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Saldo final do Rec-Beat

Fazia tempo que o festival que acontece todos os anos no Carnaval não tinha uma edição tão boa, praticamente histórica, como essa que encerrou semana retrasada. Devotos, Móveis Coloniais de Acajú e Pato Fu certamente vão se transformar naquelas histórias que contamos para as novas cenas locais e os futuros filhos, como exemplo de que as coisas não são mais como antigamente. O Rec-Beat cumpriu bem sua maior função, apresentou novos nomes de qualidade a um público pernambucano que não o conheceria de outra forma.

A grande revelação foi o Julia Says. Dupla que experimenta pitadas cavalares de programação eletrônica no rock, com uma ótima primeira impressão de quem deve crescer muito na cena local. A surpresa foi o brasiliense Lucy and the Popsonics. Mais encorpado, com peso extra nas músicas e identidade totalmente moldada para o sucesso, eles saem do patamar de bandas iniciantes para nomes fortes do cenário independente. A consagração foi do Móveis Coloniais, sem sobre de dúvidas o novo grande nome da música brasileira.

Timming
Nem tudo são flores, entretanto e fica uma ressalva ao Rec-Beat. O festival ainda aposta muito no potencial de bandas iniciantes deixando que elas toquem quase o mesmo tempo das últimas atrações. Uma apresentação mais curta poderia favorecer, na proporção que muito tempo no palco acabou prejudicando a impressão que alguns inciantes deixaram.

Internacional
A banda River Raid é finalista do International Songwriting Competition com a música “Time up”. Eles passaram numa peneira de aproximadamente 15.000 bandas de todo o mundo. E os jurados desse concurso foram ninguém menos que Julian Casablancas (Strokes), Robert Smith (The Cure) e Frank Blank (Pixies). Para votar na banda na última fase, é preciso entrar no www.songwritingcompetition.com/PVWelcome2007.htm

De volta
A banda carioca Matanza já tem um novo show marcado no Recife. Eles voltam a se apresentar no Nox on the Rocks, projeto da Sun7 Estúdio – inaugurado, por sinal, pela própria banda – com participação ainda da banda B.U. de Cannibal e Celo do Devotos; e a banda baiana Vinil 69. Será dia 28 de fevereiro, às 20h.

Sem frescura, agora

O último dia do Recbeat fechou com chave de ouro a edição deste ano. Edição foda e se por um lado nem todas as atrações eram 100% boas, todas tiveram utilidade e encontraram público.  Acho que a atração que melhor ilustra isso é a banda Les Frères Guissé, de Senegal. Para mim passou batido, mas juntou uma multidão de gente no fim querendo comprar disco, CD, dar abraço, tirar foto e pedir um dos caras em casamento.

A noite começou com a Bande Ciné. Tinha um nervosismo claro no palco, mas acho que minha ressalva com a banda vai além disso. São dois pontos, o primeiro e mais grave é que parece que metade da banda pensa numa proposta totalmente diferente de outra metade. Como? De um lado, estão tocando e dançando agitados, do outro estão tímidos, escondidos e fazendo a linha low profile. Parece que estão tocando em banda diferentes. E, ok, isso ainda se enquadra no nervosismo. O segundo são os covers. A banda encontrou um lance que é muito legal, mas ainda acho que a vibe seria eles fazerem músicas próprias naquele ritmo e cantadas em francês. Rolava até parodias com nossa língua, com personagens próprios, etc. Serge Gainsbourg é um cara foda, mas ele só é foda para muita pouca gente.

Vi o show da Les Frères Guissé do fosso. Aquela área colada com o palco que é usada por fotógrafos. Tão de perto, eu ficava achando muito deslocado. Fiquei pensando “será que essa vai ser a bola fora?”. Mas foi certamente a maior reação de público de todos os quatro dias. Sem contar, claro, atrações principais. Para um grupo que ninguém tinha visto aqui, parece que eles saíram com fã clube e tudo mais que tem direito.

O Porca Borboletas foi uma atração apenas OK. Acho que pesou o fato de termos muitas bandas aqui parecidas com a proposta deles no palco. Teve menos impacto, o que acabou exigindo mais da música deles, que no fim da contas é um rock simples, que nem ofende, nem necessariamente agrada. Deu uma esfriada na noite, que entraria logo em seguida no ápice de todo o Recbeat.

