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Cobertura: Goiânia Noise 2007

GOIÂNIA – Numa primeira impressão rápida, passando a vista pelo longo e belo cenário do Centro Cultural Oscar Niemeyer, o festival Goiânia Noise, que encerrou este fim de semana sua 13ª edição, impressiona. Com o passar dos três dias de show, o queixo cai ainda mais. Numa localização distante da cidade, com uma das mais bem montadas estruturas já vistas num evento do porte, funciona como um modelo para todos os festivais independentes do país.

O modelo beira a perfeição: as bandas trabalham nos bastidores, como roadies, apresentadores e responsáveis por palcos. As atrações se misturam, sem existir dias por gêneros. Mundo Livre S/A toca antes do Sepultura; Cordel do Fogo Encantado se apresenta após o Korzus. Assim, o público também desenvolve níveis de interação que superam qualquer noção de “tribo”. Como se o rock fosse uma força homogênea que une todos que adoram essa música, não importando suas ramificações.

O horário de verão não funciona muito bem para Goiânia, uma cidade de arquitetura muito jovem, lembrando muito pouco de uma grande metrópole. Os shows começam as 18h e, até às 20h, as bandas tocam debaixo de um sol forte. A importância política do Noise se percebe pelos visitantes que o festival recebe. Figuras nacionais como o produtor Miranda (atualmente do programa de TV Ídolos), representantes de selos internacionais e produtores dos principais festivais de todo o país. Todos vindos a convite do evento.

A curadoria da programação surpreende. Não existe, entre as 41 bandas que tocaram lá, alguma que seja visivelmente ruim, equivocada ou sem proposta. Todos os shows são proveitosos. Mas o palco desmistifica alguns nomes, como a local Barfly, que tem um ótimo disco, mas uma apresentação que deixa muito a desejar; assim como a Valentina, que fez seu último show da carreira. O contrário da Black Drawing Chalks, que compensa um disco regular com uma das melhores apresentações da noite. Entre os mitos da casa, só crescem o das bandas Violins e a instrumental Pata de Elefante, com shows que arrancavam coros (para o Violins) e aplausos seguidos de sorrisos e fanatismo (para ambos).

O Goiânia Noise serve de plataforma para novas promessas no pop nacional do cenário independente. Além das citadas, juntam ao time dos bons os shows dos bem humorados mods paulistas do Haxinxins; também de São Paulo a Ecos Falsos e, do Rio Grande do Sul, a banda Superguidis. Já no time dos excelentes, os cariocas da Pelvs; o gaúcho Júpiter Maçã e a estreante The Name, essa com um pop oitentista cantado em inglês.

Sendo um evento tão importante, as atrações principais se reforçam como grandes jogadores no campo nacional da música independente. Consagração para as pernambucanas do Cordel do Fogo Encantado e Mundo Livre S/A, que sem tocar em rádio ou participar de qualquer programação de TV, conseguem reunir um público cada vez maior em qualquer extremo do país. O Goiânia Noise deu ainda a oportunidade do Brasil conferir em primeira mão uma das bandas mais comentadas do novo pop internacional, a americana Battles, que fez o melhor show dos três dias de evento.

Um paragrafo para o Battles. Mais uma banda que reforça como o formato pop do Brasil insiste em permanecer atrasados. Chovem bandas de guitarra-baixo-bateria. A experiência, quando existe, é em timbres, misturas de gêneros, mas nunca em novos sons. A banda americana reforça a importância de grupos menores, como os paulistas do Hurtmold e Guizado, de construir novas texturas e trazer novos sons para o universo da música pop. Com uma bateria na frente e várias mesas com computadores e samplers, desafiavam a experiência visual. O público atento procurava encontrar de onde saia cada novo som. E dessa troca, tinhamos um verdadeiro espetáculo.

Como atual centro dos festivais independentes do Brasil, o Goiânia Noise não encerra com sua programação. Os nomes que passaram pelos três dias de rock em um cada vez menos remoto Centro Oeste brasileiro já saem do palco com convite para integrar a programação de eventos em outros estados do país. E, cumprindo sua função, o festival independente põe para girar a nova música brasileira.

