Cheated Heart
É a música mais legal deste mês. Forte concorrente a ser do próximo mês também. Cheated Heart, do YYY, tem o melhor nome, refrão e clipe que já vi.
É a música mais legal deste mês. Forte concorrente a ser do próximo mês também. Cheated Heart, do YYY, tem o melhor nome, refrão e clipe que já vi.

Bata as palmas e diga “yeah”, aliás, diga “Yeah, Yeah, Yeah”. Três vezes seguidas, porque chegou o segundo round das bandas que estouram na Internet pelo menos três meses antes de você começar a ouvir falar nelas. Cinco discos, todos lançados de uma só leva, para um público alvo que já sabe o que esperar (aliás, que já tem todos em MP3). Foram as melhores bandas da semana que vazaram na rede e agora, nas lojas, voltam ao posto de prestígio. Pelo menos dois meses de vida-útil certa, até que o próximo round vier com mais deste “novo rock”. É o método peneira digital dando certo.
No topo da lista, está “Show Your Bones”, da banda Yeah, Yeah, Yeahs. Perigoso, de tão viciante. A banda, formada em 2000, começou fazendo shows de abertura para as bandas The Strokes e White Stripes; origem inconfundível das influências. Eles só ganharam o mainstream indie (se é que isso existe) em 2003, com o hit “Maps”, do primeiro disco “Fever to Feel”. Com execução garantida nas rádios alternativas, eles só precisaram de um clipe dirigido pelo cultuado Spike Jonze (que assina, entre outros, os vídeos do Fatboy Slim) para entre em 10, de cada 10 posts dos blogs sobre música.
Em dois anos eles conquistaram quase tudo, inclusive um elogiado DVD com cenas de dois shows; sinais de uma banda com ritmo “fast food” de vida. Mas em “Show Your Bones”, lançado aqui pela Universal, o YYY volta mais limpo e direto, sem firulas, muito mais legal. “Honeybear” é a prova de fogo. Quem resistir a vocalista Karen O nos refrões “runaway, runaway, you want it”, pode parar por aqui. Aliás, como ela mesmo abre na música “turn yourself around, you weren’t invited” (vire-se, você não foi convidado).
Na sequência, chega também edição nacional do homônimo Clap Your Hands Say Yeah. Disco de estréia da banda, lançado ano passado nos Estados Unidos, conquistou logo de cara um prêmio do site exageradamente criterioso Pitchfork Media (que conta nos dedos a quantidade de notas 10 dadas para discos e bandas). A banda mais hypada do ano vêm de Nova York e tem na lista de fãs o nomes dos David’s Bowie e Byrne; e o segredo do sucesso na música “In This Home on Ice” . “Agora que estou tão triste e não muito bem / eu podia dançar a noite inteira”, são os versos para a pior noite nas melhores festas.
Depois dessas duas, não estranhe quando começar a surgir bandas com nomes longos e divertidos. Mas aquelas com nomes curtos e incomprrensíveis ainda cantam novidades. Dessas, The Brakes é a mais legal. Filha da Rough Trade, cultuada gravadora indie, eles chegam no Brasil via Trama, com “Give Blood”. O disco tem todas as introduções, meios e fins que alguém gostaria de ouvir numa festa decente. Aliás, ele dá a dica disso na ótima “All Night Disco Party”, música feita para ecoar em casas lotadas e abafadas de calor humano.
Quem encerra a lista é o The Rakes, com “Capture / Release” e escalação confirmada no Sonora Festival (ex- Curitiba Pop Festival). A banda queridinha da crítica faminta por criar modas começou abrindo shows do Franz Ferdinand e faz um rock na linha Bloc Party. É produzida, aliás, pelo mesmo Paul Epworth. Se eles são ou não “a salvação do rock” como escrevem por ai, só o tempo vai dizer. Quem quiser esperar, são recomendadas “Retreat” e “22 Grand Job” de trilha sonora para criar um clima mais que ótimista para a resposta final.
