Tagged: Instrumental

Indiada Magneto

 indiada.jpg

Cheguei em Natal para o Warm Up do Festival DoSol um dia antes das palestras, ainda de tarde. Agradeço a presteza do Itaú Cultural em não me mandar na correria para o evento. Aproveitei o finzinho de noite livre – porque, claro, não dá pra fugir do trabalho mesmo em viagem – após um rápido sanduiche com Foca, do DoSol, para ouvir as bandas que iam tocar no dia seguinte na Casa da Ribeira. É sempre muito bom encontrar coisas boas pelo acaso.

Indiada Magneto é uma banda de Belo Horizonte. Os caras são foda. Tipo um Ratatat à Brazuca, com guitarra, baixo e bateria por cima de programações. Daniel Saavedra é desses guitarristas que destroem ao vivo. Totalmente instrumental, que te deixa babando antes de terminar a primeira música. O melhor é que soa como algo que ainda pode melhorar bastante, principalmente quando chegar num ponto que as programações também sejam executadas ao vivo. Catei do MySpace deles a Mamacachorra, minha favorita:

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Pata de Elefante

Música instrumental sempre costuma passar uma falsa impressão de que ela precisa ser complicada, mais elaborada e de difícil recepção. A banda gaúcha Pata de Elefante pensa o contrário. Com um excelente novo disco recém lançado, eles fazem a mais pura e simples formula do pop, só que sem vocais. Canções que se constroem em repetição constante, com referências sonora que não remetem a outros grupos instrumentais, mas sim a grandes nomes da música pop, como Bob Dylan, The Who e Beatles.

A banda tem três integrantes. Gustavo Telles na bateria e Daniel Mossmann e Gabriel Guedes se revezando entre guitarra e baixo, no melhor estilo Tortoise (grande nome instrumental de Chicago). Os três compõem as músicas do grupo, “música pra tocas as pessoas”, segundo Telles. As primeiras faixas deste novo trabalho deles já pode ser encontrado para download na Internet, tanto no site oficial www.patadeelefante.com, quanto nas paginas que a banda mantêm no MySpace e Trama Virtual.

Debates
Até o fim do ano, o país não tem mais festival independente no calendário. Mas Salvador recebe o Fórum de Música, Mercado e Tecnologia. Passam por lá os jornalistas Alexandre Matias, Alex Antunes e o produtor do Goiânia Noise Fabrício Nobre, entre outros nomes. Quem for do Recife e quiser conferir, a melhor opção é enbarcar em quase 12 horas de estrada entre as cidades, numa viagem de ônibus que sai metade do valor de avião.

Agenda
Silvério Pessoa volta ao Teatro Santa Isabel para celebrar o sucesso do seu DVD “Cabeça Elétrica, Coração Acústico”. O show será dia 1 de dezembro. Ingressos promocionais estão sendo vendidos pelo preço único de R$ 20 nas lojas Tribos. Quem for ao teatro, desembolsa R$ 30 na inteira e R$ 15 com carteira de estudante

Hamilton de Holanda – Contínua Amizade

hamis.jpg

Parece ser uma benção enorme para a música brasileira que Hamilton de Holanda tenha uma coceira incontrolável na mão e, por isso, não pára nunca de tocar seu bandolim. Depois de mostrar a música que o distrai na estrada, no repertório do disco “Íntimo”, em que tocava Chico Buarque e Dorival Caymmi, ele lança agora “Contínua Amizade” (Deckdisc). O título revela sua relação com o pianista André‚ Mehmari, anunciando que ambos estão juntos, criando diálogos entre as obras de Egberto Gismonti e Pixinguinha.

E se é para falar em benção, que seja dado crédito também a mania de exagero natural a Mehmari, que sempre grava duetos com o fino da nova MPB. Passear entre as faixas remete a memória a outra parceria do pianista e como a voz de Na Ozetti cairia como luva entre essas novas faixas instrumentais. Sem ela, a impressão que fica é que esta é uma das melhores fases do momento instrumental da música brasileira. Hamilton e Mehmari aproveitam o crédito merecido com o ouvido do público para reconstruir um pouco da história musical do Brasil.

