Tagged: produção

A vontade dele é te matar

abpd

Esse ai na foto é João Carlos Muller e, se você é uma dessas pessoas que troca músicas na Internet, ele quer te matar. Muller também é consultor jurídico da Associação Brasileira Produtora de Discos e, semana passada, ele foi entrevistado pelo jornal O Globo. Foi mais ou menos assim:

O GLOBO: Como convencer a pessoa que pode pegar de graça a pagar pelo arquivo?
- MULLER: É cultural. Isso é um problema de pedagogo, que eu não sou. Minha vontade é de sair matando todos (risos).

Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.

Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:

“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”

Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela. Quem quiser se divertir mais, a integra da entrevista está aqui. A foto do post também vem de lá e foi tirada por Elis Monteiro.

Pensando música

O Ronaldo Evangelista se enfurnou no estúdio da YB para bater um papo com o Maurício Tagliari, dono da gravadora; André Bourgeois, produtor do Curumim; Juliano Polimeno, da Phonobase (que já falei algumas vezes por aqui) e produtor do Cérebro Eletrônico e Pena Schmidt, que já teve as rédeas tanto de gravadoras grandes como pequenas nas mãos. Falaram sobre “discos, internet, gravadoras, distribuidoras, criatividade e os caminhos que a música faz do quarto do artista ao fone de ouvido de quem ouve”.

E o melhor é que tudo virou vídeo. Confere ai, dividido em três partes:


Think Tank – Parte 1: “Vale a pena ter disco?” from yb music on Vimeo.


Think Tank, parte 2 – “Se tirar o logotipo você já não sabe mais quem é o artista” from yb music on Vimeo.


Think Tank, Parte 3 – “O Caetano precisou lançar 11 discos pra vender seu primeiro disco de ouro” from yb music on Vimeo.

Como organizar um show

Em Outubro o produtor gaúcho Alê Barreto lançou via Overmundo o livreto “Como organizar um show“. Esse mês, a publicação ganhou versão impressa. Trata-se de um guia rápido – pouco mais de 60 páginas – para iniciantes. Fala um pouco dos conceitos básicos que envolvem o processo de produção de um evento desses. Foi anunciado como primeira publicação no Brasil sobre produção de shows. Não é – o Itaú Cultural lançou um livro sobre o assunto em 2005 – mas ainda assim é um material interessante para dar uma lida com calma.

Para quem não ligou o nome a pessoa, Alê é produtor já experiente e trabalhou tanto para eventos de porte gigante, como o Claro Q é Rock, quanto para festivais independetes como o Gôiania Noise. Acima você baixa um zip com todos os arquivos – porque no Overmundo ele foi disponibilizado capítulo por capítulo.

ATUALIZAÇÃO: O próprio Alê apareceu aqui nos comentários para lembrar que o livro do Itaú fala de uma forma muito mais abrangente sobre produção cultural. Sem focar especificamente em shows, nem no circuito independente.

Abaixo, tem uma descrição de cada capítulo:

Fascículo 01 – “Fazer a produção”, que bicho é esse?
Fascículo 02 – As Etapas de um Show
Fascículo 03 – Quando
Fascículo 04 – Onde
Fascículo 05 – Conhecendo o local
Fascículo 06 – Cronograma de Atividades
Fascículo 07 – A equipe
Fascículo 08 – Necessidades de Produção: músicos e técnicos
Fascículo 09 – Necessidades de Produção: infra-estrutura
Fascículo 10 – Necessidades de Produção: equipe de produção
Fascículo 11 – Solicitações, autorizações e contratos
Fascículo 12 – Direitos Autorais
Fascículo 13 – Divulgação
Fascículo 14 – Custos e Sustentabilidade
Fascículo 15: Sala de Produção
Fascículo 16: Montagem de Palco e Cenário
Fascículo 17: Montagem do Som e da Luz
Fascículo 18: Montagem de Camarim
Fascículo 19: Receptivo e Acompanhamento
Fascículo 20: Credenciamento e cortesias
Fascículo 21: Bilheteria
Fascículo 22: Passagem de Som
Fascículo 23: A Cobertura do Show
Fascículo 24: Segurança
Fascículo 25: O show vai começar!
Fascículo 26: Desmontagem do show – parte 1
Fascículo 27: Desmontagem do show – parte 2
Fascículo 28: Concluindo

Independência sem teoria

Eu ia esperar baixar um pouco do pânico gerado pelo texto que o Thiago Ney publicou recentemente, mas parece que o efeito é o contrário. Só fui ver bem depois da repercussão na poplist o burburinho que estava no Orkut. É impressionante ver a quantidade de desinformação gerada por um texto curto e irresponsável num blog da Folha de S. Paulo.

Em tempo, estou longe de ser aqui advogado da Petrobras e da Associação – basta ler os textos anteriores já publicados aqui para confirmar – mas é preciso esclarecer alguns pontos importantes. O principal: o edital da Petrobras nunca deu o valor dito por Thiago a evento nenhum. Esse mesmo valor não cobre o custo completo de um festival (muitas vezes sequer a metade) e, o mais importante, nem metade dos contemplados fazem parte da Abrafin.

