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DJ Dolores – Narradores de Javé Remix

Helder Aragão, o DJ Dolores, foi convidado para assinar a trilha sonora do filme Narradores de Javé. Preste atenção em quantos padrões do óbvio vão ser quebrados nas próximas linhas. Ele só está fazendo o lançamento agora, três anos depois da estréia filme. No lugar de usar seu nome, deu ao CD a assinatura de um coletivo de músicos e DJs de peso nacional. Fez tudo usando uma modelo de licença Creative Commons (CC), onde os artistas convidados tinham direito de fazer o que quiser com as composições. Até mesmo ganhar dinheiro com elas.

Não é apenas um disco é ousado. É também o primeiro, depois de muito tempo, em apostar na moral da própria música, e isso é muito legal. “Entreguei as faixas abertas para todo mundo”, explica Helder. “Alguns usaram só as baterias, outros usaram todos os instrumentos, dei liberdade total para cada um fazer o que quiser”, completa. No time, estão presenças de responsabilidade, como o paulista M.Takara (do Hurtmold), a banda Cidadão Instigado, o rapper BNegão e outros artistas do coletivo Instituto.

O convite veio do próprio Helder. “Acho bacana você ter sua música trabalhada por outros artistas dessa maneira”, diz o DJ, que não esconde ser tambem fã do Creative Commons. Uma licença que permite o autor dar a liberdade que acha necessária sobre sua obra.

Essa distância entre filme e disco é exemplo da utilidade da licença CC. “Tive alguns problemas para legalizar a participação de todo mundo”, explica Helder. Se todos já trabalhassem neste formato, o processo teria sido praticamente automático.

O próximo passo de Dolores é colocar as faixas originais na Internet, com a licença especial, para que todos possam fazer seus próprios remixes. É uma ação inédita para um artista de Pernambuco, a primeira no Brasil que atinge um disco inteiro de um artista que é referência no mercado. Antes disso, Gilberto Gil havia liberado apenas uma faixa em CC, a Oslodum.

Todas essa idéias nem passavam pela cabeça da diretora do filme, Eliane Caffé. Mas conseguiu casar em 100% com a decisão dela pela escolha de Dolores na trilha sonora. Em entrevista para a revista Época, ela disse que “[na cidade onde o filme foi feito] Algumas casas não tem nem banheiro, mas a população está ligada no mundo. DJ Dolores tem essa nordestinidade contaminada pela sonoridade externa ao sertão”. Comentário exagerado, mas que cabe bem na descrição do CD.

Disco
Falar em samplers é sempre complicado. Ainda mais num disco de compilações, que são fomosas por serem sempre tão irregulares. Não é o caso da trilha de Narradores de Javé. A cumplicidade do coletivo Instituto é a primeira coisa que chama atenção no disco. As batidas e remixes tem um carga forte de experimentação, sempre recheada com muita influência hip hop. Vantagem de quem não vai precisar circular com um show deste trabalho. Sempre puxando a próxima faixa, o disco prende o ouvido pela curiosidade.

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix
Gravadora: Independente / Distribuição Tratore
Preço: R$ 23,90
Para comprar: Submarino
Escute aqui:

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Jota Quest – Até Onde Vai

Perto de completar dez anos de carreira, o Jota Quest pode desfilar o título de banda pop mais bem-sucedida do País. Com novo disco chegando esta semana nas lojas, “Até Onde Vai”, o grupo mostra que, sem trocadilhos, vai bem longe. Com 14 faixas, o CD mata a ansiedade dos fãs que estavam há três anos sem nenhuma inédita para cantar. E é na fórmula dos “ná ná ná” e “lá lá lá” que eles acertam o ritmo com a versão de “Além do Horizonte”, música de Roberto Carlos que já está nas rádios, clipes e propagandas na TV.

Já na abertura, “Libere a Mente”, música mezzo-política / mezzo-balada, “Até Onde Vai” mostra que é, sem dúvidas, o disco com pegada mais funk do Jota Quest. Com participações na autoria de Nando Reis, Lulu Santos e batidas da dupla de DJs ingleses Layo & Buschwaka. E é na presença desses que estão alguns dos melhores momentos do novo trabalho. Essa sequência de abertura, ainda com a música “Sunshine em Ipanema”, resume bem o restante da uma hora do disco.