Do mesmo saco
Tem muito mais banda de onde essas vieram. Se lançar na Internet, hoje, já é muito mais lucrativo que um contrato com qualquer gravadora. Quem quiser se adiantar, vale uma visita por semana no site MySpace. Estão lá a página do super novo “Be Your Own Pet”, que antes de completar cinco músicas já era capa das principais revistas especializadas dos Estados Unidos e Europa. É obrigatório também fazer o download de “Crazy”, do Gnals Barkley. Parece, mas não é nome de cantor. É como foi batizado o projeto de fim de semana entre os rappers Danger Mouse e Cee-Lo.

A gravadora Trama lançou esta semana nas lojas o disco “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, do grupo inglês Arctic Monkeys. Diferença de quatro meses do lançamento internacional, pela Domino Records, e quase meio ano depois das músicas chegarem à Internet. Raras bandas têm oportunidade de ganhar três reflexões distintas do mesmo trabalho, todas com a mesma sensação de ainda estar falando de uma novidade. E em muitos aspectos, o Arctic Monkeys vai continuar sendo novidade durante muito tempo.
Para começar, a partir de agora, sempre que alguém falar para você sobre manipulação da mídia ou construção da realidade através dos jornais e revistas, pense imediatamente em Arctic Monkeys. Nenhuma banda foi tão mais falada que ouvida que esse quarteto de Sheffield, cidade que lançou entre poucos o The Long Blondes. A boa vontade em divulgar o single “I Bet You Look Good on The Dance Floor” como o que tinha de mais legal nos últimos dois anos de música rendeu, em um único dia – o primeiro dia – 118.501 vendas deste disco.
Numa situação dessas, que entra no registro do Livro dos Recordes, é sempre bom refletir o contexto com cuidado. A mídia especializada em música é, no geral, muito anti-MTV. Entre 1999 e 2000, todas estavam esperando algum barulho – literalmente – que pudesse soar rock e jovem, como o Oásis, mas com um pouco mais de atitude. Um pouco menos de clipes ou, pelo menos, sem a Sony (que virava na época a Sony/BMG) fazendo tanta pressão nas TVs e Rádio. Eles encontraram esse som do século XXI no disco “Is This It”, do Strokes.
Essa nova onda, a volta das guitarras mofadas, efeitos para que a voz soasse velha, rendeu uma vertente. Foi onde então essa mídia acima, revistas como a NME e sites como o Pitchfork Media (que disputam com o canal de clipes o direito de criar hypes) passaram a apostar. Meios que, de muita forma, são mais rápidos que a televisão. Um canal pode repetir o mesmo clipe um mês inteiro. Uma revista jamais poderá repetir uma matéria. Sim, lembre que estamos ignorando aqui a presença das rádios.
As gravadoras menores deram pano para manga. Em 2001 era lançado o Strokes, em 2002 saiam os Libertines (também o Interpol) e, em 2003, finalmente, o Franz Ferdinand. Uma banda por ano para ser trabalhada. Cada uma com suas características próprias. A mídia se acostumou nesse ritmo quase fast-food de ter, por ano, pelo menos uma banda mais legal da face da terra. Mas toda colheita tem sua entressafra. A deles aconteceu em 2005. Todos os discos seguintes das bandas não passavam de lançamentos mornos. O hype foi perdendo força.
É esse o contexto do Arctic Monkeys. Fome e pressa para um novo nome para promover. Se tivesse sido lançado em 2002, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, seria exatamente o que ele realmente é: um disco regular. Isso não aconteceu. E o que aconteceu também com o Arctic Monkeys é que, na verdade, eles nunca lançaram um disco. Muito antes das bolachas serem prensadas, eles eram sucessos com singles individuais. As mp3′s que eram distribuídas sem pudor por eles mesmo na Internet.

Ponto para a banda. Graças a isso, a música volta a ser pensada numa lógica que não funcionava mais desde 1997. Analisado no todo de suas 13 faixas e 40 minutos, o Arctic Monkeys pode ser apenas um resumo desse rock pós-2001, com um pouco de cada banda, em uma embalagem regular. Mas se visto single a single, recorte a recorte, situação a situação para cada música, eles seriam quase hitmakers. Prova do sucesso que foi o “I Bet You Look Good…”, segunda do disco, mas que hoje já é um pecado ser tocada em festas.