Alguns outros esclarecimentos mais brandos. Muitos dos festivais estão em atividade há pelo menos mais de 10 anos. É simplesmente natural que um produtor que faça isso a tanto tempo – e muitas vezes passe o mesmo tempo também tocando em outros eventos – faça amizade com outras bandas. Isso não é errado, as pessoas se relacionam desde que o tempo é tempo. Ser amigo de uma banda não faz dela uma banda ruim. Nem vivemos numa produção cultural grande o suficiente para que nenhuma das partes se relacionem. Dizer que é errado ter bandas amigas num evento é simplesmente um argumento arbitrário.

É preciso dar o braço a torcer a um fato: existem sim muito mais conquistas positivas que negativas desde que a Associação Brasileira de Festivais Independentes chamou a atenção da Petrobras e outros órgãos públicos para esse tipo de evento. É óbvio. Afinal, os festivais precisam de dinheiro para existir e se as empresas privadas estão cada vez mais optando ter seus próprios festivais então é preciso recorrer a uma alternativa. O próprio fato de que as bandas e produtores agora sabem para onde olhar no momento que precisam reclamar de algo já é uma vitória muito grande.

É claro que existem muitos pontos negativos. O maior é que os festivais estão criando uma nova noção de localidade na cena independente brasileira. Por exemplo: a banda Violins (GO) nunca havia tocado no Recife, mas ao ser escalada para o Abril Pro Rock é questionada com um nome que já aparece bastante em outros festivais. O mesmo vale para o Superguidis (RS). O Brasil passa a ser uma territorialidade absoluta para essas bandas, mesmo que elas estejam lidando com público específico (e que nem sabe desse papo todo que estamos tendo aqui). E mesmo sendo uma crítica mais recorrente, ainda é confusa para se trabalhar uma solução.

Um problema originado por isso é o do espaço oferecido pelos festivais. Se o território agora passa a ser o Brasil, então o Goiânia Noise não está oferecendo 30 bandas para a cidade onde acontece. Ele se soma ao Abril Pro Rock, Porão do Rock, Mada, Calango, Gig Rock e todo o restante do circuito. Então estamos falando aqui de uma abertura para mais de 300 bandas. Um número que existe em quantidade, mas não em qualidade no país. Minha teoria é de que não temos mais que 30 bandas boas por unanimidade. Daquela que nem eu, nem o Dago vá discordar que vale mesmo a pena ser chamada.

Esses são apenas duas das grandes dificuldades que os festivais independentes vão precisar passar agora que existem em unidade. Existem outros, claro, mas minha intenção aqui não é a de levantar polemicas… mas justamente mostrar que o debate poderia está sendo encaminhado para outro lado. Porque toda a parte primaria questionada na Folha de S. Paulo já está muito bem resolvida: o conceito trabalhado para independência, a noção do financiamento e a questão das curadorias. Estamos em outro patamar, portanto não faz sentido recuar o debate.

Toda essa gritaria e dispersão acontecem, é claro, porque estamos tratando de um assunto muito mais delicado que a qualidade das bandas. Estamos falando de dinheiro. Talvez essa seja uma dificuldade que nenhuma Abrafin vá conseguir solucionar: os festivais estão inseridos numa cadeia produtiva totalmente desconectada. As bandas reclamam de um cachê de um único show (porque eles sabem a quem reclamar, como falamos aqui), mas esquecem do dinheiro para apresentações diárias, durante todos os outros fins de semana do ano. As casas de shows e contratantes particulares ainda estão totalmente a parte das necessidades desta cena. A exceção são os que também tem festivais (DoSol, A Obra, Fora do Eixo, etc).

E esse é apenas uma parte: some ai lojas de disco, estúdios de ensaio, lojas de instrumento (se faz muito oba pela tecnologia, mas se esquece que o hardware da música continua caro), imprensa (esse é o mais crítico. Muito mais que qualquer festival ou programa de patrocínio) e, claro, o próprio público. Diversas partes que se envolvem com as bandas, devem a elas muito mais do que já estão dando, mas não estão sendo cobrados com o mesmo afinco.

Para encerrar o raciocínio… é assustador como as pessoas falam sobre Petrobras, Abrafin e Festival como se esses tivessem atingido um patamar absoluto do processo. Gente, sério, não é assim. Esse é um primeiro passo. Antes os festivais mal estavam conseguindo existir. Agora podem seguir. Nos próximos passos os valores também passam a crescer naturalmente. Os eventos não tinham dinheiro nenhum e, agora que tem, já estão reclamando por mais? Não é assim que funciona. Tempo ao tempo, antes de tudo.

Música e imagem

O Redbull Music Academy volta ao Recife, dessa vez para falar sobre algo que está sendo desenvolvido na própria cidade. Jarbas Jacomé (ou o popular Jarbinhas do Negroove) mostra mais uma vez seu Vimus, um programa onde você cria uma interação entre música e imagem através de uma lógica matemática que deixa tudo em sintônia. Eu já tive a oportunidade de ver ele funcionando no último Festival de Inverno de Garanhuns e o troço é sinistro. Ele fez esse trabalho em parceria com o gringo Salsaman, inglês figuraça que é fundamental para uma pista bem animada. No papo, estará o também chapa Ricardo Brazileiro e José Balbino (esse eu acho que não conheço).

O encontro vai ser domingo terça na Livraria Cultura e promete, porque a Redbull está perguntando com antecedência aos inscritos que instrumentos eles tocam. Quem quiser participar pode mandar email para tathi@redbullmusicacademy.com respondendo nome, idade, ocupação, se faz música, qual instrumento toca e um simpático “quem é você”.

Para instigar ainda mais, ai vai um vídeo exemplo do trabalho Jarbas que catei no youtube: