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A cultura da troca – Parte dois

buster

Boa parte das indústrias de consumo de cultura tem suas lógicas de produção com base na cópia. Você precisa ter várias copias de um disco para que o artista seja ouvido, ou várias cópias de um filme para que ele se torne um sucesso. É uma lógica inversa do que acontece, por exemplo, nas artes plásticas onde pode existir apenas um modelo original da obra. E as pessoas vão viajar até aquele gigantesco local de contemplação para vê-la. É inverso, mas não tanto quanto parece. Com pouco tempo filmes de distribuição limitada e discos que só tiveram uma primeira tiragem também se transformaram em objetos cultuado.

Quando a troca de arquivos em redes P2P se popularizou, logo após o surgimento do Napster, outra grande revolução atingiu a indústria do disco de uma forma que ela jamais podia prever. Não é que o acesso a certas obras tenha ficado mais fácil, mas também a cópia – aquele fundamento básico que antes era necessário para que existissem – ficou ilimitada. Antes você só podia gravar tantas vezes um determinado disco quanto você tivesse fitas K7 que você tivesse uma forma de entregar pessoalmente. O que nunca foi muito. Mas não existe limite mensurável para quantas vezes – e quantas pessoas – você pode copiar digitalmente uma música.

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A vontade dele é te matar

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Esse ai na foto é João Carlos Muller e, se você é uma dessas pessoas que troca músicas na Internet, ele quer te matar. Muller também é consultor jurídico da Associação Brasileira Produtora de Discos e, semana passada, ele foi entrevistado pelo jornal O Globo. Foi mais ou menos assim:

O GLOBO: Como convencer a pessoa que pode pegar de graça a pagar pelo arquivo?
- MULLER: É cultural. Isso é um problema de pedagogo, que eu não sou. Minha vontade é de sair matando todos (risos).

Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.

Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:

“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”

Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela. Quem quiser se divertir mais, a integra da entrevista está aqui. A foto do post também vem de lá e foi tirada por Elis Monteiro.