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Música em ciclos

Não é apenas a violência, impunidade e corrupção que não muda no Brasil. Além dessa santíssima trindade, o filme “Tropa de Elite” refrescou a memória musical de muita gente. O “Funk das Armas”, hit nas rádios há 10 anos, mostra como é repetitivo o processo da música popular brasileira. Muito parecido com a situação hoje do funk carioca, retratado como “algo novo” que após invadir o gosto das pessoas, passa a ser processado pelas gravadoras. A trilha do filme já era a etapa final desse processo, já que a música era, na época, o lançamento da vez de uma gravadora multinacional.

O funk parece estar preso nesse ciclo. Pela demora a ser incorporado como parte do repertório nacional, vive nos altos e baixos, sempre surgindo como algo novo e aparentemente chocante. A maneira como o filme brinca com nossa memória musical é um exercício divertido. “Shiny Happy People”, música do R.E.M que toca na festa dos universitários, soa como um clássico tão importante do rock quanto os Smiths, mesmo com apenas 6 anos de lançado. Com o dobro desse tempo, o funk ainda não conseguiu passar de seu primeiro estágio.

Virou moda
Depois que o Radiohead mostrou que vale a pena para um grande artista sair da gravadora (veja mais na capa de hoje), Madonna decidiu seguir os passos. Ela vai encerrar o contrato com a Warner em favor a uma agência de shows, valorizando suas apresentações muito mais que seus discos. Segundo boatos, a cifra passa os U$ 100 milhões.

Na Internet
A gravadora Trama lançou um canal completo no site de compartilhamento de vídeos Youtube. No endereço www.youtube.com/Trama, é possível ver clipes, entrevistas, bastidores, shows e cenas extraídas dos DVDs lançados por eles. A iniciativa chega bastante atrasada, mas é muito bem vinda. Com sorte, incentiva outras a fazer o mesmo.

Agenda
Continua hoje a temporada que a Bande Ciné está fazendo no Café Portenho. São arranjos novos para músicas francesas, como Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot. No fim de semana, tem o Baile do Baleiro, com Zeca Baleiro cantando Novos Baianos, Originais do Samba e Tim Maia. Participação confirmada de Siba, lá na Fashion Club. E a banda Eddie faz show único (?) na cidade, junto com o Eta Carinae, no Recife Antigo.

Recbeat 2007 – Segundo dia

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Com o transito louco do carnaval, todos os ônibus escoando pelas mesmas ruas, tudo bem infernal, é quase impossível chegar na hora planejada nos pólos. Me atrasei no segundo dia do Recbeat e peguei apenas o “boa noite!” de despedida do Rivotrill. Uma agonia quando isso acontece, porque metade do caminho entre minha casa e o Recife Antigo é preciso ser feito a pé nessa época. E quando se está na ponte, vendo o palco de longe, com as luzes vermelhas e fumaças, é algo bem próximo à sensação de ver seu ônibus ir embora num dia de chuva. Você fica olhando, cerrando a vista, tentando ativar a supervisão, dá uma corridinha e quando finalmente se aproxima constata: é, perdeu.

Nessas horas, o que resta é perguntar. Uma parte me diz que a banda foi super chata, outra me diz que foi excelente. Não por acaso, ambas argumentam usando os mesmos motivos. Como sai perguntando mais aleatoriamente, não me atentei muito ao gosto de quem opinava. Vai parecer um comentário genérico, mas vindo de quem não assistiu ao show não podia ser diferente. Um som com muita informação no palco, misturando jazz e referências folclóricas, e que – isto foi de comum acordo a todos – teve uma ótima resposta do público. Fico na dívida aqui de ver um show dos caras.

Algo fundamental a se considerar nesta noite do Recbeat. Na outra ponta da ilha, o Marco Zero recebia um mix de Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Marcelo D2, Pitty e Lenine. No Recife, estes nomes juntos formam o melhor sentido para a palavra confusão. Nas ruas paralelas estava impossível. Terceira vez consecutiva que vejo venda e consumo de crack no meio da rua, em plena mesa de bar. Muita briga, arrastão, colegas apanhando pelo descuido. Abortei qualquer intenção de chegar próximo ao palco principal do Recife Antigo já no começo da noite.

