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Devotos, completo e de graça

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A Devotos acaba de lançar o CD com o show de 20 anos da banda. Enquanto o DVD, que foi gravado no Alto José do Pinho, não sai, eles resolveram dar de presente para os fãs toda a discografia para download. Tem desde o primeiro disco, “Agora tá Valendo” – que saiu só quando completaram 10 anos de estrada, com show do Man or Astroman – até esse lançamento mais recente. No site oficial da banda é possível fazer a degustação faixa-a-faixa até dos EPs e demos de Cannibal, Celo e Neilton.

Quem já conhece bem as fases “Do Ódio” e atual da Devotos, pode baixar direto os álbums completos. Abaixo tem o link para cada um deles, via 4shared:

Astronautas – O Amor Acabou

O mundo do rock independente é cheio de seus próprios folclores. Entre eles, tem uma frase que circula com grande freqüência nas mesas de bares, nos bastidores dos festivais, nas listas de discussão. Quase o discurso de frente das bandas, com um palavrão enorme no meio, quando todos confirmam que “Se tá no rock, é para se f….”. A história da banda pernambucana Astronautas, que lança agora o terceiro disco pela revista Outracoisa, foi construída quase que totalmente com base nesse ditado.

A banda partiu ano passado para São Paulo, com dois discos na bagagem (um deles por uma das mais importantes gravadoras independentes, a Monstro) e determinada a dar certo no cenário nacional. Vivendo a frase acima todos os dias, o grupo viu sua formação se desconstruir e nascer de novo, com mais de 20 integrantes diferentes. “Encontrar material humano, os ‘brothers’ mesmo, é difícil”, comenta André Frank, vocalista, líder e também parte do próprio folclore do rock independente.

O “comandante astronauta”, como é conhecido por todos, segurou as pontas da banda enquanto outros davam prioridade a empregos ou saíam do País para estudar. “O negócio é punk. Eu sou formado em duas faculdades e escolhi não exercer para fazer isso porque eu quero fazer essa história”, comenta. Frank (que comandava, antes, a Frank Jr.) faz questão de explicar que a banda não é só ele, mas, sim, todos que decidirem abraçar a idéia. “Eu sou um guerreiro incansável e agora sei que tenho mais dois comigo no mesmo pique”, celebra.

Guerreiro mesmo. Em 2006, ainda na entressafra do segundo disco, a banda fez 40 shows pelo Brasil. Passando, inclusive, por alguns dos principais festivais do País. A tendência agora é crescer mais. “Já deu 300% mais certo do que eu pensei”, comemora André Frank. “Além de uma tiragem muito maior (nove mil discos, contra três mil no anterior), ele chega mais barato às lojas, com uma divulgação nacional mais forte”, completa. O maior desafio para os Astronautas agora é o próprio Recife. A banda ainda passa despercebida pelos festivais locais e fica de indicação para um próximo Abril pro Rock.

Disco
“O Amor Acabou” é um disco fácil de digerir. Rock de guitarras altas, cheio de interferência eletrônica, quase como se o Kraftwerk resolvesse tocar hardcore. Apesar do nome, está longe de ser algo “emo”. O amor serve de leitura para as relações sociais, a política e, principalmente, a vontade humana de realizar as coisas. “Os sonhos nascem do marketing”, verso excelente de “A Era Moderna”, é o que melhor representa o texto deste disco. Porrada boa – na orelha – na renovação do repertório rock.

Ratos de Porão – Homem Inimigo do Homem

“Homem Inimigo do Homem”, o novo disco do Ratos de Porão que as lojas recebem nesta segunda (19/06), deve ser o maior “mais do mesmo” por minuto do rock nacional já lançado nos últimos dois anos. E está é a melhor notícia que você vai ter do novo trabalho. Fazer o mesmo punk gritado e rápido – cada dia mais sujo e agressivo – por 25 anos é uma vitória que coloca outros embates, como a pirataria, no patamar da bobagem. Sem contar ainda o mérito de um gênero que bebe de uma fonte quase inesgotável de conflitos políticos e, mesmo assim, consegue fazer 12 músicas em 30 minutos.Ter acompanhado esses 25 anos de carreira do Ratos de Porão continua sem ajudar na compreensão do que é dito. É preciso entrar em sintonia completa com a banda, com o som, com o momento. Uma espécie de transe, que envolvido pela voz de João Gordo, se transforma no protesto “catequese de ódio dentro de mim / inquisição de merda bem bindo ai” ou “hei, moleque equivocado / insensato, sem futuro / de bobera a vida passa na sarjeta / e vai para o esgoto”. Das crises pedófilas da igreja à geração do ser-triste-é-legal, os tais “emo”, o RDP dispara contra todos.

