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Cordel do Fogo Encantado: Transfiguração

O trânsito é situação comum na vida do homem. É o processo. Por onde ele passa, absorve referências e se transforma. Para o Cordel do Fogo Encantado, é como ele também se transfigura. E a velocidade desse trânsito já faz de “aguardado” um adjetivo pobre para o novo disco da banda. “Transfiguração” remete suas conversas de lançamentos desde novembro de 2005, quando a lançava seu primeiro registro visual em DVD. E todo esse tempo acumulou ainda mais mudanças, todas traduzidas em 14 faixas.

É fundamental pensar que é desse tempo também a despedida que o mundo físico deu a Manoel Filó; aquele que transformou o sertão em poesia. Não por acaso, ele dele o poema recitado que abre “Transfiguração”, disco que tem encarte em tons azuis, com um homem se transformando em borboleta. Essa oposição estética – até então, as apresentações do cordel eram sempre em vermelho – é o primeiro choque que o disco apresenta. Faz isso com sussurro de calmaria, em composições que são batizadas com dois nomes, lembrando que esta ainda é a mesma banda.

Se a configuração sonora do Cordel do Fogo Encantado ainda não se transformou – continua com três percussões e um instrumento harmônico – o sertão poético introduzido por Filó agora passeia no concreto. “O Sinal Ficou Verde” e “Pedra e Bala” são as maneiras que o vocalista Lirinha encontra para falar sobre as fronteiras entre o bem e o mal. “Nossa vida é feita assim / na estrada”, canta em “Na Estrada (ou Quando Encontrai Dean Pela Primeira Vez)”.

Esse trânsito cosmopolita da banda ainda é sutil. Nas 13 músicas que seguem pelo disco, variando entre um a três minutos cada, permanece a identidade rural e percussiva da banda. Mas existe uma necessidade verbalizada de comunicar novas geografias. E como Lirinha já se mostrou, nos dois discos anteriores, uma grande facilidade em deturpar conceitos, ele faz dessas mesmas geografias uma paródia para o próprio corpo. Em “Louco de Deus (ou Perto de de Você)” ele canta “Perto de Você / Dentro da Tua História / Eu Carrego as Paisagens”.

“Transfiguração” traz essas mudanças por um motivo bem específico. Esse é o primeiro disco realmente musical lançado pela banda. Até então, o Cordel do Fogo Encantado primeiro lançava um espetáculo que tinha preocupação teatral e só depois era gravado. Agora, suas músicas chegam dentro de uma grife. É a da produção do ex-Trama Carlos Eduardo Miranda e Scotty Hard que também produziu o ótimo “Futura” da Nação Zumbi.

Essa troca de papéis entre disco e espetáculo traz o sabor maior deste terceiro trabalho do Cordel do Fogo Encantado. As novas cores, os desenhos que se refazem de acordo com a dobra do encarte e essa paisagem perto do urbano nas letras despertam a curiosidade sobre como essas músicas vão se comportar em palco. É essa necessidade visual que completa o ciclo desta nova experiência.

Escute: Aqui (ou Memórias do Cárcere)

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O Sinal Ficou Verde (ou Além do Bem e do Mal)

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“Vai ser o maior espetáculo do Cordel” - entrevista: Lirinha

Pelo telefone, a voz de Lirinha na ligação de São Paulo chega bem rouca. O Cordel do Fogo Encantado está, no momento, preso entre viagens, preparação de um novo espetáculo e divulgação do CD para imprensa. “A correria é o disco mesmo”, diz entre tosses. “Foi a gente mesmo que fez a opção por essa diferença de lançar o disco antes”, explica. A primeira cidade a conhecer o novo show será o Rio de Janeiro. Recife apenas até na primeira quinzena de outubro. “Temos uma data marcada no dia 6, mas não está fechado ainda”, adianta o vocalista.

Lirinha explica que a influência urbana em “Transfiguração” é uma característica do disco e não da banda. “Talvez poeticamente a gente tenha menos referências de nossa região num sentido geográfico, mas fica impossível apagar nosso tempo de vivência”, se justifica. “A banda tem mais tempo agora que partiu nesse sonho de viver de um projeto artístico, temos um trânsito menos surpreso por cidades como São Paulo e claro que isso tem uma influência”.