Os momentos leves, às vezes com certa puxada soul, são cada vez mais raros. Se percebe uma situação maior, e bem dispensável, de compromisso do Jota Quest com sua parcela de público mais romantico e noveleiro. A banda poderia ter encerrado no clima agitado, sem se preocupar em emplacar no próximo tema de casal das 20h. Se derem sorte, essas não entram em trabalho, o que é provável, já que faixas como “Além do Horizonte” grudam como chiclete.

Escalada na programação de todos os principais festivais de música pop de 2004, o Jota Quest é também, protagonista da via-crucis da fama no Brasil. Tocar na rádio e televisão costuma atrair comentários negativos de bandas semelhantes e principalmente pela crítica ávida por crucificar o artista da vez. “A gente faz o que sabe fazer, nunca pensando se vai vender ou não”, se defende o baterista Paulinho Fonseca, em entrevista por telefone.

“O Jota Quest agrada um público cada vez maior e acho que é isso que toda banda quer”, comenta até com modéstia. Em 2005 o grupo agradou também o rei Roberto Carlos, os complicados Los Hermanos e até a dupla Layo & Buschwaka, que gravará uma música deles no próximo disco. “A gente conversou horas com o Roberto Carlos e ficamos impressionados como ele acompanhava a carreia da gente. Comentou até várias músicas”, lembra.

Outro parceiro antigo que volta no disco é Nando Reis. “Ele tá sempre ligando pra gente. De repente o telefone toca e é ele já falando “fiz uma música para vocês”, é uma loucura”, comenta. Essa já é a terceira vez que o Jota Quest grava o ex-Titãs. “Acho que a música tem um potencial bem forte, mas não sei ainda se ela vai ser trabalhada nas rádios”, adianta.

A banda mostra que está aproveitando o momento com bom humor. “Quando o Lulu Santos mandou a música pra gente ficamos tão empolgados que chamamos ele para gravar”, lembra. Apesar disso, o Jota Quest prefere deixar as participações no estúdio. “Sempre preferimos um show só nosso que fazer festivais, podemos trabalhar cenário e conversas com o público”, declaração que mostra que os convites ainda não subiram à cabeça dos rapazes.

Publicado originalmente em 08.10.05

Totonho e os Cabra – Sabotador de Satélite

Totonho é duas vezes um típico MEB. Música Eletrônica e Música para Exportar Brasileira. Exemplo mais clássico da criatividade nordestina em reprocessar suas batidas regionais com os samplers eletrônicos que recebe freqüentemente uma porta na cara dos produtores locais. Até, claro, voltar cheio de referências, elogios e um disco lançado no sudeste do País. Junto com sua banda, “Os Cabra”, o paraibano volta a dar as caras no segundo CD, “Sabotador de Satélite”, o primeiro produzido pela Trama.

A descrição lembra muito do que aconteceu com Otto. Mas a música de Totonho não ficou tão eletrônica assim. Ainda. Com roupa prateada e cheio de colares, só para fazer tipo, Totonho é o tipo de figura que se encontra num bar e, depois de tanta história, não dá para saber se a bebida está batizada ou se você que já passou da conta. Sua poesia é assim. Uma prosódia de uma sociedade que vive num latifúndio do espaço sideral onde ninguém tem emprego e educação. Hoje está tudo bem, o amanhã é que anda mal.

As pequenas histórias desse cenário cheio de intertextualidade começa com “Jaspion do Pandeiro”, rapaz que anda por aí com um skate no pé e batuque na mão. Traz consigo um par de silicones para mamas juvenis. Segue sempre nesse clima engraçado, com um pé no inteligente, lembrando um pouco de longe letras da extinta Karnak. Aliás, comparações são o que não faltam em “Sabotador de Satélite”.

Totonho rima com a vontade de experimentar de Chico César, Cordel do Fogo Encantado e Otto. Como esses três, sua música se venda pela sinceridade que mostra nas faixas do CD. Diferente deles, suas histórias parecem ser conduzidas por uma constante melancolia mesmo nos efeitos e batidas eletrônicas. Mesmo quando soa bobo ao falar que “o peito da morena / quando aperta faz fom fom”. Chega num limite perto do final, em “Rita Leea de Itamaracá”, onde canta “já estou de partida para o meu apê lunar”.