Vou repetir aqui: queria tocar na Orquesta Típica Fernadez Fierro. Que show foda. Os caras sincronizados nos passos, com uma formação de quatro acordeons na frente. O vocalista estragava um bocado, mas a imagem da banda era intimidadora suficiente para superar isso. Fico pensando a quanto tempo tinha uma banda dessas aqui do lado do Brasil e nunca fiquei sabendo. Depois dessa apresentação, me obriguei a procurar mais da música argentina.

A melhor surpresa do festival, para mim, também veio nessa noite. O Lucy and the Popsonics que tocou no palco do Cais da Alfândega não parece em nada com a banda que vi a dois anos no Mada, ou ano passado no DoSol. Eles cresceram, tipo assim, MUITO, no show. Antes eram tímidos, agora faziam do palco um palanque deles para o rock. A música estava mais acelerada, com mais atitude e peso rocker. Foi legal ver que eles, sem nunca terem tocado aqui antes, já tinham um pequeno fã clube coladinhos no palco cantando todas as músicas sem errar a letra.

O cover do Sepultura foi fundamental para mostrar que eles tinham não apenas encontrado, mas entrado de acordo com uma personalidade própria. A participação especial de Fabrício Nobre (MQN) no fim só foi a cereja no bolo que trazia o recado de que o electro que se foda, aquela era uma banda de rock. Eles pegaram uma rebaba do público que já se amontoava para ver o Pato Fu, o que contou a favor para o clima deles no palco. “Nunca tinha visto tanta gente assim”, dizia sorridente Fernanda Popsonic, “e a gente só trouxe cinco CDs para vender!”.

Confesso que não sei o que falar do Pato Fu. Assisti o show pagando de “mas já vi isso em outubro, no Noise”, só para pagar pela língua (deu para reparar o quanto eu fiz isso durante o Recbeat inteiro?). Nunca vi uma banda tão feliz no palco, nem um público cantar músicas inteiras sem parar, em coro que as vezes superava a voz de Fernanda Takai. Porque diabos, fiquei pensando, eles passaram seis anos sem tocar aqui?

As fotos estão no post abaixo :)

Recbeat 2008 – Quarto dia

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Eu quero tocar na Orquesta Típica Fernandez Fierro. Juro que quero. As melhores bandas são aquelas que você termina o show querendo fazer parte daquela história. E é muito raro para mim encontrar bandas assim. Ok, talvez no máximo eu quisesse estar no lugar daquele baixista do Pato Fu, mas é mais por ele ser um cara muito legal no palco que pela banda propriamente dita.

Recbeat um tanto histórico esse. Lembro quando na metade do caminho falei para Gutie que ainda não tinha tido um show ruim e ele com sorriso confiante falou “nem vai ter!”. Não teve mesmo. O produtor do festival, que descobri essa semana que é também meu vizinho, também foi acertado nas últimas palavras sobre a edição deste ano. “Gosto de confiar na sensibilidade das pessoas para conhecer coisas novas.  O Recbeat tem essa função, que é na verdade de todos os festivais independentes hoje, de circular músicas e artistas que nunca teriam acesso ao público daqui. Quem imaginaria que teria um grupo legal assim em Senegal? Ou como a Panico do Chile?”

E ai? Alguém ai ainda tem mais folego para dizer algo sobre o Carnaval? Da minha parte, fica só as imagens. Fotos de Costa Neto:

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Recbeat 2008 – Terceiro dia

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Fazia tempo que eu não assistia um Recbeat tão imbatível. Essa edição de 2008 não teve um show realmente ruim ate agora. Tudo que subiu no palco se aproveitou e no prêmio “banda da cerveja”, no máximo o BotecoEletro (elétrico?) entra na disputa. A terceira noite teve um clima de fim de festa grande, provavelmente pela forte ressaca que o Moveis Coloniais de Acaju causou para quem resistiu até o fim da noite, naquelas duas rodas gigantes debaixo da chuva. E especialmente para mim, que bebi uma garrafa inteira de vodka durante todo esse processo.