Ele adianta pouca coisa do novo espetáculo. O Rio de Janeiro ainda deve ter a oportunidade de ver um show que conta com a participação de BNegão, que também canta em uma das faixas do disco, no mais, segundo ele serão as mudanças de cenário. “Vai ser um mergulho maior nessa fronteira entre o teatro e a música. Acredito que vai ser o maior espetáculo do Cordel”, promete.

Mombojó – Homem Espuma

O novo disco do Mombojó se chama “Homem Espuma” e chega nas lojas no dia 5 de maio. Podia ser uma notícia comum no meio de música do Recife, onde tantos discos já são lançados por semana. Mas tem uma diferença enorme. O Mombojó quebra um hiato de quase sete anos sem que um artista do Recife fechasse contrato com uma gravadora de grande porte. Sair da independência, às vezes, é bom para dar razão a uma cena geralmente tão elogiada no País. A Folha de Pernambuco já teve acesso ao disco e adianta porque, em 14 faixas, eles são a banda certa para estar nessa posição.

Numa visão geral, “Homem Espuma” é um disco muito mais difícil que o anterior “Nadadenovo”. Cada música tem pelo menos cinco ou seis texturas de som diferente e esse é um tipo de construção que não é feita há um bom tempo aqui. Num exemplo bem específico, o tecladista Chiquinho usa nove instrumentos diferentes, incluindo um vibraphone, uma mistura de teclado com xilophone. Os meninos dão logo as cartas que querem experimentar quase todos os sons que cabem nas suas músicas.

É um disco recheado de participações. A produção é assinada por Ganjaman (Instituto) e Lúcio Maia (Nação Zumbi). Nas faixas, vozes de Daniel Belleza, Céu, Tom Zé e programações de Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Maurício Takara (Hurtmold). Por fim, nessa já longa introdução, vale dizer que está tudo mais linear. O som da banda faz uma linha com menos swing e segue a “MPB de trompete”, que faz nomes como Los Hermanos pular na memória. É uma boa associação, ainda assim.

“Homem Espuma” abre com “O mais Vendido”, que mostra o vocalista Felipe S. com uma voz bem melhor do que era conhecido pelas músicas antigas. “Não quero ser o mais vendo / eu quero entrar no seu coração”, desafia de maneira indireta o ouvinte. Quem chama atenção é mesmo a faixa quatro, “Realismo convincente. Com uma participação bem desnecessária de Tom Zé, ela conquista com uma melodia mais pesada e o viciante grito de Daniel Belleza como fundo do Mini Moog (um desses nove teclados que é usado).

“Tempo de Carne e Osso” vem em seguida com a ótima participação de Céu. Algum sinal divino deveria apontar que essa parceria entre ela e a banda permaneça com mais força. A música é uma das mais bonitas de todo o disco. O Mombojó gravou ainda uma versão totalmente nova para “Swinga”, música que já mostrava nos shows. O disco ganha novos pontos altos em “Vídeo-game” e em “Desencano”, que tem letra de China. “Minar”, fecha o “Homem-Espuma”, como um golpe final certeiro. Meio eletrônica, lentinha e com arranjos viciantes.

Entrevista
O Mombojó continua com a mesma boa modesta nessa nova fase Trama. “A gravadora é bem pé no chão, não tem muita regalia na verdade. A mudança mais efetiva para gente é que lá tem vários setores, como divulgação e Internet que nos favorecem muito”, comenta o vocalista Felipe S. Eles levam essa história de pé no chão ao pé da letra. A divulgação inicial vai começar na Europa, com datas todas marcadas pela própria produção que a banda já contava.

O nome do novo disco, ele explica, veio do Orkut. “Estimulei os integrantes da comunidade a darem sugestões para o nome, quem desse as melhores, a gente ia mandando por email umas outras músicas que não estão no CD”, comenta. A relação com a banda e a internet é bem grande. Os planos são de colocar o “Homem Espuma” todo online na semana de lançamento. Otimista com o novo disco, Felipe S. fez uma reflexão bem madura sobre o trabalho. “Ele tem menos edição, menos interferência de computadores, então mostra muito mais nossos erros espontâneos”.

Uma lógica natural que vem do novo disco é que agora as participações vêm todas de São Paulo, ou de artistas que estão morando lá. “Mas foi tudo bem casual, eram pessoas que nos momentos da gravação tiveram alguma proximidade, exatamente como foi com o disco anterior”, lembra.