Existe ainda o fator de timing, que garante a esse disco uma expectativa maior de chamar a atenção dos produtores. A fase de crítica negativa a supervalorização das misturas regional está bem perto do fim. “Sabotador de Satélite” chega num momento onde uma triagem mais responsável deve selecionar artistas de qualidade para representar essa parcela do mercado fonográfico. Para quem está atrás disso, o disco é um prato cheio.

Entrevista

“Vamos fazer uma parceria?”. A proposta veio do produtor musical da Trama, Carlos Eduardo Miranda, depois que Totonho mandou sua demo para nada menos que 20 gravadoras. Bem antes desse resultado, sua história começou em João Pessoa, onde participava de uma cooperativa de compositores. “Éramos 19 e, quando um fizesse show, todos os outros estariam a disposição deles para conseguir som, contato com imprensa, etc”, explica. Mas acabou indo para o Rio fazer mestrado. Encontrou uma ONG no meio de caminho e parou de fazer música.

Quando viu que um dos colegas da cooperativa estava fazendo sucesso, viu uma oportunidade para voltar. Era Chico César. “Comecei a produzir umas demos, achando que através dele conseguiria chegar numa gravadora”, lembra. Mas não é assim que a coisa funciona. Totonho acabou aprendendo que o artista, na verdade, costuma estar bem distante das decisões de uma grande empresa. “Mas acabei me encorajando e fundei esse aglomerado de gente, “os cabra” que tocam comigo”.

Foi quando começou o processo de procurar shows e mandar demos para gravadoras. “Engraçado que eu nunca toquei no Recife. Sempre mandei material para o Rec Beat e Abril pro Rock, mas nunca tive resposta”. Engraçado mesmo, já que seu disco de estréia, homônimo, é o tipo de som que os produtores locais procuram. Talvez numa embalagem menos jovem.

Totonho volta para o Nordeste no fim do ano, onde se apresenta na sua cidade natal em novembro. “Tradição é uma coisa que não anda sem ser mudada, transformada. Parece que só agora começam a dar atenção para isso no Nordeste”, reforça. Enquanto se prepara para a viagem, tenta “fazer uma ponte com os outros estados próximos”.

Publicado originalmente em 20.09.05

Cachorro Grande: Pista Livre

A banda Cachorro Grande, do Rio Grande do Sul, não podia ter escolhido nome melhor para o novo disco, “Pista Livre”. Existe hoje uma certa cumplicidade nacional para que eles se transformem na próxima grande banda de rock do País, da parte tanto dos produtores como da mídia. O momento é o mais oportuno, já que este é o primeiro a ser lançado por um selo de distribuição nacional, que chega com um prêmio Tim de melhor banda independente no bolso.

Com produção de Rafael Ramos, o mesmo que levantou a moral de Pitty, “Pista Livre” mostra um Cachorro Grande diferente do conhecido pelos dois primeiros discos da banda. O som afogado em influências sessentistas continua, assim como os terninhos e boinas no visual dos rapazes, mas agora com um som bem mais nítido, mostrando qualidade de gravação bem superior. Mesmo no disco anterior, lançado pela revista Outracoisa, a produção deixava muito a desejar.

O baixo bem amarrado chega até a ganhar destaque da guitarra Rickenbaker ligada a amplificadores valvulados, instrumentos datados que são assinatura da Cachorro Grande. Em entrevista por telefone, o vocalista Beto Bruno explica que essa evolução foi bem natural para a banda. “Gostamos de bandas que sempre mostravam uma diferença grande entre discos, como o Beatles. Achamos legal seguir a mesma linha”.

As músicas estão mais tranqüilas e menos gritadas do que o Recife conheceu na apresentação do Abril pro Rock em 2003. Momento que, segundo Beto, vai demorar a sair da memória da banda. “Eu preciso voltar urgentemente para o Recife e tomar um caldinho de Sururu! Não sei como estou conseguindo viver sem isso”, brinca. Piadas a parte, o show aqui foi o primeiro publico que a banda conheceu que já sabia cantar as músicas deles.

Das 13 faixas, se destaca “Novo Super-Herói”, uma auto-referência que o Cachorro Grande faz. Na letra, um cara que “tocava numa banda tipo anos 60, comprou uma guitarra e andava de lambreta”, é também a mais agitada, que dá sinais que o “clima de lado b” da banda ainda vai demorar a ir embora.

Publicado originalmente em 06.06.05