Tagged: Pop

E o pop brasileiro?

Texto meu feito sob encomenda para o jornal O Povo, de Fortaleza, ainda sobre a morte de Michael Jackson.

O rei do pop está morto. Em listas de discussão na internet, fóruns e espaços especializados em música, um dos tópicos resultantes da notícia é quem será seu sucessor ao trono ou mesmo se haverá um. Tem quem acredite que essa monarquia já está encerrando, de forma decadente, esperando que mais uns três ou quatro nomes também partam dessa para a melhor. E, de fato, pensar esse universo pop global é um trabalho complicado. Mas fica pequeno quando é localizado na questão: e no Brasil? Quem seria nosso rei?

Continue reading

KT Tunstall – Drastic Fantastic

[rating:3]

Quando a cantora escocesa KT Tunstall (o nome vem da abreviação de Kate) fez sua estréia no badalado programa inglês “Later with Jools Holland” com canções folk, foi elevada quase que automáticamente a fenômeno cult. Mas quando o pop passa pelo caminho de alguém, não perdoa. Ela virou trilha do Ídolos norte-americano, o programa American Idol e do filme “O Diabo Veste Prada“. Aqui no Brasil, a mesma música, “Suddenly I See” também ficou conhecida como tema da personagem Giovana (Paola Oliveira) na novela Belíssima. Os impulsos foram suficientes para apontar “Drastic Fantastic“, segundo disco de estúdio, para uma direção totalmente diferente.

Essa escolha por ser mais pop já escancara na primeira faixa, “Little Favours“. As músicas de KT soam cada vez mais com a agora distante década de 90, como se apenas agora aquelas melodias confusas fizessem sentido. E ela manda seu recado cantando “Listen just a little bit harder for I always tell the truth” (Escute com um pouco mais de força porque eu sempre falo a verdade), na que é a melhor de todo o disco, “If Only“. A verdade pop da cantora lembra trilha sonora de filmes feitos para sessões de uma manhã de domingo. Daquelas que a música gruda na memória durante a semana seguinte.

Toda sua formação folk, no entanto, faz dessa caminhada um processo mais árduo. Ainda falta aquela pegada pop imediata que, agora, parecem ter atingido seus hits passados por sorte. As músicas de KT viciam, mas só depois da quinta ou sexta vez que ouvidos. “Hold On“, single escolhido para lançar o disco nas rádios, é a melhor prova disso. Precisa de tempo para funcionar, capricho que um artista raramente tem a seu favor no contexto conturbado que a carreira de Tunstall surgiu e, que para ser superado, vai precisar encontrar outro filme de sucesso no caminho.

tunstall.jpg

Algo que ela já deve ter se preocupado, já que a temática inteira do disco é quase sempre a mesma. KT Tunstall canta sobre o desencontro do casal, ora sob uma perspectiva otimista e, quase sempre, em tom triste. “Drastic Fantastic” acaba vencendo muito mais pelas melodias que as letras. No saldo final, das 11 músicas que embalam no CD, pelo menos 5 valem o repertório. E entre tantas dificuldades para se tornar pop, ficar abaixo da média parece ser a primeira conquista dela.

Terceira Edição – História sobre todos e sobre ninguém

terceira.jpg

Recife tem uma peculiaridade no que diz respeito à música pop. A cidade é tão dominada pelas bandas covers – as únicas que tem apresentação constante nas agendas de fim de semana – que o terreno é praticamente inexplorado com algum sucesso por grupos autorais. Uma grande lacuna que a banda Terceira Edição, que lança o segundo disco, percebeu e pretende preencher. Ouvindo os primeiros minutos de “História sobre todos e sobre ninguém“, fica fácil de perceber que eles não terão dificuldades no caminho.

O disco é resultado das novas referências que a banda absorveu no espaço após o primeiro trabalho. Existe, entre as faixas, uma noção de saber exatamente o que se quer das músicas. Eles ganharam em maturidade, melodias e letras, numa postura que ainda é rara até para as bandas de fora do gênero pop. Maturidade justificada no fato que a Terceira Edição parece ter lançado um disco pensando no público e não em si próprio. Conseguir se enxergar fora do palco parece simples, mas é quase o contrário.

“A Grande Chance” aparece como ponto alto desse repertório. Abre com efeitos, que logo são afogados pelas guitarras que envolvem a canção. Ouvindo, fica muito mais fácil imaginar uma situação de show, com pessoas – e até o detalhe dessas pessoas – e suas relações, que pensar na própria banda. Talvez esteja aqui o segredo da fronteira entre bandas autorais do Recife e as rádios comerciais. Um pouco de altruísmo é saudável para perceber que a música faz parte de algo maior.

A Terceira Edição encontrou boas maneiras de divulgar o disco. Montaram um novo site onde é possível ouvir todas as faixas, e fizeram um show no mundo virtual Second Life, na ocasião da inauguração da nova ilha do Recife. Com um disco pop e honesto, podem mirar na noite da cidade para alvos certos, que boa parte do rock independente local ainda negocia tensões. Fora de casa, eles entram num contexto que já é muito maior que a proporção da banda, e ainda vão ter que percorrer muita estrada para chegar a algo significativo.

