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Economia solidária da música

Quando um grupo de amigos decide montar uma banda, ensaiar, gravar um EP e, quem sabe, arriscar alguns shows, quase sempre não faz idéia de quanta gente está envolvida em todo esse processo. Do vendedor de instrumentos ao dono do estúdio, passando pelo produtor da casa de show e o próprio público, todos estão em uma mesma cadeia produtiva. E todos estão sempre com um mesmo problema em comum: a falta de dinheiro.

Ao perceber que tantas pessoas estavam conectadas, um grupo de bandas independentes do Cuiabá, em Mato Grosso, decidiu montar um sistema de cooperativa inspirado em modelos de economia solidária. “Hoje em dia até para ser egoísta você tem que pensar coletivamente”, brinca Pablo Capilé, a frente do Espaço Cubo. Formado em 2002, a idéia inicial deles era viabilizar um circuito onde os grupos podiam se apresentar ao longo do ano inteiro.

“Eu troquei um carro em um estúdio e passamos a convidar algumas bandas para ensaiar lá”, lembra Capilé de como foi o começo de tudo. Nesses encontros, ele começou a conversar sobre política pública com as bandas locais. “O que era uma secretaria municipal, o que é um conselho”, conta. De lá, eles montaram mais duas frentes. A Cubo Eventos, para organizar shows, e a Cubo Comunicação, para dialogar com a mídia.

Para viabilizar isso, eles criaram uma moeda própria, o Cubo Card. “As bandas se apresentam e recebem um número X de card para utilizar uma série de serviços”, explica Pablo Capilé. “Elas usam para ensaiar; alugar nossa casa de shows, fazer eventos e ficar com a bilheteria; pagam a segurança com card, alugam o som”, lista. Hoje, eles articularam ainda mais usos para a moeda. “Já tem plano de saúde com card, curso de inglês, alimentação em restaurante, compra de roupa e locação de dvd com card”.

Essa estrutura deu base para lançar duas das principais bandas do circuito independente hoje no país. Vanguart e Macaco Bong são presenças confirmadas na programação de qualquer festival, enquanto a primeira já começa a alçar vôos maiores ao assinar com a gigante Universal. “Aqui em Cuiabá, quando as bandas começam já passam a formar coletivos”, diz Pablo Capilé. “Cada integrante vai fazer parte de uma comissão, seja de eventos, sonorização e comunicação, para a banda aprender a se auto-gerir”.

A espinha dorsal dessa articulação é o Festival Calango, um dos principais do circuito independente do país. “Quando os eventos vão agregando um valor maior, você consegue trazer o investimento da iniciativa privada. Não em dinheiro, mas em produtos”, explica o produtor. “No festival, gastamos quase R$ 15 mil em alimentação no restaurante e, em contra partida, ele passa a fazer parte de nosso sistema financeiro”.

Pablo Capilé, que estará em Salvador, na próxima quinta-feira (13), durante o Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, para falar sobre cooperativismo na música, encerra explicando que “essas iniciativas fez surgirem mais bandas e, consequentemente, fez esse mercado girar. Com o tempo, as próprias empresas passaram a investir mais em produto e em espécie na cena de Cuiabá”, uma lógica de mercado que ele acredita ser ainda mais viável no Nordeste.

* Publicado originalmente no Caderno Dez! no jornal A Tarde

Nordeste Independente #5

AE! O Podcast não tinha acabado. Só demos uma pausa – enorme, de um mês – porque eu fiquei sem computador e resolvi comprar um novo que não sabia usar totalmente. Nesta edição, eu e o Luciano Matos, de Salvador, conversamos com o Pablo Capilé. Para quem nunca ouviu falar, ele é produtor de Cuiabá (MT) e comanda por lá o Festival Calango, que acontece próximo fim de semana. Além disso, é um dos cabeças do Espaço Cubo e do Circuito Fora do Eixo. Conversamos com ele no começo do mês, então dêem um desconto para alguns tópicos que acabaram ficando datados.