Volta então, no turbilhão da confusão, para o Recbeat. Era uma banda de pós-rock no palco? Breeders, Pixies? Canja Rave, guitar band de Porto Alegre. Parecia surpreender, mas ao mesmo tempo, indie demais para um palco de carnaval. Talvez isso + a cabeça ainda atordoada das ruas laterais fizeram do show um pouco confuso. Não mais confuso que Isca de Polícia. Show chato, descartável, desnecessário. Até agora, único erro real dessa programação.

Forçando a barra para uma reflexão… acho que a programação do Recbeat ficaria ótima se seguisse uma unidade. Canja Rave teria mais clima numa noite com o Mellotrons; Digitaria com o Montage; Bonde do Rolê com Mister Catra. Tudo bem que essa coisa de “noite por ritmos” tem muita cara de Abril pro Rock, mas ainda acho que seja algo que funcione melhor.

Por isso, Digitaria foi um show totalmente passável. Eletrônico, alto, muito alto, que afastou mais público do que poderia suportar. Frente do palco vazia, mesmo com toda a macaquice que eles tentavam fazer para animar. Tinha gente empolgada sim, claro. Quem ficou para ver eles, não fez esforço. Dançou com vontade, mas ainda não vi um show de música eletrônica ao ar livre – exceção do Fatboy Slim – que tenha realmente se dado bem no Recife. Posso estar errado, mas o inferninho apertado ainda é preferência para as pistas.

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Eu já vi shows suficientes do Bonde do Rolê para ter certeza que aquele seria mais outro fracasso. Surpresa. Aliás, surpresa fantástica. Eu posso falar bastante, mas não escrevo palavrão por qualquer coisa. E preciso dizer que rock-funk-curitibano do trio, ali naquele palco, foi simplesmente do caralho. Vou rebaixar aqui qualquer tentativa cabeçoide de uma analise aprofundada para me resumir a esta única avaliação: do caralho.

Considerado tanta gente de periferia que estava lá, a resposta do público ao pancadão é quase imediata. Complicado apenas porque o Bonde é uma banda com muita referência sonora, letras complicadas. Num determinado momento, dava para ver que o publico realmente funkeiro e de cabeça rosa e amarela simplesmente parou de dançar e ficou olhando para o palco. Tudo parecia muito louco, muito complexo. Boa parte desistiu, pelo “ainda bem” do restante das pessoas claramente assustadas com o risco de pancadaria iminente.

Os fotógrafos são um ótimo parâmetro de quão surpreendente foi o show. Em todos os outros, eles se entediavam na primeira música e já iam embora com uns poucos cliques. Durante o Bonde, ninguém quis sair. “Claro! Num show desses tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer”, disse um deles, Ivan Alecrim, do Jornal do Commercio. E durante o Rolê, rolou de tudo. Deles descendo em pleno show para beijar as meninas, a um coro do público “vai Marina, mostra a vagina!”. Marina, a vocalista do trio, não mostrou. Mas não deixou de ser tudo muito memorável.

Programação de hoje

17h00 RECBITINHO: CIA TEATRO RASGADO
19h30 MELLOTRONS | PE
20h30 VANGUART | MT
21h30 RAIES DANÇA TEATRO | SP
23h00 MR CATRA | RJ
00h00 INSTITUTO canta Tim Maia Racional | SP
01h00 MONTAGE | CE

Abril pro Rock 2006: Primeiro dia

O 14º Abril pro Rock começou ontem, no Centro de Convenções, e já é a edição mais peculiar de todas. Sem muitos rodeios, este foi o ano com mais interesse da mídia pelo evento e com menos interesse de público. O que leva pensar que muita gente, no fim das contas, não faz um bom show. Mas pouca gente definitivamente faz um show ruim. E o pavilhão nunca esteve tão vazio. E isso nunca foi tão incomodo.

Quem chegava ao Centro de Convenções percebia de cara a novidade. O pavilhão onde o Abril pro Rock acontece todos os anos estava fechado. Uma área menor fazia um “palco 3” logo na entrada, onde aconteceriam todas as apresentações da noite.

Sim, essa foi a tal noite eletrônica. Depois dela acho que dá para concluir duas coisas. Ou esse público aqui é muito pequeno, ou ele não serve para nada. Porque às 23h, quando o Montage subiu no palco, não tinham nem 300 pessoas ainda para conferir o que seria uma das melhores apresentações da noite. Mesmo com uma estrutura de som péssima que só rendia ruídos, Daniel, uma mistura de Brian Molko-David Bowie-Vive la Fete, roubou a cena com uma presença de palco para lá de divertida.

