Procuram-se produtores musicais
Já passou o tempo onde era preciso ter talento para uma banda ter sucesso. Hoje, uma passagem rápida na loja de instrumentos e uma semana de ensaios já garantem agenda de shows na cidade. Com pouco dinheiro no bolso e amigos certos, se consegue até palcos em outros estados com alguma facilidade. Mas o mercado ainda precisa fazer sua seleção e essa quantidade toda de bandas está “boiando”, sem ser aproveitada, por um motivo grave. Falta um personagem importante no cenário do Recife, o produtor musical.
Astronautas, Mundo Livre S/A e Cordel do Fogo Encantado são bandas de rock que definem “Pernambuco” hoje lá fora. A diferença delas para o Rádio de Outono e Volver é exatamente a falta desse produtor. Figura que pode ser melhor entendida se comparada com o diretor de um filme, explicação dada por Carlos Eduardo Miranda, da Trama. “Os músicos são os atores e roteiristas, o produtor é aquele cara que sabe amarrar tudo para fazer o filme dar certo”, parodia.
Responsável pelos ajustes em todas as músicas no disco “Samba Esquema Noise” do Mundo Livre, ele explica um pouco sobre seu trabalho. “Eu sempre procuro enriquecer a música, fazer ela ter algo de inusitado, mesmo que seja algo pop”, e não esconde que é rígido “nunca existe atrito, é sempre uma coisa positiva, mas tem vezes que a banda tem medo de experimentar quando eu digo que está na hora de mudar. Teve uma vez que já mandei a banda inteira do cara ir embora”, lembra.
É um trabalho de confiança mútua. A banda precisa ter consciência que o produtor tem sensibilidade e afinidade com a indústria fonográfica o suficiente para espremer tudo que a música pode oferecer de melhor. Muitas bandas, com medo de ter sua criatividade cortada, preferem se garantir nas tecnologias de mixagem e esquecem que o dedo do produtor é, na verdade, uma assinatura de qualidade e estilo.
No Recife, o trabalho do produtor ainda é ligado aos estúdios de gravação. A principal referência hoje é o Mr.Mouse, coordenado por Leo D e William P. “Geralmente o pessoal não procura o estúdio só para gravar, mas pela produção que a gente faz. Sempre opinamos no trabalho, entrando em consenso com a banda para fazer o melhor possível”, explica Leo. “Já aconteceu até de produzirmos bandas em outros estúdios, porque quando a banda agenda, vamos acompanhar os ensaios para conhecer o trabalho dela e trocar idéias”.
Foram eles os responsáveis pela gravação da banda Rádio de Outono, que será lançado em agosto. “Temos produtores para conseguir shows e contato com a imprensa, mas não um produtor artístico, por isso preferimos gravar o CD com ele”, comenta o baixista Kleber Crócia. Ele explica que a banda sente essa falta, e diz que está “se programando para isso, ele é uma ferramenta importante para a gravação do disco, mas por enquanto queremos fazer a música na paz”.
Fora do estúdio, as opções são ainda menores. O nome local que melhor traduz esse sentido de assinatura num disco é o do produtor Zé Guilherme, que não pôde ser contatado pela reportagem da Folha de Pernambuco porque, no momento, está acompanhando a turnê de uma artista local na Inglaterra. Apesar dessa ser, hoje, uma rotina comum no trabalho dele, as bandas do Recife só procuram o produtor na hora de fazer o disco, voltando logo em seguida para a independência. Atitude que pode ter custado essa passagem para Europa.
Publicado originalmente em 04.07.05