Capilé também é uma das figuras polêmicas da Associação Brasileira dos Festivais Independentes, principalmente por sua postura bastante política dentro do grupo. Conversamos sobre isso e ele teve ainda oportunidade de explicar como funciona o sistema cooperado de lá. De quebra, era inevitável uma geral na própria cena de Cuiabá. Abaixo tem o tracklist:

1 – Vanguart – Miss Universe
2 – Calistoga – Silence is Too Loud
3 – Beto Só – O tempo contra nós
4 – Volver – Não Sei Dançar
5 – Macaco Bong – Noise James
6 – Matiz – Não vá rir
7 – Chambaril – Desculpa aí
8 – Cérebro Eletrônico – Pareço Moderno

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E mais festival!

Só que não agora… os meses de junho e julho dão uma trégua, pelo menos nos maiores. O que é algo esquisito. Justo no mês de férias nas escolas e faculdades não tem um festival legal para ir. Em compensação, agosto reserva uma sequência inteira de fins-de-semanas. Começa com o Porão do Rock (DF), Calango (MT) e depois o Mada (RN). Todos os três já começaram a divulgar suas novidades. No primeiro, que até agora deve ser o único que eu não vou conseguir ver, terá a gringa Muse. E no último, já é oficial Mallu Magalhães (SP) e um monte de nomes locais. Incluindo a dobradinha, favorita aqui da casa, Barbiekill e Bandini. Ainda não divulgaram, mas também tocam lá Pato Fu e O Rappa.

Mas é o Calango que sai na frente das novidades. Já anunciaram Cascadura (BA), Cabruera (PB), Mamelo Sound System (SP) e Papier Tigre (FRA), El Mato A Un Policia Motorizado (ARG) e Supercordas (RJ). Segundo Pablo Capilé, ainda deve ter mais banda gringa na programação. E, para quem lê o Pop up!, ficam mais três exclusivas: Hurtmold (SP), Curumim (SP) e Pata de Elefante (RS). De fazer inveja e deixar com culpa quem perder algo assim.

O Calango começa com dois meses de antecedência. Já na próxima segunda-feira tem o Calango nas Escolas, que se conecta com vários outros eventos, seminários e feiras, encerrando nos três dias de shows. Já confirmaram cerca de 150 pessoas de todo o país em caravanas para participar dos debates. Menos do Nordeste. Se liga, que nesse caso a distância não justifica o vacilo. Só para instigar, vale ressaltar que vão ter muitos conferencistas de fora do país. E o festival reservou espeço de graça para quem tiver selo e quiser montar stand na área dos shows.

É uma oportunidade de ver funcionando na prática a idéia do Cubo Card. “O congresso Fora do Eixo vai ser viabilizado em cubo cards. A galera que vier receberá cards para utilizar em Cuiabá. Podem escolher hotel, comida, cds, camisetas, cerveja… vão utilizar conforme a conveniência de cada um”, diz Capilé. O festival também vai ser sede do segundo encontro anual da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin), que deve engordar a lista de membros agora no meio do ano.

Ah, e aproveitando o clima de notícia exclusiva, logo mais vou soltar a tal preciosidade que consegui em Goiânia durante o Bananada. Mas antes, se prepara, e saca essa música do Morricone no vídeo abaixo.

E por falar em podcast

O Itaú Cultural começou recentemente uma série de programas de rádio – podcasts, não fossem a dinâmica de assinar rss, etc – sobre música brasileira. Um deles, o Mapa, tem um foco grande nesse nosso cenário de música independente. Basta identificar alguns nomes na lista de apresentadores convidados, como Fabrício Nobre (que gravou o mais recente), Fernando Rosa, Pablo Capilé e Fernanda Takai.

Eles escolhem músicas para tocar ao longo da apresentação, que sempre tem uma média de 30 minutos. Mas o mais legal são eles falando sobre a experiência própria e o resultado positivo que as loucuras que eles andam fazendo tem conquistado. Só faltou um link para download dos programas.