Tagged: festival-mundo

A nova gestão da Abrafin

Ontem teve a votação para nova gestão da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (abrafin). Apesar do presidente continuar sendo Fabrício Nobre, do Goiânia Noise / Bananada, quase todos os outros cargos tiveram mudanças. A chapa assume pelos próximo dois anos agora na configuração que está logo abaixo. Na principal novidade, está a saída de Paulo André (Abril Pro Rock) da vice-presidência e entrada de Pablo Capilé (Calango) no lugar.

A coordenação continua quase toda com os festivais mais antigos. Até porque eles precisaram enfrentar um dos períodos mais difíceis para a associação. Afinal, a crise econômica aperta onde doi mais nos festivais, que é o bolso do Patrocinador. Mas já tem alguns eventos mais novos ocupando cargos importantes. Por sinal, para quem ainda não sabe, a Abrafin faz três reuniões anuais. Quem quiser se filiar, só tem agora mais duas chances de pegar o encontro. O próximo será na Feira da Música / Porto Musical, no Recife em maio. A terceira é em dezembro.

Dessa primeira reunião, além da nova gestão, teve a divulgação oficial de seis novos festivais na Abrafin: Festival Mundo (PB), Forcaos (CE), Macondo Circus (RS), 53hc (BH), Cururu Siriri (MT) e Release Alternativo (GO). Agora são 38 afiliados em todo o país. O resultado saiu depois de dois dias inteiros de reunião em Brasília, com a presença de 25 festivais, além de alguns órgãos importantes como o Ministério da Cultura, o Senaes e o Sebrae. Resta agora esperar pelo planejamento 2009 e pesquisa feita por Bruno Ramos, que deve sair em março.

É interessante perceber como a Abrafin parece estar numa constante montanha russa. Os maiores problemas deles na primeira etapa aparentemente tinham passado até agora – em parte, uma repentina maturidade dos principais críticos a Associação em reconhecer os resultados dos trabalhos realizados – mas a subida tranquila foi só para uma nova queda. A crise financeira já afastou o principal patrocinador de cultura do país de cenário. A Petrobrás agora só libera verba através de edital (antes, ela escolhia vários eventos para apoiar diretamente). Por muito pouco não deixou até o Flamengo na mão.

Se num primeiro momento os festivais fizeram questão de serem ouvidos e percebidos, parece que chegou a hora de mostrar o que eles tem efetivamente a dizer. A recuada da Petrobras, mudanças na Lei Rounet e na gestão pública municipal de boa parte das capitais vai servir de provação para o sempre controverso termo “independente”. Alguns eventos já estão se preparando planos B, para garantir que vão acontecer mesmo sem patrocínio nenhum. É esperar e ver o resultado.

E boa parte da responsabilidade vai estar com essa turma aqui, ó:

Presidente: Fabricio Nobre – Goiania Noise Festival (Goiânia – GO)
Vice-Presidente: Pablo Capilé – Festival Calango (Cuiabá – MT)
Secretario Geral: Talles Lopes – Jambolada (Uberlândia – MG)

Diretor Financeiro: Leonardo Belém (Leo Bigode) – Bananada (Goiânia – GO)
Diretora de Comunicaçao: Marielle Ramires – Grito Rock – (Cuiabá – MT)
Diretor Institucional: Aluizer Malab – Eletronika (Belo Horizonte – MG)
Diretor de Ação Internacional: Paulo André Pires – Abril Pro Rock (Recife – PE)
Diretor de Açao Politica : Daniel “Zen” Santana – Varadouro (Rio Branco – AC)

Conselho Fiscal: Paulo “Linha Dura” – Consiencia Hip Hop (Cuiabá – MT), Andre “Pomba” – Mix Music (São Paulo – SP), Luis Mathias – Demo Sul (Londrina – PR) e Rodrigo Lariu – Evidente (Rio de Janeiro – RJ)

Representação no Nordeste: Ivan Ferraro – Feira da Música  (Fortaleza – CE)
Representação no Norte: Vinícius Lemos – Festival Casarão (Porto Velho – RO)
Representação no Sul: Vladmir Urban – Psycho Carnival (Curitiba – PR)
Representação Sudeste: Cláudio Rocha – Primeiro Campeonato Mineiro de Surf (Belo Horizonte – MG)
Representação Centro Oeste: Gustavo Sá – Porão Do Rock (Brasília – DF)
Representação Ibero Americana: Fernando Rosa – El Mapa de Todos (Brasília – DF)

Grito coletivo

underschool

O Grito Rock, considerado por alguns o maior festival independente da América Latina, começa a tomar forma já no primeiro mês de 2009. O Grito é, na prática, uma ação coletiva. Shows menores que acontecem em várias cidades do Brasil e em países vizinhos sob um mesmo nome. Algumas cidades, como Cuiabá (padrinhos do evento), leva o conceito além e cria um formato clássico de festival quando chega a data.