No faixa a faixa, o Arctic Monkeys ganha mais pontos. Esse cara que está cantando, Alex Turner, tem uma voz muito interessante. Ele estica os agudos com quem realmente se diverte e encurta nos graves como um inglês caricato de uma comédia adolescente. Já viu Trainspotting? É mais ou menos aquilo, com os agudos sendo as cenas dos picos e os graves os momentos de pretensa sobriedade no pub. É isso, com alguns dos nomes mais legais que podiam ser bolados para as canções.
“Eu aposto que você fica bem na pista de dança”, “Talvez você não visse por causa das luzes, mas você…”, “Luzes vermelhas indicam que as portas estão seguras”, “Talvez vampiros seja um pouco forte mas…” são as traduções mais legais. Depois da terceira audição, até o ouvido mais preguiçoso percebe que muitos riffs se repetem nas músicas. O que conta mais aqui é realmente a letra. E elas são puras conversa fiada sobre cotidiano adolescente. Tudo contado de uma maneira bem divertida.

Pecado a parte, “I Bet You Look Good on The Dance Floor” é realmente a preciosidade do disco. Divertida em excesso, dá para repetir sem dó e bolar uma experiência diferente para cada bebida que acompanhar, cada vez que ela é tocada. Ela é a segunda faixa. Antes dela, e a seguir, tudo continua num tom de “mais ou menos”. Algumas faixas, como “Fake Tales of San Francisco” e “Mardy Bum” (faixas 3 e 9) parecem saídas de uma trilha de comédia com Eddie Murphy e Jackie Chan. Respectivamente as cenas de graça e melancolia desengonçada.
É uma das curiosidades desse disco. As músicas com nomes longos e engraçados são, também, as mais divertidas. Mas todas com um grande potencial para passarem despercebidas. Se o disco tem um segundo hit, ele se chama “When the Sun Goes Down”. Música irregular, que fica no ora lento, ora rápido (logo, as chances de você esbarrar com ela numa festa é bem curta), mas que tem um dos riffs mais dançantes de todo o CD. Adiante a faixa até os 0:50 e deixe tocar até 1:15 e você vai saber do que estou falando. Mas ele também só aparece duas vezes.
Dizer que o disco de estréia do Arctic Monkeys é muito barulho por nada seria exagero. O que ele tem de ruim, na verdade, é a mídia sufocante feita pelas revistas que não querem perder aquele ritmo de um hype por ano. Por isso, e só por isso, os próprios Monkeys correm o risco de não durar muito, já que tiveram esse estranho lançamento, dividido entre fim de 2005 e começo de 2006. Em tempos de Internet, a vida-útil da banda está mais curta. Para quem nasceu na rede então, isso pode significar ainda mais tempo.
Arctic Monkeys – Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not
Gravadora: Trama
Preço médio: R$ 30
Para comprar: Submarino
Escute aqui:
I Bet You Look Good on The Dance Floor
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When The Sun Goes Down
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Podem até dizer que, num sentido pejorativo, o Belle & Sebastian é uma banda fofa, mas é fato que ela nunca teve uma atmosfera muito feliz. Por trás da cara de bons moços dos ingleses e do encanto que é a voz Sarah Martin, sempre estiveram espaços para as sentenças diretas “já fui feliz um dia”, “era uma garota abusada”, “a garota errada” e tantos outros pessimimos. Eles estão mudando isso. “The Life Pursuit”, sexto da banda (sétimo para os fãs mais obsessivos, que contam também com uma trilha sonora feita pela banda), deve ser o disco mais otimista deles.
Lançado nos Estados Unidos em janeiro, o disco chegou só agora no Brasil via gravadora Trama. É um atraso bem saudável. Dois veículos de grande circulação chegaram a mudar de opinião sobre ele, atropelados pela pressa de noticiar logo o lançamento. Um dos motivos é que o Belle e Sebastian está no filão das bandas que podem se permitir serem pirateados à vontade. Seus fãs formam quase um culto religiosos e, cedo ou tarde, vão acabar comprando o disco. Todo cuidado é pouco ao opinar para um público fervoroso.
