lança disco Somos.

Hoje as pessoas perderam o conjunto, se individualizaram muito, não tinha um lugar diversificado como era a Soparia. Acho que até uma banda com o porte que a Nação Zumbi está hoje ainda tocaria num bar como aquele“, recorda. Esse é um dos motivos pelo lançamento no bar. “Resolvi fazer isso no Boratcho porque lembrei que aquela galeria [a Joana D'arc, no Pina] já foi um ponto assim, até Lenine se apresentava lá“. O novo disco já circula na cidade há tempos, mas Ortinho ainda não tinha feito nenhum lançamento oficial.

Longe da sombra que um dia a banda Querosene e Jacaré fez nos dissidentes – entre os companeiros, estão também AD Luna, da banda Monjolo e Cinval – Ortinho já se livrou do modo de produção dos anos 90, quando foi lançado pela Paradoxxx, na época mesma gravadora do Sepultura e Raimundos. O novo clipe não está  interessado em paradas da MTV. “Vou por no YouTube mesmo, também no meu site novo onde o ‘Somos’ e todos meus discos anteriores vão estar inteiros para download“, adianta.

Essa aposta de Ortinho no Recife, mesmo já tendo apresentado Somos em show lotado em São Paulo uma semana antes, é importante para uma cidade que sofre de constante êxodo artístico. “Falta respeito para essa geração 90, além de profissionalismo aqui, tenho minhas críticas, mas ainda curto mais o Recife“, comenta o músico. “E falta mercado, rádio nunca me deu nada na vida“, completa.

SITE DE ORTINHO | www.ortinho.com.br

N.D.E = Textinho curto porque foi escrito originalmente para caber no espaço reduzido do jornal. Versão inteira estará disponível em breve no RecifeRock!

N.D.E 2 = O clipe não tá aqui no texto porque, até agora, não apareceu no YouTube, nem no site novo