No Nordeste, o evento sempre foi meio mambembe. Conseguindo alguma força em cidades que já tem uma certa estrutura, como Natal, mas se dando mal em outras que são pouco preparadas até para shows cotidianos. Mas, parece que de tanto tentar, o Grito Rock chega na região na sua melhor forma agora.

O festival pode ser considerado o ponto alto das ações do Coletivo Lumo (aliás, to devendo falar mais sobre eles aqui) no Recife. Será em Porto de Galinhas (o que tem gerado vários “Como assim?”) com participação de Wado e Mombojó, além de bandas mais novas. A programação completa será divulgada no blog criado apenas para o Grito Porto.

Outro coletivo, o Mundo, que faz o Festival Mundo em João Pessoa, também dá uma crescida nas ações do Grito Rock na Paraíba. Lá, eles terão uma atração internacional, a Underschool Element, da Suiça. A banda também toca no Grito em Salvador, que será realizado por – sim, mais um coletivo – a Associação Cultural Clube do Rock (ACCR-BA).

Enquanto isso, em Natal, o Grito passa a se chamar Chamada Carnavalesca do Rock, com sete bandas, organizado pelo pessoal do Centro Cultural DoSol.  Esses não são exatamente um coletivo, mas você já conhece de festivais como DoSol e o tanto que eles fazem o Rio Grande do Norte repercurtir no cenário independente.

Então, só para organizar as agendas.

  • Grito Rock Porto de Galinhas: 30 e 31 de janeiro, com Wado, Mombojó, Amp, Trio Pouca Chinfra, Burro Morto, Nuda, Cabruêra (PB) e Gigante Animal (SP).
  • Grito Rock Paraíba: 13 de fevereiro, com Underschool Element, Nublado, Os Reis da Cocada Preta + 2 bandas.
  • Grito Rock Natal: 24 de fevereiro com AK-47, Camarones Orquestra Guitarrística, Bugs, Sinks e outras.

Festival Mundo 2008: Segundo dia

Essa dívida antiga com o Festival Mundo me forçou fazer uma loucura das grandes. O show do Macaco Bong (que explicou a história do amp no post anterior) terminou perto das 4h da manhã e sai de lá direto para a rodoviária. Voltei para o Recife, fui trabalhar no jornal e sai de lá de volta para a Paraíba. Direto, sem dormir e sem parar para comer. Tudo porque me comprometi com um dos debates da programação, que acontecia logo após uma mesa com o pessoal do Macaco Bong sobre o dia-a-dia de uma banda independente. Cheguei no centro histórico às 16h e o pessoal ainda estava lá, em circulo, conversando.

Novamente ficava a sensação do quanto o Festival Mundo é necessário para a atual cena de João Pessoa. Estava lá a banda que talvez mais circule hoje pelo Brasil tocando em festivais, disposta a entregar todo o ouro sobre como se inserir nesse circuito e como dar um sentido muito maior nessa história de ter banda. E a presença local era mínima, até de quem estava escalado para tocar no evento. O Mundo faz mesmo um trabalho didático e, pelo visto, dando murro em ponta de faca.

Desta vez consegui acompanhar tudo desde o começo. Deu para se surpreender desde o primeiro show, com a banda Cerva Grátis. Rock bem simples, desse mais cru que você encontra na esquina com qualquer Rock Rocket. Sim, eles dão cerveja de graça no palco, o que achei o máximo. Nem peguei, na verdade, mas me parecia que o nome da banda não passava apenas de uma idéia em comum com os amigos. Mas eles acrescentam isso na mis-en-cene e funciona que é uma beleza. Depois dessem do palco e continuam bebendo o que sobrou =P

Falar em palco, o som no segundo dia melhorou substancialmente.

