Tagged: inglês

Morrisey – Live at Earls Court

Já fazem 18 anos que o The Smiths acabou, mesmo tempo que o vocalista e líder Morrissey tem de carreira solo. Números que, mesmo somados, não deixam sua música datada. Um dos últimos representantes vivos e atuantes de uma época onde a afetação e envolvimento eram necessárias para uma boa canção, ele lança seu segundo disco ao vivo, “Live at Earls Court”, que chega no Brasil pela Sony/BMG.

Não é o mesmo show do DVD “Who put the M in Manchester”, que foi lançado há poucos meses. Apesar da apresentação fazer parte da mesma turnê, o disco chega com um repertório diferente. Abre com “How Soon is Now”, do The Smiths e mostra vários momentos da carreira de Morrissey, incluindo algumas versões raras.

Além dos instrumentos da banda, aparecem no CD o grito conjunto de 17.183 pessoas, número de presentes no show. E eles estão lá o tempo todo, gritando quase em desespero no começo de faixas como “Bigmouth Strikes Again”. Nesta, por sinal, Morrissey muda a letra mais uma vez. Ele aproveita a versão que o Placebo fez, trocando a palavra “Mega Drive” por “Discman”. Mas como a vida da tecnologia é mais curta, ele brinca “e agora eu sei como Joana D’arc se sentiu quando seu iPod começou a derreter”.

A maior falta do DVD é, provavelmente, a versão de “My Way”, de Frank Sinatra, que ele fez em vários palcos da turnê. Ele encerra com uma música da antiga banda, “Last Night I Dream’t that Somebody Loved Me”, num clima de fim de festa arrasada, com uma boa porção de gente já perto do choro.

Publicado originalmente em 06.07.05

Oasis: Don’t Believe the Truth

Acredite. É a primeira mensagem que se tem contato com o aguardado sexto disco do grupo inglês Oasis, “Don’t Believe the Truth”, impresso já na bolacha do CD. Palavra que soa um tanto distante da realidade do disco, que é até bom como falam, mas que cai no mesmo discurso repetido de “volta as origens” que se ouve desde as duas gravações anteriores.

Não existe esse ponto de retorno da banda, que na verdade nunca demonstrou tanta variação como se vende. O Oasis é fácil de reconhecer em qualquer música, e não é diferente em “Turn up the Sun”, que começa os trabalhos do novo disco com uma clássica contagem “1, 2.. 1, 2, 3, 4”. É rock britanico no sentido mais literal. Lembra Beatles e até o novo alvo favorito dos irmãos Gallagher, o Coldplay.

O toque exclusivo deles fica na condução quase orquestrada das músicas. Nenhuma presença é desnecessária, não se encontra a disputa comum entre irmãos. A tregua, positiva, encontra ápice em “Lyla”, melodia que faz o CD valer a pena. O ponto alto é mesmo “The Importance of Being Idle”, balada que mistura violão e distorção de forma agradável.

É nessa música que também aparece o texto central de “Don’t Believe…”. A introspecção é forte em letras que falam, mais de uma vez, em alma. Frases como “vendi minha alma pela segunda vez”, “o significado da alma” e “não consigo encontrar uma alma nessa cidade”, mostram uma quase obseção pelo tema. Elas só deixam de aparecer explicitamente para dar espaço para questões de religiosidade.

Se o Oasis pretende continuar no plano de se mostrar a única banda de rock da atualidade, o sexto disco ainda não é sua arma final. A parte da vontade quase ditadora dos fãs do grupo, “Don’t Believe the Truth” não deve fazer o mesmo barulho que “Definately Maybe” e “Be Here Now”, discos antigos ainda donos das músicas usada para lembrar o desavisado de quem estamos falando.

Publicado originalmente em 20.06.05

The Veils: Runaway Found

Não é justo que “Runaway Found”, novo disco do The Veils, lançado em 2004 e que só chega agora no Brasil pela Trama, dure tão pouco tempo. São pouco mais que 40 minutos de duração, nas 12 faixas de uma das melhores descobertas musicais dessa primeira década do novo milênio. Uma mistura de tudo que já foi feito de melhor na linha Suede, Smiths e Placebo, com uma identidade impagável, na voz de Finn, um inglês que desde os 19 anos (hoje tem 23) vem transformando as poesias que escrevia em música.

Do melancólico ao “levemente agitado”, as músicas conseguem ter uma carga triste sem se apoiar em letras pesadas, dessas que falam de suicídio, morte ou dores de cotovelo. Tem amor sim, mas desses que a proximidade machuca e, ainda assim, são difíceis de se livrar. Como em “The Leavers Dance”, onde ele fala que “não é nosso desejo, mas fomos feitos para cair juntos”. As faixas foram todas produzidas por Bernard Butler, ex-Suede, que não conseguiu deixar um toque de sua banda de fora.

Dois pontos opostos no disco, “Lavinia”, música para se ouvir de olhos fechados, se preparando para conter a energia que ele descarrega já no último minuto, e “The Tide That Left and Never Came Back”, mostram a pluralidade que a banda tem ao mostrar suas mensagens. A segunda, sempre agitada, é hit certo para qualquer DJ que se preze, junto com “More Heat Than Light”, ambas de vida útil longa. Podem tocar por uns dois anos nas festas que não deve ficar datado.

O melhor de “Runaway Found” é que as músicas conseguem fazer parte de toda essa atmosfera sem cair no comum de ser chamado de “fofo” ou adjetivos similares. The Veils é uma banda séria, uma versão bem madura do que o Coldplay vem tentando emplacar nos últimos discos. Este primeiro lançamento, chega no Brasil pela Trama, que fechou contrato com a Rough Trade (selo que lançou The Libertines), com preço pouco distante da realidade, R$ 29,00.

New Order: Waiting for The Sirens Call

Uma curiosidade em se falar do novo disco do New Order é que a associação da banda com os anos 80 é tanta, que parece que eles estão realmente a 20 anos sem gravar nada depois de sucessos como “Bizarre Love Triangle”. Longe da verdade, o grupo inglês é o único sobrevivente daquela safra que tem boa parte da discografia lançada na década de 90. Por isso, “espanto” está longe de ser o melhor adjetivo para associar a enorme qualidade do novo “Waiting for the Siren’s Call”, que só chega agora no Brasil com o atraso de praxe.

O disco abre com “Who’s Joe”, quase uma sequência do que se ouvia no disco anterior “Get Ready”. Nas dez faixas que seguem, mostram uma evolução bem clara no trabalho das músicas, que conseguem manter o mesmo clima da década de 80 sem soar saudosista. Boa parte disso se dá aos esforços de Phil Cunningham, novo tecladista que faz sua estréia no disco. Seu instrumento é não menos que fundamental numa banda como o New Order, e é ele mesmo que coloca um pé moderno no som.

Para os fãs, basta dizer que este é o melhor trabalho do grupo desde Republic, albúm de 93 que foi responsável pela maior estouro da banda. Para quem não conhece, cabe explicar então que “…Siren’s Call” mostra a evolução que bandas mais jovens, como o Strokes, White Stripes e Libertines, devem se apoiar. Façanha exclusiva do New Order, que com 24 anos de estrada, consegue continuar ditanto regra tanto para o velho, quanto para o novo.

Publicado originalmente em 10.05.05