O show do Trio Pouca Chinfra & Cozinha foi de cair o queixo. Todo mundo de branco, fazendo bonito um samba que empoe respeito em quem assistia. Me fez pensar como parecia distante os primeiros shows que assisti deles, ainda em mesa de boteco em plena tarde do Recife Antigo. Eles aproveitaram bem os cerca de 50 minutos de apresentação, com quatro pout-porri que condensavam 13 canções. Marcelo Campello (do Mombojó), que antes era integrante full time da banda, fez apenas uma participação especial numa emocionante homenagem ao Rafa, companheiro em ambas as bandas, falecido no semestre passado.

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O nome da banda Metaleira da Amazônia gerou uma leve desinformação para quem aguardava o show, seguido de uma boa surpresa quando os coroas entraram no palco com… claro, a metaleira. O comentário certeiro da noite veio do colega George Frizzo (Fóssil) quando lembrou que os músicos do Pará ainda são muito puristas com o carimbo. O show foi foda, mas ficou aquela vontade de ter novas referências no som deles. Mais ou menos como acontece com a guitarrada, também de lá, só que num passo além.

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O clima favoreceu o Fino Coletivo. A banda mezzo carioca, mezzo alagoana tem uma vibe que é muito pernambucana (lembra muito Eddie e Bonsucesso, principalmente nas composições da Wado). Mas ainda é em dois tons abaixo, mais lento (eu ia arriscar soturno, mas é um termo meio carregado). Legal de dançar por uns 25 minutos, mas difícil de acompanhar até o fim. Pelo menos para mim. Tinha um cabeludão colado no palco que agüentou do começo até o último segundo da noite, achando tudo o máximo.

Uma das melhores coisas da noite foi o Firebug + Chris Murray. Ska jamaicano, com um tanto de surf music e um pouquinho apenas de reggae. Fico pensando que esse vai ser um show que daqui a três anos vão comentar por ai e nego não vai acreditar que rolou na cidade (e isso é bem comum no Recife. Atualmente tem rolado com o Maquinado, do Lúcio Maia). A positive vibration da banda é das melhores, um rindo para o outro o tempo inteiro no palco, numa sensação de que estavam se divertindo até mais que o público.

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Mas a surpresa veio mesmo no fim. Eu não sei de onde diabos tirei que o Pânico era um tipo de Canse de Ser Sexy do Chile. Mas como Fabrício Nobre sempre me diz, “sempre tem que ter uns jornalistas para falar merda por ai, né?”. Banda de rock, com uma pitada leve de eletro, os caras levantaram totalmente o animo da noite. Me deu vontade de ter bebido mais, de tão empolgante que era o show deles. A bateria eletrônica misturada com a orgânica dava um peso foda as batidas (eu já tinha dito isso do Julia Says, né? To ficando repetitivo).

Fotos de Costa Neto

Recbeat 2008 – Segundo dia

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Fazia tempo que eu não via tanta gente no quanta ladeira. Sério mesmo, quando deu umas 17h parecia uma visão do apocalipse, com a diferença que estavam todos curtindo e enchendo a cara. O bloco de Lula Queiroga e Lenine tira onda de todo mundo de uma maneira que chega alivia. Até do prefeito da cidade mais grotesca do país (mais sobre isso em outro post).

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O show de Isaar conseguiu pegar uma boquinha da multidão. Por mais que sua imagem no palco ainda rémeta muito a uma estética regional, nesse show deu para ver que sua música está se tornando cada vez mais cosmopolita. Voz suave, que agora fica fácil de imaginar interpretando qualque canção de MPB com identidade própria.

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Eu tive que perder o show da orquestra contemporânea de olinda. Coisas do carnaval, paciência. Mas dei sorte de voltar em tempo para Marina de La Riva. Sério, o que era aquilo? Que show. Já entra na lista de melhores do ano com certeza. Não faltaram hits da música cubana com luxo e bom gosto contagiante no palco. Marina já nasce diva, com a impressão que deve voltar muito ao recife.

Nessa hora precisei sair de novo. Fui conferir o show da banda potiguar Barbiekill no novo pina. E deles também falo mais em outro post.

moveis_coloniais_foto_costa_neto.JPGEu disse umas mil vezes em dezenas de lugares diferentes que o show do Móveis Coloniais seria histórico. E foi! Apoteose máxima do Recbeat. Parece que eles foram moldados para esse momento. Público cantando músicas que só existem online a menos de seis meses, debaixo da chuva forte como o carnaval deve ser. Eu não sei vocês, mas me acabei lá na frente do palco. Foi foda.

Fotos de Costa Neto.