A Paraíba se parece muito com o Recife de alguns anos atrás quando o assunto é a cena rock. Parece que eles ainda estão no processo de definir sua identidade – com pequenos surtos de uma Zefirina Bomba ganhando destaque, de vez em quando – e, enquanto o fazem, dão um constante ar de semelhança a outras bandas nacionais. Ficava impossível não associar a Elmo com o Dead Fish, principalmente pela semelhança na voz de Júnior, que dava vida ao grupo.

Olhar para o próprio país me parece ser uma boa opção. Pelo menos assim as bandas da cidade encontram espaço para amadurecer sem esbarrar constantemente em questões mais bobas como letras em inglês e outros purismo que nunca fizeram sentido nesse meio independente. Assistindo a Elmo e a Cerva Grátis, não vi também muita pretensão de sair – pelo menos por hora – desse esquema de shows locais. Sei que isso não justifica o ritmo lento da cena paraibana, mas pelo menos explica muito bem o contexto do cotidiano desses grupos.

Quem parece romper timidamente com isso é a Nublado. De todas as de rock local (com exceção da Star 61, claro), eles são as que melhor caminham para uma identidade própria. Isso quando arriscam em fazer músicas próprias, porque o show no festival foi quase todo de covers. Tocaram Radiohed, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys… e Superguidis! Mais uma vez, acabo esbarrando em um comentário que só faria sentido se eu fosse produtor de bandas, mas arrisco a dica: talvez se o baterista Rayan Lins (que também é um dos produtores do Festival Mundo) seguisse nos vocais, eles chamariam ainda mais atenção.

Talvez pela adrenalina e correria de organizar um evento desse porte, quando ele começou a cantar Malevolosidade dos Guidis o show cresceu. Parecia outra banda, mais rápida e agitada, como se os próprios integrantes da Nublado tivessem se contagiado pela animação da mudança de vocalista. Se eu tivesse que apostar em um dos grupos de rock para sair dessa programação e figurar em festivais vizinhos, seriam eles.

O Festival Mundo não caiu no clichê comum de padronizar os dias e, após duas bandas instrumentais na primeira noite, na segunda teve outra, O Garfo. Já falei deles por aqui antes. De Fortaleza, criada a principio para ser cantada, eles conseguem fazer uma música que eu gostaria de ouvir em qualquer boa festa. Pop, rápido, dançante, eles ficam sem dever nada a outros grandes nomes instrumentais como Pata de Elefante e Retrofoguetes. Formada por parte da Fóssil, eles são daquele tipo de banda que já nasce pronta.

O segredo do Garfo está nos timbres do baixo afogando a distorção da guitarra. Parece uma disputa amigável, com ambos os instrumentos tentando sobreviver de acordo com o ritmo da bateria. Sem virtuosismo e caras e caretas, a banda conquista pela repetição, aquele grande segredo escondido da música pop. A gente percebe fácil as estruturas da canção e, com um pouco de atenção, dá até para acompanhar junto. Eles já são revelação do ano, mesmo tendo tocado pouquíssimo.

Eu queimei a língua a profetizar que a Sweet Fanny Adams faria o melhor show da noite. Talvez por assumir um pouco do orgulho pela banda local. Não que eles tenham feito uma apresentação ruim. Longe disso, estavam lá com o pique do artista pronto, daquele que você pluga os instrumentos e eles descarregam quase uma hora de show insandecido. Quando tocaram, já davam dica de que o público da noite passaria das mil pessoas. E eles estavam bem interessados no que acontecia no palco.

A verdade é que a associação Garfo + SFA foi muito bem feita. O clima já era de festa total, com gente pulando ao som da ótima versão que eles fazem para Wolf Like Me do TV On The Radio. A mesma que fizeram no Boom Bahia semanas antes e que, depois, me disseram ser uma versão criada pela própria TV on The Radio. Consegui pegar o audio da mesa e quem quiser baixar, fica ai o link:

Mas eles não foram o sucesso da noite. Pelo mesmo motivo que explicava porque o rock na Paraíba ainda caminha devagar. Quando a local Burro Morto, outra banda instrumental, subiu no palco, tudo ficou claro. Com cara de “música do mundo” (que é como o pessoal da World Music tem pedido para ser chamado agora) eles deram o saque para a catarse da noite. Já era impossível circular na frente do palco com tanta gente tentando existir ao mesmo tempo no mesmo lugar. E ficar lá tinha regra: tem que dançar.

