Em duas semanas um monte de coisa pode mudar no mundo da música independente. O Jambolada anunciou a sua programação de bandas para 2010, mas os shows, dessa vez, vão se tornar apenas música de fundo para outra duas coisas interessantes que acontecem no evento. O primeiro é que essa será a última edição do festival com o nome de Jambolada. Depois de um desentendimento entre os sócios, o festival teve cada noite organizada por uma vertente do pensamento música / política. O segundo, mais importante, é que será a eleição da nova chapa da Abrafin, a associação nacional dos festivais. E o boato de bastidores é que muita coisa – mesmo – vai mudar. Eu vou estar lá, fazendo cobertura, e mandando tudo aqui para o Pop up :)
15/10 – Acrópole
01:30 Otto (PE)
00:50 Emicida (SP)
00:10 Autoramas (RJ)
23:40 Falso Conejo (ARG)
23:00 Cabruera (PB)
22:30 Erika Machado (MG)
22:00 Monograma (MG)
21:30 Pedro Morais (MG)
21:00 Banda de Joseph Tourton
20:30 Dom Capaz (MG)
20:00 Manos de Responsa (MG)
19:30 A170 (MG)
19:00 Desalma (PE)
16/10 – Acrópole
01:20 Matanza (RJ)
00:40 Vanguart (MT)
00:00 Copacabana Club (PR)
23:30 Vespas Mandarinas (SP)
23:00 Seu Juvenal (MG)
22:30 The Folsoms (MG)
22:00 Krow (MG)
21:30 Baba de Mumm-Rá (TO)
21:00 Gritando HC (SP)
20:30 Animais na Pista (MG)
20:00 Mata Leão (MG)
19:30 Bang Bang Babies (GO)
19:00 Leave Me Out (MG)
17/10 Palco Conexão Vivo (Praça Sérgio Pacheco)
15:00 Camarones Orquestra Guitarrística (RN)
16:00 The Hell Kitchen Project (MG)
17:00 Quarteto de Olinda (PE)
18:00 Ophelia and the tree (MG)
19:00 Indiada Magneto (MG)
20:00 Nina Becker (RJ)
21:00 Porcas Borboletas convida Paulo e Arrigo Barnabé (MG/SP)
Julgamento, uma das ótimas surpresas do Transborda
As duas primeiras noites do Transborda mostraram a relação única que o público mineiro tem com a própria cidade. A vontade de ocupar os espaços, retirar as barreiras e transformar a paisagem local era presente em manifestações, gestos, panfletos e atitudes das pessoas. No último dia, que conseguiu surpreender ainda mais em termos de público e atrações (algo que, sinceramente, nem contava que fosse acontecer), o Transborda se transformou em uma verdadeira declaração de amor a Minas Gerais. O discurso espontâneo dos participantes do Coletivo Pegada no palco foi inspirador e tocante, mexendo na auto-estima de cada um presente ali. Lembrou um pouco do Recife da década de 90, onde o discurso de “Mudar de cidade” virou o de “Mudar a cidade”.
De alguma forma, a grande movimentação do sábado deve ter se espalhado para o restante da cidade, porque já cedo a terceira noite do Transborda antecipava que teria quase o dobro de público. Essa é a parte em que um festival sem ingresso, aberto ao público, pode contestar o discurso de que isso vicia a cidade em shows de graça ou no não pagamento de ingressos. Com atrações bastante novas (e, porque não, até irrelevantes em certo aspecto), o festival criou acesso importante a produção local. Somente assim que mais de cinco mil pessoas, de gostos tão distintos, poderiam apreciar artistas que talvez só tenham ouvido falar sobre. E ver uma garota com visual headbanger, camisa de caveira, tachinhas presas na roupa e coturno, dançando na onda de BNegão mostra o quanto isso vale a pena.
O domingo era uma dia para o soul e funk, traduzido nos acordes de Samba de Luiz e Black Sonora e na MPB de Vandaluz. Fenômeno interessante de perceber na música local é de toda banda conta com vozes bem afinadas. Mesmo as bandas que particularmente me agradaram bem menos, como Manolos Funk (um tipo de Red Hot Chilli Peppers a brasileira), cumprem bem a função de ”artista local”. Pode-se dizer, sem medo, de que em termos de programação local, o Transborda deu a entender que em Minas não tem banda ruim. Ou, pelo menos, que mesmo os grupos mais fracos são bem acima da média que seus relativos em outros estados.
As revelações do festival também vieram no terceiro dia. Julgamento (hip hop) e Monograma (pop) precisam circular urgentemente em outros festivais pelo Brasil, desde já. Apesar de sonoramente distintas, as duas trazem a mesma característica marcante, que é um trio de vozes fortes e música dançante e fácil de viciar. Esses dois, junto com o grupo Transmissor, mostraram o poder que os grupos locais tem com o público. Ver tanta gente na frente do palco, cantando tudo em coro e dançando junto dá aquela esperança de que as coisas estão realmente acontecendo com a cena local. A Monograma fez o momento mais especial do dia, chamando todo o coletivo Pegada para cantar junto no palco. Foi nesse momento que, um de seus representantes, Lucas Mortimer, fez o discurso dizendo que “nós amamos Minas Gerais!”.
A força que um artista local pode ter com o público ficou ainda mais claro com o Eminence. Uma das bandas mais respeitadas do metal nacional, quando foi anunciado que tocariam no Transborda uma outra produtora local decidiu cancelar um show do Angra que teria na mesma data, com medo de não ter mais público. A nota saiu no site de vendas de ingresso e nos jornais. Antes do show, o guitarrista Alan Wallace até comentou que achou desnecessário, considerando que o metal melodico tem público próprio e diferente do da banda. Mas também não escondeu a alegria que dá o reconhecimento da força da banda. No palco, eles dominavam todo mundo até onde a vista alcançava, fazendo talvez o melhor show da noite.
Uma dobradinha entre Eminence e BNegão poderia estranhar os desavisados. Mas Bernardo Santos é o verdadeiro “Big Lebowski” da música brasileira. Ele é “o cara” e, onde aparece, controla toda energia do lugar. O show dos Seletores de Frequência fez até headbanger cabeludo dançar, dando o clima de confraternização para o encerramento do festival. Por falar em encerramento, uma das melhores coisas do Transborda foram os horários. Tudo terminou antes de meia noite, cedo para voltar para casa e descansar. O festival, seus idealizadores e as bandas estão de parabéns, mas não mais que o público que, nessas três noites, escreveu história.
Lucas Santanna ao vivo no Transborda, em Belo Horizonte. Foto de Tiago de Caux
Uma coisa é preciso ser dita a favor dos coletivos. Somente em um ambiente amigável de troca de informações, tecnologia e know how que um festival como o Transborda poderia nascer já tão grande. Quando vislumbrado pela primeira vez pela turma do Coletivo Pegada, certamente essa noite do sábado deve ter surgido como imagem de inspiração para o que queria ser alcançado. Cerca de três mil pessoas na praça, para uma programação de bandas ainda um tanto desconhecidas, comprometidas unicamente com a diversão e boa música. Foi-se o tempo em que dar os primeiros passos era um fardo.
Devo dizer que todo festival que acontece em praças públicas deveria se preocupa sempre em ter boa parte de sua programação durante a tarde. Parte do clima legal do Transborda era ver o pôr-do-sol sentado na praça, acompanhando os shows, encontrando amigos, sem a tradicional claustrofobia dos galpões e lugares fechados. Clima de família e, de fato, ocupado por algumas delas. Aliás, é incrível essa relação do povo de BH com as praças e espaços públicos. Além do movimento (falei no post abaixo) que transforma a praça em praia, existe um outro que é contra as grades colocadas em eventos. Ontem, no começo da noite, um representante ainda manifestou seu protesto tentando derrubar as grades que cercavam o transborda.
Durante essa ocupação (e re-significação, como bem lembrou Ney Hugo, do Macaco Bong, no palco), o público estava mais frio e era possível visualizar algumas “muralhas de observadores”. O começo das apresentações foi marcado principalmente pela empolgação dos populares bebados da cidade, que dançavam, corriam e tentavam descolar uma cerveja em troca de palavras balbuciadas sem sentido. Resultado também da escolha em ter quatro bandas instrumentais, que demandam mais atenção, durante a programação. Era também possível ver aquele “efeito Carnaval” no Transborda, com pessoas que jamais estariam frente a uma programação daquelas se não fosse de graça em área central. Fora de seu gueto, o independente se deu bem com o público.
