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A vontade dele é te matar

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Esse ai na foto é João Carlos Muller e, se você é uma dessas pessoas que troca músicas na Internet, ele quer te matar. Muller também é consultor jurídico da Associação Brasileira Produtora de Discos e, semana passada, ele foi entrevistado pelo jornal O Globo. Foi mais ou menos assim:

O GLOBO: Como convencer a pessoa que pode pegar de graça a pagar pelo arquivo?
- MULLER: É cultural. Isso é um problema de pedagogo, que eu não sou. Minha vontade é de sair matando todos (risos).

Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.

Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:

“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”

Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela. Quem quiser se divertir mais, a integra da entrevista está aqui. A foto do post também vem de lá e foi tirada por Elis Monteiro.

Desabafos do mestrado – II

Acho que muita coisa já está bem resolvida agora, 10 anos depois de todo o tremor causado pela troca de música na Internet. Circulação é algo que já entendemos bem como funciona, produção é algo que praticamente não mudou (afinal, continuam fazendo música praticamente do mesmo jeito que faziam antes de estarmos conectados). De todos os buracos, o mais fundo ainda é o do consumo. E é isso que me faz quebrar mais a cabeça: afinal de contas, como consumimos música?

No açucarado mundo dos anos 80 e 90, o processo de ter uma música era muito simples. Você ia até uma loja e comprava o disco. Ponto final. As rádios tocavam os singles que você podia gravar em fitas K7, mas dificilmente teria um álbum completo. Quase sempre teria aquela música recheada de vinhetas da rádio no começo, meio e fim. Isso facilitava muito também a forma de pensar dos músicos e gravadoras. Como ganho dinheiro? Vendendo o disco. Como eu fico rico? Vendendo muito disco.

Isso funcionou durante muito tempo, para muitas pessoas. As principais fases da MPB: Bossa Nova, Jovem Guarda, Sertanejo e Axé, todos tem seus representantes que não tem dúvidas de como ficaram milionários: vendendo um monte de discos. Gosto de pensar nisso como uma fileira de formiguinhas, fazendo sempre o mesmo caminho em direção ao grande floco de açúcar, para então seguir em frente rumo a sabe-se-deus-onde. O que a Internet fez foi jogar um copo inteiro de água no meio desse caminho, molhando todo o açúcar no processo. Agora as formigas estão desesperadas, espalhadas por todo canto, se afogando, tentando lembrar o que era mesmo que estavam fazendo.

A Internet diluiu o valor agregado do disco. Antes existia a noção de que você precisava daquele suporte para ouvir música. Hoje, isso não existe mais. Você pega direto de um site e através de programas de trocas de arquivos. Encontra raridades que saíram de circulação a álbuns que só serão lançados daqui a um semestre. O fetiche de ter um pedaço físico daquele artista em sua prateleira morreu totalmente. De repente, você entra numa loja de discos e vem um estalo. “Caramba, isso custa R$ 30!” e lembra de todas as outras coisas que pode fazer com esse dinheiro.

Agora vem o momento de terror. O que se pode observar, é que as principais gravadoras estão apostando as fichas todas de que o CD continua. Seja com menos música (como o CD Zero da Sony/BMG), com apenas parte da mídia usada (como o SMD), seja com conteúdo agregado (como o Dual Disc, que a Deckdisc popularizou, trazendo CD e DVD numa só mídia). O número de lançamentos diminuiu drasticamente (a Trama não lançou um disco sequer em 2007). Mas as pessoas continuaram não comprando.

Paralelamente, músicos e bandas começam a perceber que estão todos perdidos e passam a sair das gravadoras. O choque maior vem com Chico Buarque e Maria Bethânia, que saíram do conforto de uma “major” para ser tratado como independente. Alguns trabalham até por conta própria. O excesso é cortado e um outro monte de artistas vai para a rua.

Então que finalmente as gravadoras (as brasileiras, porque as americanas já estavam fazendo isso a tempo) começam a concordar em vender músicas neste novo formato. E fazem isso com o uso do DRM, um dispositivo que não permite você compartilhar aquele arquivo mais de duas vezes (mesmo que seja com você). Isso, por si só, já foi suficiente para ajudar o processo a não dar certo. Mas a música protegida por DRM não funciona diretamente com os iPods, precisando ser convertidas antes. E volta o desespero: lentamente, uma a uma, elas vão desistindo da proteção. Enquanto fazia esse texto, chegava a notícia via o rss do Trabalho Sujo de que a última resistente, a Sony, decidiu abrir mão do DRM.

O que não resolve todos os problemas. Para testar, entro agora no iMusica, primeira plataforma de venda de músicas digitais no Brasil. O álbum mais vendidos, segundo o rankinig, é o do Mamonas Assassinas (lembro quando tive uma loja de discos com minha família que todas as copias desse disco acabaram no mesmo dia. Um foi meu.). Cada faixa sai por R$ 2,50. O álbum completo, com um desconto camarada, por R$ 34,86 (economia de R$ 0,14). Caro, muito caro. Tão caro quanto a loja Uol Megastore vende, por exemplo, o “Confessions Tour” da Madonna. Mesmo preço do CD normal, só que você não leva encarte, caixa, ou mesmo o disco como suporte. Três custos que deveriam contar a menos. Ah, por sinal, ambas lojas ainda trabalham com DRM.