É impossível ver a banda de perto e não se contagiar com a música deles. Esse show foi ainda melhor do que o que eles fizeram no Coquetel Molotov, mesmo sem a ajuda de um ambiente mais lotado. E digo isso sem vergonha de deixar claro que essa sonoridade quase hippie está bem longe de me agradar. Mas não tem como não virar cúmplice do que eles fazem. Se eu tivesse que escolher apenas uma banda de todo o Festival Mundo para ver, seria o Burro Morto.

Lembra que falei do saque? A Cabruêra já entrou no palco dando o corte. Nunca tinha visto o show deles, apesar de já terem tocando centenas de vezes no Recife. Dali pra frente foi jogo ganho. Já tinha gringo, gente que nem fazia idéia que aquilo ali era um festival e só tinha aparecido para ver a banda. “É aqui que vai ter show da Cabruêra?” Era pergunta principal na bilheteria. E acabou nesse clima de festa, com eles esticando o repertório, chamando um grupo de amigos da Itália para cantar junto. Tudo bem memorável. Como todo bom festival, o Mundo teve nesse seu momento histórico.

Depois disso pluguei meu computador no som de lá e entrei no momento autista. Fui de R.E.M a Common People, tocando apenas para mim mesmo, enquanto o lugar esvaziava. Me diverti um monte. Fiz vídeo de tudo lá, com audio bem horrível. Depois publico aqui.

Toda as fotos desse post são de Rafael Passos

Festival Mundo 2008: Primeiro dia

Foto de Rafael Passos

Eu me devia uma visita ao Festival Mundo desde sua segunda edição. Naquele ano fui convidado para apresentar o Overmundo para o público da Paraíba e, por motivos pessoais, acabei tendo que voltar para o Recife logo após a conferência. Nos outros dois anos também não consegui estar lá, mesmo acontecendo em uma cidade vizinha. Problema corrigido esse ano. Sai do jornal direto para a rodoviária, encontrei com Montarroyos e seguimos em direção a João Pessoa. Por lá, já esbarramos nos Macaco Bongs, Calistoga e o pessoal do Cabaret, que terminava passagem de som.

Corremos com o check in no hotel e depois para o jantar, mas não foi o suficiente para pegar o show da primeira banda. Era a Outona, atração local que tocava hardcore melódico. Dei uma espiada lá no Foca e ele disse que não chamou atenção. Eu fico me devendo uma vista, já que a banda não usou metade do tempo que tinha de show. As fotos chamam atenção pelo visual bem cuidado deles. Coisa que fez falta em boa parte de outros mais experientes que passaram pelo palco.

Este ano o Festival Mundo se viu obrigado a diminuir de proporção. O lugar onde acontecia antes não podia receber um evento este ano por causa da eleição municipal. Num passeio rápido pelo Galpão 14, escolhido como substituto, já ficava evidente a importância que o evento tem em João Pessoa. Eles estão apertando o Fast Forward, descarregando informação em excesso para que o público local perceba o que está acontecendo nas cidades vizinhas. O vai e vem blasé das pessoas ficou entre as sensações mais angustiantes do evento.

As duas bandas potiguares não se deram muito bem na estréia que fizeram no festival, pelo mesmo problema da Outona. Como a programação é menor, dava mais tempo de apresentação para cada atração. E nem o Camarones Orquestra Guitarristica e a Calistoga pareciam preparados para um repertório de 40 minutos. A primeira, instrumental, divide as músicas com um começo mais rock, encerrando com reggae e versões para trilhas de desenhos animados. Resultado: esticaram a parte mais difícil de acompanhar, por ser mais lenta.

O mesmo aconteceu com o Calistoga. Acho eles uma das melhores bandas de rock do Nordeste hoje – entre as mais novas, claro! – mas o pique desandou da metade para o fim. Chegaram a terminar mais tímidos, quando deviam levantar e instigar o público cada vez mais. Não vou me meter a produtor de banda aqui, mas de repente escolher algum cover conhecido ajudasse. Sem isso, acabaram perdendo as pessoas que assistiam tudo da frente do palco. Por sinal, nessa primeira noite, o Festival Mundo teve cerca de 300 pessoas conferindo os shows.