A música não trazia muita novidade. É aquele eletrônico afetado, meio rock, feito com uma guitarra e um computador. Letras em português e inglês, que não fariam tanta diferença, não fosse o público já cantando elas de cor, colados no palco. Pensar em Internet é pensar que o público do Abril está mais refinado e, talvez por isso, tão restrito. Quando a apresentação terminou de meia noite, o pavilhão continuava com o clima vazio.

A disposição da programação do Abril pro Rock é bem engraçada. Este ano, o que eles têm de atração forte, ficou no meio e não no fim da noite. Na sexta, pareceu que eles quiseram entregar logo as cartas, mostrar o que tinham trazido de melhor e pior logo de cara. Porque depois do Montage, subiu uma das escolhas mais infelizes do evento, a dupla Kook and Roxxy. Supostamente alemã, já que a menina, a Roxxy, é daqui do Recife.

Com declarações de que “é muito lindo tocar em casa”, a dupla não acrescentou muita coisa além de caretas na cara do público. O “Palco 3”, inaugurado clandestinamente pelo The Playboys ano passado, agora é oficial e também muito pequeno. A aparelhagem técnica tinha melhorado o som da dupla, mas o espaço parecia pouco para a menina que não parava de dançar esquisitamente no palco.

Hora de lavar a alma, com o toque da meia noite no relógio e a dupla Stereo Total se organizando no palco. Não tem como negar um sorriso para a simpatia dos dois. Uma mistura de Walter Matau com Kramer (do Seinfeld) e uma professora de colégio americano, mais o delicioso sotaque inglês (eles são da Alemanha) e uma hora de música eletrônica-minimamente-fofa.

O show mais legal da noite teve ainda o pessoal que estava na frente do palco subindo, tocando os instrumentos, dançando e cantando junto. Tudo num clima ótimo e bem divertido, desses para guardar como boa lembrança. Talvez por isso, pareceu demorar muito mais que a uma hora que teve duração. Perto das mil pessoas, o Abril pro Rock chegava ao seu ponto alto. O que fez valer a noite.

Diplo funcionou como uma espécie de divisor de águas da noite. Com a injusta tarefa de se apresentar em uma hora, o DJ americano fez um set pra lá de misturado. Com o esperado funk a remixes legais das velhas músicas de sempre. Divertido, mas naquele momento, a noite começava a ficar mais segmentada. Algumas pessoas já iam se afastando, cientes que não conseguiriam nada melhor que aquilo. Teria sido muito legal, não fosse a inocente idéia de Diplo de homenagear Chico Science. Desnecessário.

Nos bastidores, o DJ, bem eufórico, disse que tinha sido uma de suas melhores apresentações. Não entendeu, no entanto, porque o público não tinha gostado tanto da homenagem que ele fez a Chico Science. Bem vindo ao Recife, Diplo. =)

Quando o DJ Dolores entrou com seu bloco Mega Hits já eram três da manhã. Pouquíssima gente, um calor infernal. A idéia de Helder Aragão (alcunha que um dia foi o nome verdadeiro de Dolores) é muito, mas muito legal. Também é totalmente deslocada da noite do Abril pro Rock. Uma orquestra de verdade, da Bomba do Hemetério (um dos bairros barra pesada do Recife), tocando aqueles sucessos mais batidos de uma festa cansada. Depeche Mode com Eye of the Tiger (isso mesmo, a trilha da cine-série Rocky).

Bizarro, o ator Mateus Nachtergaele, completamente louco, subiu no palco e tentou cantar (ou era recitar?) alguma coisa.

Quando a noite entrou na reta final, já era dia. Quatro da manhã, João Gordo e Iggor Cavalera no palquinho, Black Sabbath na caixa. A dupla fez o set hetero do Abril pro Rock. Som pesadão, com hip hop e muita guitarra. Mas depois da maratona, era preciso muita boa vontade para agüentar mais uma hora de música. Pelo menos nesse contexto bem irregular que foi o repertório da sexta-feira.

Diplo – Florida

Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

Publicado originalmente em 01.10.05