O primeiro nome mineiro a chamar atenção foi a Mekanos, de Poços de Caldas. Com a mesma pegada de bandas como Vampire Weekend, o rock animado e cantado em português deles está pronto para circular. É o tipo de banda que, após entrar em um bom circuito de shows, tem potencial para ir além. Deram vez a pedrada do Macaco Bong, que apareceram para substituir o rapper Linha Dura, que não se apresentou na noite anterior. Show mais alto do dia, os Bongs atingiram um nível de profissionalização que mantêm qualquer apresentação deles sempre no patamar elevado. Difícil ver uma apresentação deles que não seja, no mínimo, excelente.
Tanto barulho acabou deslocando um pouco a qUEbRApEdRA, banda de MPB e voz feminina que se apresentou em seguida. Podia ter sido agrupada com outros nomes mais tranquilos do dia, mas acabou afogada entre o Macaco Bong e Vendo 147. A banda baiana já é reincidente e foi quem começou a quebrar um pouco do gelo do público. Quando o repertório atingiu o já famoso medley com músicas de Black Sabbath e AC/DC era possível ver gente dançando e feliz até em pontos bem distantes do palco. Foram eles quem abriram a porta para o bom clima da noite que começaria em seguida.
Entre os nomes locais a boa surpresa foi ver a ótima relação que o Dead Lovers Twisted Heart tem com o público mineiro. Show mais agitado e dançante da programação, eles aproveitaram a bola levantada pela Vendo para dar o saque da diversão. Mas uma vez oscilou pesado de clima com a Constantina que, ao convidar membros do Macaco Bong para a presentação, perdeu um monte da identidade que seria apresentada ali. Soava como algo especial ter aquele encontro, mas a informação demandava uma explicação e contextualização maior para o público. Teve até quem, sem entender, se questionou porque algumas músicas do Macaco Bong se repetiam.
Se o público espontâneo dava impressão de Carnaval, a música de Lucas Santanna trouxe o clima completo. A noite foi do baiano, que já é reincidente na noite mineira. Foi quando o gelo do público finalmente derreteu e grandes blocos de pessoas dançavam até onde a vista alcançava do palco. A vista, por sinal, era digna de cartão postal. A fonte d’água ligada ao fundo, iluminação forte na praça e uma multidão dançando em frente ao grande palco. Nessa hora, a turma contra as grades e tapumes realmente teve razão. Dosar um pouco a paranóia da prefeitura local ajudaria a fazer o cenário ainda mais bonito.
A noite terminaria bem já ai. Mas Jupiter Maçã decidiu dar sua benção ao festival. Quem acompanha com frequência a passagem de Flávio Basso em festival sabe que é realmente difícil pegar ele em boa forma, sem tropeçar o alcool por cima das músicas e fazer uma apresentação por vezes lamentável. Não foi assim no Transborda. Em sua melhor forma, com muito pique, deu o fechamento rock’n'roll a festa na praça. De lá, o festival migrou para a “Utópica Mercenária”, onde as bandas Pequena Morte e Do Amor arrastaram a festa até às 4h da manhã.
Vou começar com um breve momento de deslumbre: Belo Horizonte é uma das cidades mais bonitas que já vi. E tudo que falam sobre as praças daqui serem as mais bonitas do país é certamente verdade.
A primeira noite do festival Transborda, em Belo Horizonte, começou um tanto complicada. Apesar de existir uma vontade da população jovem em ocupar espaços públicos para eventos, a insegurança de órgãos como a Prefeitura ainda torna o processo bem lento. O festival acontece na Praça da Estação (apelido local da Praça Rui Barbosa, por ser lá a antiga estação central da estrada de ferro que cortava o Brasil, hoje abrigando o Museu de Artes e Ofícios). A vista do lugar, em dias comuns, é cortado por longos chafarizes de água, o que já rendeu um movimento local, chamado de “Praia da Estação”, onde as pessoas apareciam de sunga e biquini para tomar banho de sol.