Coube a Star 61 dar o primeiro suspiro de esperança da noite. Tocando em casa, começaram brincando um pouco com folk, quase escondendo o potencial glam do vocalista Flaviano. Ele sabe comportar no palco como poucos e, rapidinho, faz caretas, pulas e jogas as plumas para cima, tira a roupa e transforma totalmente a falsa primeira impressão do show. Me lembrou o que escrevi no Boom Bahia sobre se levar a sério. Eles conseguem fazer escracho e ultrapassar o limite do rídiculo sem precisar pagar de personagem.

Isso é a chave central. É impossível não se contagiar quando Flaviano sai para o meio do público, sobe o muro e ensaia um strip tease. O Star 61 consegue existir nos limites no bom senso e, ao mesmo tempo, soar agradavelmente pop. O constrangimento é zero, enquanto a diversão e as músicas já não podem se medir em notas. Eles são uma prova de que o Festival Mundo está tentando mostrar uma realidade rock que já existe na cidade, só precisa ser disseminada.

Tanta purpurina acabou complicando o meio de campo para o Cabaret. Afinal, a proposta das duas bandas eram a mesma. E quando Marvel, vocalista da banda carioca, cantou “O Vira” do Secos e Molhados numa ponta do show do Star, ficou claro que ele não ia vencer na disputa da imagem. Mas acho que isso só não passou de um bom desafio… O Cabaret precisaria, talvez pela primeira vez em festival, mostrar que pode chamar atenção além do cênico.

Mas além de performer, Marvel – codinome que Márvio dos Anjos usa no palco – canta como poucos. Aliás, depois de rodar o país em festivais, vendo para lá de mais de 200 bandas diferentes, me sinto seguro em dizer que o cenário independente ainda precisa correr muito para chegar no nível do que eles conseguem fazer no palco. Mesmo nessa, que foi uma apresentação regular, com direito a falha no microfone quebrando a concentração da banda, o Cabaret surge como principal nome de fora nessa edição do Mundo.

O Cabaret é uma banda de hits, algo que ainda faz muita falta no circuito de festivais. É impossível sair do show sem ficar com pelo menos umas duas músicas no repeat mental. Acho que bandas como essa evidenciam a necessidade de um novo meio termo entre a cena independente e o mainstream, já que ela tem competência para transitar entre os dois meios sem pertencer necessariamente a nenhum deles. Mas não deixa de ser divertido imaginar o estrago que eles fariam com uma projeção maior.

Ao contrário do que acontece com o Macaco Bong, que tocou logo em seguida. Esse choque entre o pop e o experimental acabou não sendo bem assimilado pelo público, que ao não entender quando uma música começava e outra terminava decidiu deixar o local. Confesso que essa mistura de virtuosismo com stoner rock não consegue fazer muito sentido para mim, apesar de reconhecer o quanto a banda é foda no palco. Vi poucos shows dos Bong até hoje (acho que três), e ainda acho que não vi a mesma a banda que tem sido elevada ao patamar da cena independente.

Mas nessa noite, especificamente, tive a primeira decepção real com a banda. Um amp do palco estourou quando inventaram de esfregar a guitarra nele. E tive que ver os caras saírem do palco com cara de quem não queria saber, falando de forma bem ríspida para a produção do evento que “festival é assim, isso é normal”. Para uma turma que faz tanta questão em falar de cadeia produtiva, deviam saber que ferraram o dono do som, deram prejuízo ao festival e prejudicaram as bandas do dia seguinte. E não, isso não é normal.

Conversei com o pessoal da banda e eles explicaram o acontecido. Segundo Bruno Kayapy, o que aconteceu é que o amp sofreu um arranhão e o responsável pelo som do festival exigiu um novo. A banda até topou oferecer um novo, mas apenas em troca do que teria sido “danificado”. E ele acabou não aceitando e deixando a história para lá.

Fotos de Anderson Silva e Rafael Passos.