Essa intenção fica evidente em “Rosa”, música que abre o repertório do disco. É Pixiguinha em sua fase mais rica de referências. É a valsa, seresta e choro do começo do século 20 se reunindo nos primeiros acordes do que seria o samba. Ritmo que receberia mais tarde influências do jazz, navegando pelo país para criar o frevo, como nunca poderia prever Nelson Cavaquinho ao compor “Notícia”, segunda escolhida pela dupla. Aos poucos, a audição ganha noções de visão, quando o repertório se transforma em cartografia para a música popular brasileira.

Caminhos que levam o ouvinte direto a Cartola, com “Acontece” e Guinga, com “Di Menor”. E, depois, faz jus a atualizar o repertório com compositores atuais, caso de “Choro Negro”, de Paulinho da Viola. Entre tantos, que contam ainda com Egberto Gismonti e Andrea Morricone (essa com o tema do filme Cinema Paradiso), Hamilton de Holanda e André Mehmari inserem suas próprias músicas, encerrando assim um trabalho de continuidade. Não apenas da amizade, mas de avisar quem são os novos nomes desse repertório.

Produzido pela própria dupla e lançado em formato digipack, “Contínua Amizade” entra na lista do essencial para quem quer ter em casa um recorte bem selecionado da música popular brasileira. E pelo caráter quase educacional da escolha do repertório, funciona também como um mapa ao passado, mostrando os primeiros refinamentos que as primeiras composições populares receberam no começo do século passado. Quem escuta encontra direções, tanto para encontrar nossas raízes, como para vislumbrar o futuro da nossa musica.

Ahlev de Bossa

Duas coisas importantes que você vai perceber quando colocar o primeiro disco da Ahlev de Bossa no discman. O visor vai indicar apenas cinco músicas e, de tempo total, 51:50 minutos de duração. É difícil imaginar um resultado tão contraditório em disco. Músicas excessivamente longas, que nascem parte de um contexto excessivamente rápido. Rápido porque o nome, que não significa realmente nada, já era discutido em listas e entre interessados antes mesmo do primeiro show. Nos minutos seguintes que as primeiras músicas entraram na Internet.

Ahlev de Bossa, que também é o nome do primeiro disco (e da primeira música), nasceu da necessidade de cinco músicos locais de fazer experiências livres de formas. Coisa cada vez mais comum no Recife. São músicas instrumentais, que vão de sete a 20 minutos de duração cada. A composição parece nascer do acaso, sem as tradicionais intercalações entre um verso e refrão. A única interferência na música do Ahlev são sons externos. Gravações de televisão e rádio inseridos de fundo na forma de construções.

A diferença entre o Ahlev de Bossa e o que tem sido feito de música experimental no Recife aparece logo na primeira faixa. É o já citado desprendimento ao formato de estrofes da música. A composição da banda assume um sentido físico. Recortes que, somados, ganham os nomes de “Papo Cabeça”, “Señorita Amnesia” e “Ahlev de Bossa”. O “experimento” da banda é montar corpos de música sem muita textura, para depois colocar tudo na mesma embalagem.

O instrumental do Ahlev é progressivo. Livre de repetições. E é provavelmente o maior risco de todo o trabalho da banda. Dá para cortar os pulsos pelo menos sete vezes escutando a quinta faixa, que encerra o disco. O tipo de música que todo mundo tem tentado fugir nos, pelos menos, últimos 50 anos. É preciso paciência, boa vontade e três pensamentos felizes na memória para encarar uma seção completa do disco. O tipo de ritual que está virando tendência e fazendo o sucesso dos independentes Hurtmold, M. Takara, etc.

Parece que essa é mesmo a intenção dessa nova vertente experimental. Com um discurso de música pela pura intenção de criar música. Mas sempre embalado num CD que vai chegar de qualquer forma nas lojas do país. Se der certo, Ahlev de Bossa tem a vantagem de fazer isso com pouca pretensão. Potencial criativo e, pelos resultados de uma semana de lançamento, as ferramentas certas.

Publicado originalmente em 09.01.06