Ouvindo sem pressa, “The Life Pursuit” é um disco com vários motivos para ser muito bom. Os motivos estão todos escondidos após a primeira faixa, “Act of the Apostle”. É a prova de fé . Quem passa por ela, encontra uma melodia viciante, alegre e que pode ser identificado como sendo o Belle & Sebastian até de ouvidos tapados. “Another Sunny Day” é o começo desse novo otimismo da banda. “Você passou direto do meu olhar / eu me pergunto porque / mas nem reclamo / por favor faz isso de novo”, cantado num agudo apaixonado.
Se você for fisgado pelos versos, todo o restante do disco é de uma alegria enorme. “The White Collar Boy” e “The Blues are Still Blues” são para trilhas da melhor seção de amigos em casa, jogando pura conversa fiada fora. Esta última vem ainda com um dos melhores refrões do pop inglês do semestre, que diz “deixei minha roupa suja na lavanderia / você pode deixar um pouco de dinheiro lá / fazer uma pequena aposta”.
“The Life Pursuit” é pontuado por momentos que lembram o Belle & Sebastian dos discos anteriores. Não parecem estar lá para acalmar antigos fãs, mas sim para marcar um momento de transição da banda. O disco não é a reinvenção do septeto ingês, é apenas a necessidade de cantar acordes mais altos, com um leve clima de redenção “em busca da vida” (tradução do nome do disco). A sonoridade deles ainda é aquela mesma datada, cheia de referências folk e estética dos ano 60.
Belle & Sebastian – The Life Pursuit
Gravadora: Trama
Preço: R$ 32,90 [compre aqui]
Escute: The Blues are Still Blues
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Escutar o disco do Barfly traz à memória uma lembrança engraçada e pré-conceituosa. Daqueles dias pouco distantes, onde o bilheteiro do cinema recomendava “tem certeza? o filme é nacional”, quando muitas vezes o filme na verdade era muito bom. Depois de exatos 1m15, quanda passa o refrão de “Daylight”, a primeira música, o encarte volta à mão com a pergunta “isso é nacional mesmo?”. É sim. A postura natural do grande mercado de discos é de que artistas brasileiros cantando em inglês não funcionam. Se fosse verdade, o Barfly seria então a exceção que faz a regra.
A única coisa no Barfly que não é exceção é o selo da Monstro Discos no verso do disco. A gravadora de Goiâna, e as bandas dessas cidades, são as que tem de mais legal aparecendo no rock independente do Brasil. No resto, “The Longest Turn” consegue mesmo correr na lateral de muita coisa feita no país. Primeiro por fazer um disco de puro rock inglês com cheiro de anos 80 com muita qualidade, sem deixar se afetar por sotaques, expressões ou até mesmo moda, como fizeram os badalados paulistas do Wry.
O disco tem 12 músicas, todas carregadas de uma melancolia que contrapõe a energia de uma guitar-band (são três guitarras no grupo). É a estréia dessa banda goiana, que começou oficialmente em 2003 já com um EP de sete faixas bem elogiado em zines na Internet. Apesar das referências aos anos 80 (e muito também do que estorou no começo dos anos 90, como o Sonic Youth), não é um banda amargurada. A harmonia melancólica é só clima, quase de pretexto, para letras que falam sobre muito do cotidiano.
Cláudio Ribeiro, voz e guitarra, é uma das melhores surpresas do Barfly. Um letrista de primeira linha, que fala bem sobre aqueles amores que fazem a gente se sentir mal. Parece ser o dono da voz certa para cantar o que escreve, começando sempre em graves e esticando agudos nos refrões de uma maneira que vicia o ouvido. Mesmo com seus pontos baixos, o disco é daquelas que dá vontade de acreditar no rock independente.
Barfly – The Longest Turn
Gravadora: Monstro Discos
Preço: R$ 15 [compre aqui]
Escute: Daylight
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