Entrevista: Carol Morena e Rayan Lins

A Paraiba sempre foi um dos principais celeiros da boa música independente do Nordeste. São de lá a Cabruêra, ChicoCôrrea, Star 61, Zefirina Bomba e agora o Burro Morto, bandas que sempre foram, em algum momento, centro da atenção quando o assunto era selos, festivais, etc. É de se estranhar que, até então, o estado não tivesse um festival de música nos moldes de um Abril Pro Rock ou DoSol, como acontece em todos os outros estados da região.

Precisou a iniciativa de uma dupla bem nova, Carol Morena e Rayan Lins, que produziam shows menos na cidade quando muito marmanjo só pensava em encher a cara, para mudar essa situação. Eles começaram com a cara e coragem o Festival Mundo, que agora vai para a quarta edição e já coloca João Pessoa no mapa dos festivais, já que eles são um dos próximos nomes a compar a lista da Associação Brasileira de Festivais Independentes, a Abrafin.

Abaixo, entrevista que fiz com os dois:

- A Paraiba tem sempre nomes representativos. Cabruera, Zefirina Bomba, ChicoCorrea, agora o Burro Morto… Porque vocês acham que demorou tanto a João Pessoa ter um festival que fizesse parte do circuito?

RAYAN – Faltava gente comprometida, Bruno. Não é fácil produzir por aqui, tem que formar público e fortalecer, mostrar a vantagem de ter uma cena forte e unida e na maioria das vezes ficar batendo em teclas básicas demais. Sempre falo que nosso trabalho é muitas vezes até educativo. Antes tínhamos o Mormarço, que tinha tudo pra entrar nesse circuito, mas aí Ilsom foi pra São Paulo com o Zefirina e acabou tudo, a cidade voltou ao zero. Foi a partir dai, também, que resolvi fazer o festival e posteriormente integrar Carol nisso, que é uma pessoa que sempre se mostrou comprometida e afim de fazer algo pra melhorar essa situação de marasmo por aqui. Nós realmente queremos colocar a Paraíba no mapa e integrar o circuito de festivais independentes, abrindo portas pra mais bandas virem tocar aqui e mais bandas daqui irem tocar fora.

CAROL – É uma questão de interesse, por saber que o trabalho ganha muito em qualidade e dinâmica quando se sabe que ele faz parte de um circuito maior, não estando isolado. A gente tem a preocupação de dar uma circulada e ver outros festivais no país, ver shows, ver realmente o que está acontecendo com a música independente nesses últimos anos. Isso torna o festival realmente verdadeiro e justificável. João pessoa já teve outros festivais, como o Mormarço, que, ao seu modo, também fazia uma boa circulação de músicos e público. A diferença é que hoje esse mercado está mais articulado, sendo maior a visibilidade dessas produções.

- Essa soa meio clichê, mas afinal qual a dificuldade em se fazer um festival como o Mundo em João Pessoa? É o público? As próprias bandas? Outros apoios?

CAROL – A questão principal é dinheiro, sempre foi. Sempre nos preocupamos em fazer um festival completo, que realmente fosse vitrine da produção local e que pudesse trazer artistas que somassem à programação, numa estrutura bacana. João Pessoa merece e pode fazer isso, e estamos fazendo.

É uma dificuldade constante ter apoio de empresas privadas. Não adianta só apresentar o projeto do festival, a gente tem que fazer a empresa acreditar nisso, provar a todo segundo que realmente é um projeto importante, explicar que a gente não tem o Capital Inicial ou Biquini Cavadão porque não é a nossa proposta mesmo, entende?  Ainda ter que explicar isso hoje em dia é desestimulante, e a quantidade de respostas negativas também.

Apoio público é complicado. Editais locais são complicados, acabam sempre contemplando um único perfil de produção cultural, sempre voltada pra música popular, entende? Sempre temos apoio da prefeitura, custeando alguns itens do nosso orçamento, mas este ano foi duplamente complicado por ser ano eleitoral e esse apoio acabou não rolando.

Público não sustenta as atrações do festival, além de ser sempre uma incógnita. Não é difícil ver gente reclamando de pagar 6 ou 8 reais pra entrar, é um absurdo! São poucas as pessoas que sai de casa pra conhecer bandas, nós damos nó em pingo d’água aqui, hehehe.

RAYAN – É sempre difícil produzir algo do tipo em qualquer canto, mas aqui é quase impossível. O público é complicado, reclamam quando não tem nada diferente acontecendo na cidade, mas não são abertos a novidades, querem sempre as mesmas figurinhas carimbadas e deixam de comparecer por não conhecer uma atração.