Totonho e os Cabra – Sabotador de Satélite

Totonho é duas vezes um típico MEB. Música Eletrônica e Música para Exportar Brasileira. Exemplo mais clássico da criatividade nordestina em reprocessar suas batidas regionais com os samplers eletrônicos que recebe freqüentemente uma porta na cara dos produtores locais. Até, claro, voltar cheio de referências, elogios e um disco lançado no sudeste do País. Junto com sua banda, “Os Cabra”, o paraibano volta a dar as caras no segundo CD, “Sabotador de Satélite”, o primeiro produzido pela Trama.

A descrição lembra muito do que aconteceu com Otto. Mas a música de Totonho não ficou tão eletrônica assim. Ainda. Com roupa prateada e cheio de colares, só para fazer tipo, Totonho é o tipo de figura que se encontra num bar e, depois de tanta história, não dá para saber se a bebida está batizada ou se você que já passou da conta. Sua poesia é assim. Uma prosódia de uma sociedade que vive num latifúndio do espaço sideral onde ninguém tem emprego e educação. Hoje está tudo bem, o amanhã é que anda mal.

As pequenas histórias desse cenário cheio de intertextualidade começa com “Jaspion do Pandeiro”, rapaz que anda por aí com um skate no pé e batuque na mão. Traz consigo um par de silicones para mamas juvenis. Segue sempre nesse clima engraçado, com um pé no inteligente, lembrando um pouco de longe letras da extinta Karnak. Aliás, comparações são o que não faltam em “Sabotador de Satélite”.

Totonho rima com a vontade de experimentar de Chico César, Cordel do Fogo Encantado e Otto. Como esses três, sua música se venda pela sinceridade que mostra nas faixas do CD. Diferente deles, suas histórias parecem ser conduzidas por uma constante melancolia mesmo nos efeitos e batidas eletrônicas. Mesmo quando soa bobo ao falar que “o peito da morena / quando aperta faz fom fom”. Chega num limite perto do final, em “Rita Leea de Itamaracá”, onde canta “já estou de partida para o meu apê lunar”.

Existe ainda o fator de timing, que garante a esse disco uma expectativa maior de chamar a atenção dos produtores. A fase de crítica negativa a supervalorização das misturas regional está bem perto do fim. “Sabotador de Satélite” chega num momento onde uma triagem mais responsável deve selecionar artistas de qualidade para representar essa parcela do mercado fonográfico. Para quem está atrás disso, o disco é um prato cheio.

Entrevista

“Vamos fazer uma parceria?”. A proposta veio do produtor musical da Trama, Carlos Eduardo Miranda, depois que Totonho mandou sua demo para nada menos que 20 gravadoras. Bem antes desse resultado, sua história começou em João Pessoa, onde participava de uma cooperativa de compositores. “Éramos 19 e, quando um fizesse show, todos os outros estariam a disposição deles para conseguir som, contato com imprensa, etc”, explica. Mas acabou indo para o Rio fazer mestrado. Encontrou uma ONG no meio de caminho e parou de fazer música.

Quando viu que um dos colegas da cooperativa estava fazendo sucesso, viu uma oportunidade para voltar. Era Chico César. “Comecei a produzir umas demos, achando que através dele conseguiria chegar numa gravadora”, lembra. Mas não é assim que a coisa funciona. Totonho acabou aprendendo que o artista, na verdade, costuma estar bem distante das decisões de uma grande empresa. “Mas acabei me encorajando e fundei esse aglomerado de gente, “os cabra” que tocam comigo”.

Foi quando começou o processo de procurar shows e mandar demos para gravadoras. “Engraçado que eu nunca toquei no Recife. Sempre mandei material para o Rec Beat e Abril pro Rock, mas nunca tive resposta”. Engraçado mesmo, já que seu disco de estréia, homônimo, é o tipo de som que os produtores locais procuram. Talvez numa embalagem menos jovem.

Totonho volta para o Nordeste no fim do ano, onde se apresenta na sua cidade natal em novembro. “Tradição é uma coisa que não anda sem ser mudada, transformada. Parece que só agora começam a dar atenção para isso no Nordeste”, reforça. Enquanto se prepara para a viagem, tenta “fazer uma ponte com os outros estados próximos”.