Em poucas palavras: as gravadoras não estão pensando em uma nova maneira de consumir música, mas sim como fazer você continuar comprando CDs. Qualquer esperança de que a solução virá desse lado da história encerra aqui. No outro extremo, aqueles artistas que saíram das corporações começam a atirar também para todos os lados na esperança de serem ouvidos. Alguns, como o Pato Fu, conseguem fazer que suas músicas sejam vendidas online pelo preço de R$ 0,30 a faixa, algo próximo do ideal (na minha opinião seria: R$ 0,50, o preço que a TramaVirtual dá por download remunerado).

Talvez a história mais clássica seja do pague-quanto-vale do Radiohead. A banda inglesa disponibilizou o disco inteiro no próprio site e cada um fazia o download pagando quanto quisesse… até mesmo nada. Não chega a ser um formato e, quem copiar, tem grande chance de se dar mal. Foi o que aconteceu com o Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que achou que ficaria rico fazendo a mesma coisa e no fim das contas, se deu mal. Somente 18% das pessoas que baixaram toparam pagar US$ 5 pelo disco do rapper Saul William (quem?).

A única certeza é que a música está se tornando cada vez mais uma comodidade. Eu arriscaria que 98% dos artistas em atividade está mais concentrado em fazer shows que fazer discos. O que não é necessariamente uma solução. O valor do ingresso para o show do Radiohead subiu para um preço que o americano médio não pode mais pagar e isso gerou protestos. O plano da banda de compensar a grana do CD lucrando em shows tem dado errado até na Inglaterra, cidade natal deles. Com isso o vocalista Thom Yorke declarou que o futuro da banda não será mais tão online assim.

O mais complicado é que nenhuma dessas tentativas, de nenhuma das partes, aponta para alguma provável solução. A Internet expôs que o individuo é muito mais relevante que a massa. Perguntar a 20 pessoas como elas consomem música geraria 20 respostas diferentes. E se fossem 20 mil, provavelmente seriam 20 mil respostas diferentes. Mas eu preciso encontrar uma única dica, por menor que seja, sem futurologia, do que pode acontecer daqui pra frente.

Desabafos do mestrado – I

riaa.jpgUm dos principais motivos para o Pop up ter tantas fases de desatualização é que, além de duas jornadas de trabalho, eu estou a um mês de terminar minha dissertação de mestrado. Queria fazer uma pausa aqui e pensar um pouco sobre tudo que aconteceu nos últimos dois anos, quando comecei essa história.

Pesquisar a indústria fonográfica é um troço complicado. Quando eu comecei, a Sony e a BMG ainda eram empresas diferentes; o DRM era um tipo de lei estabelecida e questionável apenas por anarquia; as gravadoras ainda lançavam artistas massivamente (Maria Rita, Los Hermanos); e os festivais ainda não eram organizados em nenhum tipo de associação. Bandas como o Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, que interessam ao foco do que eu ia pesquisar, eram facilmente acessíveis ao clique do MSN.

Observar diariamente, clipando algumas matérias, participando de tantos debates e palestras, estudando e entrevistando pessoas, só ajuda a perceber como as transformações são realmente rápidas. Em 2005 falar em download remunerado era papo de louco e dizer que uma banda como o Radiohead daria o próximo disco para que cada um pagasse quanto quisesse seria uma piada sem graça. O mais espantoso, após a intimidade criada com os grandes jogadores do processo, é dimensionar o quanto ainda está em transformação.

Estamos vivendo uma desesperada queima de estoque. Encontrei bandas que distribuíram mais de mil cópias do disco na rua; acharam que seria legal vender tudo num pendrive ou encartado numa revista. Para os próximos meses, vamos ver carros sendo vendidos com músicas de Ivete Sangalo, MP3 Players com todo o cast de uma gravadora e essas esquisitas empresas migrando desesperadamente para o negócio de vender shows e não CDs. A música vai se transformando lentamente num serviço.

Foi engraçado perceber que o jornalista, por estar atento a todas essas transformações, entrevistados os vários lados do processo, se transformar num novo tipo de atravessador de informação. Nos últimos dois anos, as palestras e debates tiveram cada vez menos produtores e músicos, que deram lugar a cada vez mais jornalistas. Enquanto os últimos foram assumindo um novo papel (o de pensar no que está acontecendo), novos mediadores surgiram para ocupar o lugar dos jornais: o próprio público consumidor.

rainbows.jpg

O novo conteúdo não vem no formato tradicional de textos quilométricos e pontuados por aspas de entrevistas. O público agora digitaliza seu acervo em vinil e disponibiliza em sites (que quase sempre usam a plataforma de blogs), classifica incansavelmente as músicas no LastFM – para que você consiga encontrar através de um clique todo o acervo existente de Inteligent Dance Music (IDM, um gênero que jamais seria cooptado pela mídia tradicional). Os fãs disponibilizam vídeos amadores de shows pelo YouTube, o setlist completo de uma apresentação no Orkut.

Existem dois grandes movimentos acontecendo neste momento na Internet: no primeiro, uma parcela de produtores, músicos, jornalistas e público está descarregando todo o acervo existente na plataforma digital. No segundo, pessoas desses mesmos grupos estão fazendo a triagem (blogs de música que passam o pente fino em outros blogs de música, twitters selecionando os melhores posts de outros sites e por ai vai).

Os primeiros resultados disso já podem ser percebidos com facilidade: o mercado de massa está migrando para o modelo de nichos; as rádios estão sendo substituídas pelos festivais independentes e agora nós precisamos sair de casa para conhecer a nova música (sim, você pode apenas baixar, mas como saber quais daquelas estão realmente fazendo a diferença?); e a ‘nova mídia’ agora luta para sobreviver a um mar de leitores RSS, deixando de ser apenas mais um conteúdo agregado.

E eu só preciso organizar tudo isso de maneira que faça sentido. Em algumas 40 páginas a mais.