Já as bandas, de um ano pra cá, estão mais antenadas, procurando se profissionalizar e viver a banda. Nos sentimos parte desse processo, pois independente das oficinas e debates do festival, estamos sempre conversando com as bandas e dando dicas, mostrando o que tá acontecendo fora do estado e o que elas podem fazer pra crescer mais e mais.

A grande dificuldade que sentimos é realmente a falta de incentivo, seja pública, seja privada. Tanto município, quanto estado possuem leis de incentivo, mas que simplesmente não funcionam para outros movimentos que não os regionais. Ano passado mesmo, só de cabeça agora, me lembro de dois festivais e uma coletânea que não entraram nessas leis de incentivo.

As empresas privadas de médio porte do estado preferem investir em shows de forró, enquanto as de grande porte não possuem sede aqui, é muita burocracia e eles não vêem a importância de investir em marketing cultural local, vem tudo pronto e enlatado de fora.

Enquanto isso a gente vai tirando leite de pedra e construindo parcerias como a do Sebrae e da Coca, que mesmo não sendo patrocínios, são apoios importantes pra realização do festival.

- O que estamos vendo em outros estados é realmente o que tem de mais legal ai? Ou existem outras bandas que vocês percebem no dia a dia e que ainda não chegaram aos festivais? O que deveriamos estar ouvindo? =)

CAROL – Eu costumo dizer que o grande problema das bandas locais é a falta de noção de produção. Nos últimos tempos isso tem melhorado um pouco, posso dizer no máximo 4 bandas que estão abrindo os olhos pra fora do estado agora, e é importantíssimo tocar fora, não só por divulgação, mas por amadurecimento.

Fora essas que você citou, a Star 61, Sem Horas, Nublado e Reis da Cocada Preta estão se articulando, e, por conseqüência amadurecendo, independente de estilos ou gosto pessoal. Elas merecem crédito por isso. Mas confesso que ainda sinto falta de um grande nome dentro do rock por aqui.

- Lembro que vocês foram ao Abril Pro Rock apresentar proposta de filiação na Abrafin. Como é que está esse processo? Perto, longe? O que falta?

RAYAN – Nossa filiação com a Abrafin deveria ter sido concluída no encontro que aconteceu no Calango, mas resolveram adiar e conferir de perto a edição deste ano. Em parte por problemas internos da associação e em parte por problemas internos nosso (pois acabamos transparecendo que talvez este ano não houvesse o festival). Conversamos com o Pablo Capilé durante a Feira da Música em Fortaleza e pudemos apresentar melhor o festival, ele gostou e foi daí que já fechamos o Macaco Bong. Tudo está caminhando para que próximo ano o Festival Mundo já esteja integrando a Abrafin.

- Fiz essa pergunta a Foca, do DoSol, e acho que devo repetir ela um monte ainda. Como foi a seleção de bandas do festival? Queria que vocês justificassem algumas das atrações convidadas.

RAYAN – A verdade é que acabamos tendo critérios diferentes para bandas paraibanas e bandas de outro estado e vou explicar por que. Nos dois casos, gosto pessoal da gente influência muito, mas é muito mais forte com as bandas de fora. A vontade de apresentar algo novo e que você curte pro público é muito forte. Mas é claro que, além disso, conta também a vontade da banda em tocar aqui e o trabalho que ela vem desenvolvendo. Nunca tivemos grandes nomes, até porque nunca foi essa a intenção do festival,  o que nos importa é que sejam bandas comprometidas com o que fazem.

Já com as bandas daqui, o gosto pessoal pesa menos, tentamos escolher bandas que façam bem o seu som, independente de gostarmos daquele estilo ou não. Bandas realmente afim de crescer e que tenham mais chances de dar certo. É uma forma também de incentivo para outras bandas se espelharem e fazerem a coisa da maneira certa.

Temos o Macaco Bong, que é uma puta banda, tem tocado em quase todos os festivais e é realmente foda. E o Cabruêra, que apesar de ser local, deve ter tocado mais na Europa que por aqui nos últimos tempos. Estávamos em negociação com eles desde o ano passado e finalmente fechamos esse ano. Vai ser ótimo pra diversificar ainda mais o festival.