Num contexto onde as bandas precisam sobreviver cada vez mais com um único single, é o disco inteiro que conta no caso do Ratos. Cada música é uma peça do quebra-cabeça que constrói esse momento aqui-agora de protesto. E a experiência deixa que eles façam isso sem soar cansados (como um velho gordo que aponta o dedo para o adolescente dizendo como ele deve viver). E o mais importante, essa mesma experiência oferece um repertório enorme de palavrões bem encaixados que conseguem deixar um tema sério engraçado, mas sem cair no bobo (de novo, como um velho gordo que aponta o dedo para o adolescente dizendo como ele deve viver).

Meia hora parece pouco para um disco com tantas músicas, mas é suficiente para entender o recado do Ratos de Porão. E o recado é que eles continuam sem dar a mínima para muita coisa. Estão agora numa gravadora que lança, igualmente, pagodes e rock de MTV, mas mesmo assim continuam fazendo o seu, falando da única maneira que sabem. Uma que nunca vai se tornar um sucesso de vendas, mas que tem competência para sobreviver mais 25 anos.

Escute aqui: Otário Involuntário

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Entrevista com Boca, baterista do Ratos de Porão

* O Ratos de Porão muda muito o discurso de seu protesto. Ao contrário de bandas companheiras, como o Replicantes, que continuam pedindo a paz na terra. Porque esse abandono dos temas com tanta velocidade?

Cara, tanto o som como as letras refletem um momento que a gente tá vivendo. Quem faz a letra no caso é mais o gordo, mas a gente lê jornal, tá sempre mais antenado com um assunto num determinado momento. Quando esse assunto tá na cabeça ele reflete mais. Disco passado a gente falou da política americana, agora a gente tá falando do papa novo, da escravidão, da molecadinha emo.

* Esse disco também marca 25 anos da banda. Como é para vocês hoje pensar em novidade para fazer um disco?

Cara, é difícil. A gente tem uma preocupação em ter uma fidelidade com o estilo de som que a gente gosta e aprendeu a tocar. E continuar fazendo algo relevante, sem fazer uma paródia dos discos anterioreos. Como a gente é viciado em som, tá sempre ouvindo coisa nova, a gente consegue atingir esse resultado. Tem essa sonoridade oitentista, mas tem arranjos atuais.Como a gente nao fica parado no tempo em termo de música, tem cabeça aberta, a gente consegue.

* E como é sobreviver no Brasil com uma banda punk durante 25 anos? Vocês já pensaram em acabar tudo?

Cara, isso ai acima de tudo é camaradagem e ter amor ao que faz. Todo mundo adora ter a banda, gosta de tocar e a gente não pode negar que o Ratos proporciona momentos para gente que nao teriamos fora da banda. Fora o convívio que é saudável e legal, todo mundo é camarada, se encontrar para fazer o show no fim de semana sempre é aquela festa.

A gente nao pensou ainda em acabar, cara. Em 2002 tiveram dois fatores para nos deixar parados por um ano… e acho que isso só veio a favor, foi super benéfico para renovar, refletir. Discutir os interesses que tinhamos com a banda, chegar num denominador comum.

* Como surgiu o convite para a produção de Ganjamen?

Cara, o Ganja é camarada nosso a 500 anos. A gente ensaiava num estúdio que era da família dele, do pai e dos irmãos. Como a gente teve problema com o produtor gringo, a gente chamou ele. Ele é um p*** profissional e com a camaradagem a gente confia mesmo trabalhar com ele, porque sabe que ele gosta da banda e vai querer colocar nossos interesses sempre a frente. A escolha do Ganja partiu disso, da amizade, da certeza que ele ia conseguir trabalhar com uma maneria relaxada.

* Vocês estão lançando agora pela Deckdisc. Já passaram pela Roadrunner e várias gravadoras. Muda alguma coisa? Vocês já pensaram em voltar a um esquema 100% independente?

Aqui no Brasil isso é um pouco complicado. A gente precisa ter uma gravadora para dar uma estrutura. Ter uma assessoria de impernsa, uma distribuição boa, uma logística. Totalmente independente é uma coisa que não dá para conseguir tirar tudo que um disco pode render. Principalmente o potencial máximo de distribuir e vender um disco novo.

O que você tem que pensar é que todo mundo vende menos, com mp3 e download. Como você mesmo falou é tanto tempo de banda que faz a gente ser bem realista com mercado, com mudança de cena, não ficar viajando e fazer as coisas certas, sem criar expectativas para nao dar desânimo. A gente tira de letra.