Durante o Transborda, uma das fontes estava desligada para dar lugar a dois grandes palcos – lado a lado – onde acontecem os shows. A insegurança em ceder o local era visível nos diversos tapumes que fechavam o acesso ao museu, evitando contato do público com o prédio histórico, e também na demora da entrega do alvará de funcionamento do festival, o que resultou no atraso de quase duas horas para começarem as apresentações. Com hora marcada para encerrar, vigiada atentamente por vários funcionários da prefeitura devidamente identificados no local – e desnecessáriamente acompanhados da guarda municipal – o público foi o mais prejudicado ao perder dois shows. Um da banda Julgamento (remanejada para o domingo) e o do rapper Linha Dura (que mudou para o sábado).
Desatentos a esses detalhes de bastidores, o público foi o que mais chamou atenção nessa primeira noite de festival. Calculei uma média de 800 pessoas circulando pela praça com um visível interesse em ver coisas novas acontecendo na cidade. Se misturavam em duas categorias principais: os que se deixavam seduzir pela música e dançavam, pulavam e cantavam em frente ao palco e os que confraternizavam constantemente na noite (confesso que nunca vi tantos abraços distribuidos em uma noite de festival). O clima de boas vibrações total. Nunca se encontrava aquele típico chato do show, que fica em pé, em frente ao palco, observando sem reação tudo que acontece. A cumplicidade entre as pessoas e o palco já é ponto alto da noite mineira.
Os três shows que restaram para a noite foram salvos pela banda paulista Leptospirose. Antes deles, Cidadão Comum e Cães do Cerrado mostravam que o rock local é bem acima da média do que se assiste nos shows de abertura em festivais de outros estados. Confesso que cheguei em Minas pensando que essa era a terra de algumas das bandas mais legais que já ouvi na vida, como Sepultura e Pato Fu, e isso deve ter elevado mais a expectativa e a pressão nos nomes locais. Ambas as bandas estão no ponto para circular, com boa consciência do palco, mas ainda faltam aquele fator magia que faz você querer estar ali em cima, fazendo parte de tudo.
Era o caso da Leptospirose, banda de Bragança (interior paulista). A figura esquisita do vocalista Quique Brown, com jeitão de Frank Zappa From Hell, já inspirava insanidade nas pessoas antes mesmo da primeira música começar. Incrivelmente alta, rápida, suja e agressiva, as músicas hipnotizavam qualquer um que chegasse perto. Até os funcionários da prefeitura baixaram a pose, abriram sorriso e se deixaram contagiar pela festa. O dedilhado pesado e rápido do baixo se juntava a dança maluca da bateria com gritos de grind e hardcore no palco. A mistura não deu em outra: estourou uma das caixas de retorno, que começou a fumaçar trazendo um divertido elemento cênico para o show.
Tudo encerrou pontualmente às 23h30. Mas a festa continuou no “Nelson Bordello”, inferninho local que parecia concentrar até mais pessoas que na praça. Isso porque, paralelo aos shows do Transborda, o duelo de MC’s que já é tradicional da cidade fez o encontro de públicos da noite. Era a festa “Yes We Can”, comandada pelo coletivo Pegada, com bandas e DJ’s dispostos a ver o sol nascer. Por conta da longa viagem cheia de escalas – levei quatro vezes o tempo normal para chegar em BH – encerrei a noite sem encarar a longa a fila para ver o que rolava por lá. Mas hoje tem mais.
Preciso comentar: senti falta de ver as pessoas que criticaram o festival antes dele acontecer. Reclamar e falar mal sempre é feito com mais respeito quando se dá as caras para ver o resultado atingido pelo pessoal.
Esse eu filei lá do portal do DoSol. O Ponto CE é o “festival irmão” do que acontece em Natal, dividindo algumas atrações e acrecentando várias outras. De todo o Nordeste, Fortaleza é a capital que mais tem tradição e público punk rock. Várias bandas como NOFX passam apenas por lá quando fazem turnê no Braisl. Ano passado o festival recebeu o Bad Religion na programação e, para esse ano, a atração principal será The Marky Ramone Blitzkrieg! A produção divulgou apenas os nomes que, ao longo de três dias, se apresentam no anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar e Centro Cultural do Banco do Nordeste, sem a divisão certa de datas e horários.