Gram – Seu Minuto, Meu Segundo

Gram

Quando os discos deixam de vender (por estarem tão caros) e as rádios param de veicular a verdadeira produção de música em favor de uma que se paga, é preciso inventar novos parâmetros para o sucesso. Criar do nada mesmo, sem explicação lógica o suficiente. Como nossos pais. Quando eles – não importa como – conhecem um novo artista, é sinal de que eles estão fazendo sucesso.

É o caso do Gram. A banda carioca só tinha um disco que não toca em rádios, tem uma agenda de shows tímida comparada com um Paralamas ou Titãs, mas o nome deles não soa estranho para os pais dos fãs. É um patamar até difícil de sucesso que, por exemplo, uma Cachorro Grande, da mesma gravadora, ainda não conseguiu. E em “Seu Minuto, Meu Segundo” (Deckdisc), parece que a banda está querendo jogar esse esforço fora.

Não é que o disco não seja bom. Ele é sim, bastante até. Poderia ser o exato mesmo Gram do hit “Você pode ir na Janelinha” onde, no clipe, o gatinho comete suicídio sete vezes. Mas não é pela preocupação que a banda teve de não ser mais comparada (por quem?) com o Coldplay e Los Hermanos. De alguma maneira, para eles, soar como as duas bandas de maior sucesso hoje – a primeira no mundo, a segunda no Brasil – parece ser algo ruim.

Poderia ser preocupante para a carreira da banda, não tivesse sido uma das melhores sacadas deles. Porque essas doze músicas têm um tempero a mais na forma de programação eletrônica e uma dose tímida e escondida de “beats” com um forte efeito “repeat” embutido. A mistura deu certo. “A vida é hoje, e é com ou sem você”, canta o refrão da música que dá título ao disco, 12ª na seqüência das faixas.

E é cantando que “Vou transformar meu minuto em seu segundo” que o Gram dá novo sentido a seu trabalho. Esse electro-pop bem comportado e sem afeto é um filão quase não explorado no Brasil. Tudo bem, vamos combinar que ainda é muito mais pop (muito mais guitarra e bateria) que electro. Só na última música que realmente explode nesse sentido. Mas é um caminho que parece certo para eles.

Vídeo
Vale dizer que o disco vem em formato Dualdisc. Uma mídia de DVD prensada no verso, com um material em vídeo. São clipes simples mostrando cenas de gravação no estúdio com interferências em animação digital. Os meninos da banda são designers e dão uma importância forte para isso. Mas está longe de ser a graça desse trabalho.

ENTREVISTA – Marco Loschiavo | Guitarrista do Gram

“Eu sei que é ousado, mas é legal ousar, concorda?”. Num papo rápido com Marco por telefone, em uma agenda de entrevistas onde ele responde quase a mesma coisa para uma dezena de jornalistas do país inteiro, ele não se mostra entediado com as perguntas. Por isso começa logo dizendo que esse papo de parecer diferente do Coldplay, como veio escrito no release, não nada a ver. Mas reconhece as mudanças na música. “É um recomeço”, demarca.

E mesmo reconhecendo que seja ousado, ele faz questão de deixar claro que “o Gram tinha margem para essas mudanças”. “A gente chamou um amigo nosso, o Sérgio, que tocava no Skamondongos, para fazer a programação”, recorda. Essa viagem eletrônica deles também rendeu duas faixas remixes do primeiro disco, que ficaram guardadas como carta coringa e devem ser lançadas em breve na Internet.

Rádio de Outono

Anunciado desde o começo de 2005 na edição Nordeste do Claro Q é Rock, a banda Rádio de Outono lançou finalmente seu primeiro disco. A banda foi uma das mais rodadas de pop-rock do Recife no ano, fazendo shows seguidos em quase todos os fins-de-semana. O excesso pode causar a impressão que eles acabariam lançando um disco com pouca novidade, mas o material que já circula na cidade surpreende. Tem uma família grande, maior que a própria banda, que dá uma força enorme na produção.

A Rádio de Outono é uma banda de pop rock (pop’n’roll, como eles chamam), sem guitarras. Atrativo que convida pouco para conhecer o som que, pela falta de expectativa, acaba agradando bastante. Algumas grudam feito chiclete, com letras simpáticas, que não falam sobre nada demais, de maneira despretensiosa, descompromissada e engraçada. O charme é mesmo um pianinho, as vezes escondido no palco, mas que conquista qualquer curioso de passagem.

Mas no CD a coisa cresce. E muito. O tempo, deverás demorado, para lançar o disco parece ter sido descontado na produção. A Rádio de Outono que vai chegar na casa das pessoas – e sem muita dificuldade nas rádios – é bem diferente da que estava nos palcos. Cheia de efeitos na voz, nas guitarras e, aparentemente, muito mais que um teclado fazem uma banda difícil de associar com a Rádio de Outono que chegou antes aos ouvidos via festinhas locais.

As sete músicas vem numa embalagem absurdamente simpática, com azuis e rosas claros e a foto de um igualmente simpático radinho dos tempos da vovó. Junto com as músicas e o tal pianinho que conquistam mais que a voz da cantora Bárbara Jones, faz do CD uma chave que abre portas na programação de qualquer eixo do Brasil.

Publicado originalmente em 30.11.05