Publicado originalmente em 20.09.05

Fazendo justiça

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Sempre fui muito preocupado em falar alguma bobagem grande nessa coluna, mas confesso que não imaginei que demoraria tão pouco tempo. Foram as últimas linhas do texto anterior, onde cometi um erro de ordem genética ao dizer que Fabrício Neto, da Monstro, era filho de Miranda, da Trama. Agradeço a Guilherme, do RecifeRock, pela correção que me fez reler o texto todo e encontrar a verdadeira bobagem que quero comentar aqui.

Foi na última linha, lá no finzinho, onde me parece que fui bem pedante a dizer “se deu mal o garoto”, me referindo às bandas desclassificadas no Claro que é Rock. Ora, elas saíram da competição justamente porque estão em lojas ou em contato grande com o público consumidor e, obviamente, não estão longe de estar mal. Afinal, muita das finalistas estão ainda distantes de ter as conquistas que as bandas da Monstro, como a Bois de Gerião, já têm.

Publicar algo escrito é sempre complicado, porque o autor dificilmente está satisfeito com o trabalho final. Por isso, quando eu acabo, nem passo outra vista. Mando logo para quem cabe fazer o restante (corrigir os erros, retirar um ou outro trecho desnecessário, etc). E, nessa agonia de não reler, acabei esquecendo também de falar dos pontos positivos da entrevista com Fabrício, informações que até então não circularam nos jornais.

A Monstro criou um novo selo para distribuir bandas que não se enquadram com o perfil mais guitarras pesadas deles. Entre as escolhidas para o primeiro trabalho está, ninguém menos, que o pessoal do Parafusa. Uma união muito justa principalmente para a banda, que tem trabalho de ótima qualidade. Passeando pelos shows, o produtor também não deixou de se impressionar com a iniciativa e música dos Playboys e não tardou em pedir material deles, para uma audição mais tranqüila depois.

Vale lembrar que, nas mãos dele, está a programação de três eventos importantes: o Goiana Noise Fest, o Bananada e o Goiana Rock City. Essa aproximação deve significar portas abertas para o rock pernambucano em edições futuras. Encerro a retratação só me explicando que, não foi nenhuma repreensão (sequer imagino que o Fabrício saiba da existência dessa coluna). Não acredito que jornalistas, bandas e gravadoras estejam no mesmo barco. Mas acredito que jornalismo ainda pode ser bem feito, então não custa nada dar informação certa e sensata de vez em quando.

Aproveitando o gancho de bastidores, aproveito para comentar também o enorme lapso de timing que existe entre bandas e produtores. Uma comum que percebi ao conversar com organizações de eventos como o Abril pro Rock, Mada e o próprio Goiana Noise, é que as bandas sempre deixam para enviar material muito em cima do tempo. Achando que um evento de grande porte se faz da noite para o dia.

Para se ter uma idéia – e fica aí o toque para as bandas – segundo Paulo André, o Abril pro Rock fecha a programação perto do fim de dezembro. Isso significa mandar material pelo menos três meses antes e, nesse meio tempo, batalhar para conseguir aparecer no fim de semana da cidade. Porque, como já comentei antes, as escolhas ainda são muito engessadas no cotidiano da cidade. Lógico que, raras exceções como o Superoutro, mostra a iniciativa que a banda tem para conquistar espaço (no caso da citada, bancar a viagem para tocar lá fora).

MOLHANDO O BICO

Uma banda que eu aposto muito no quesito de iniciativa é o Carfax. Eles têm tanta certeza que o som deles é bom que fizeram um esforço fora do comum para comprar o próprio palco. É aquela história de estar no mesmo barco. Grupo nenhum está no mesmo das casas de show.

Depois de fazer uma temporada com Roger, o Carfax está procurando por outras bandas locais que, como eles, estejam motivados pela insatisfação e queiram tocar junto. O contato deles é fácil de encontrar na comunidade que a banda tem no Orkut.

Publicado originalmente em 09.05.05