Apesar das datas já marcadas pela Europa e cidades do Sudeste do Brasil, “queremos visitar lugares onde o Mombojó nunca esteve antes”, comenta Felipe, a banda não esqueceu a terra natal. Um primeiro show já está marcado no auditório da Livraria Cultura, em formato pocket, para mostrar ao público o que eles podem esperar do “Homem Espuma”.

Mombojó – Homem Espuma
Gravadora: Trama
Escute aqui:
Tempo de Carne e Osso

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Minar

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DJ Dolores – Narradores de Javé Remix

Helder Aragão, o DJ Dolores, foi convidado para assinar a trilha sonora do filme Narradores de Javé. Preste atenção em quantos padrões do óbvio vão ser quebrados nas próximas linhas. Ele só está fazendo o lançamento agora, três anos depois da estréia filme. No lugar de usar seu nome, deu ao CD a assinatura de um coletivo de músicos e DJs de peso nacional. Fez tudo usando uma modelo de licença Creative Commons (CC), onde os artistas convidados tinham direito de fazer o que quiser com as composições. Até mesmo ganhar dinheiro com elas.

Não é apenas um disco é ousado. É também o primeiro, depois de muito tempo, em apostar na moral da própria música, e isso é muito legal. “Entreguei as faixas abertas para todo mundo”, explica Helder. “Alguns usaram só as baterias, outros usaram todos os instrumentos, dei liberdade total para cada um fazer o que quiser”, completa. No time, estão presenças de responsabilidade, como o paulista M.Takara (do Hurtmold), a banda Cidadão Instigado, o rapper BNegão e outros artistas do coletivo Instituto.

O convite veio do próprio Helder. “Acho bacana você ter sua música trabalhada por outros artistas dessa maneira”, diz o DJ, que não esconde ser tambem fã do Creative Commons. Uma licença que permite o autor dar a liberdade que acha necessária sobre sua obra.

Essa distância entre filme e disco é exemplo da utilidade da licença CC. “Tive alguns problemas para legalizar a participação de todo mundo”, explica Helder. Se todos já trabalhassem neste formato, o processo teria sido praticamente automático.

O próximo passo de Dolores é colocar as faixas originais na Internet, com a licença especial, para que todos possam fazer seus próprios remixes. É uma ação inédita para um artista de Pernambuco, a primeira no Brasil que atinge um disco inteiro de um artista que é referência no mercado. Antes disso, Gilberto Gil havia liberado apenas uma faixa em CC, a Oslodum.

Todas essa idéias nem passavam pela cabeça da diretora do filme, Eliane Caffé. Mas conseguiu casar em 100% com a decisão dela pela escolha de Dolores na trilha sonora. Em entrevista para a revista Época, ela disse que “[na cidade onde o filme foi feito] Algumas casas não tem nem banheiro, mas a população está ligada no mundo. DJ Dolores tem essa nordestinidade contaminada pela sonoridade externa ao sertão”. Comentário exagerado, mas que cabe bem na descrição do CD.

Disco
Falar em samplers é sempre complicado. Ainda mais num disco de compilações, que são fomosas por serem sempre tão irregulares. Não é o caso da trilha de Narradores de Javé. A cumplicidade do coletivo Instituto é a primeira coisa que chama atenção no disco. As batidas e remixes tem um carga forte de experimentação, sempre recheada com muita influência hip hop. Vantagem de quem não vai precisar circular com um show deste trabalho. Sempre puxando a próxima faixa, o disco prende o ouvido pela curiosidade.

DJ Dolores – Narradores de Javé Remix
Gravadora: Independente / Distribuição Tratore
Preço: R$ 23,90
Para comprar: Submarino
Escute aqui:

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Maior em quê?

Carnaval não é só folia. Durante os quatro dias de fevereiro, a Bahia aproveita para fazer uma movimentação imensa na sua indústria do axé music. Mesma história no Rio de Janeiro, com o mercado do samba. Cidades onde a festa é tradição aproveitam para lançar novas músicas, novos artistas, discos e produtos agregados. São quatro dias que garantem um ano inteiro de repertório novo para rádios, lojas e televisão. Só que nem aproveita é o Recife.

Não existe renovação no frevo local. Novos artistas e novas composições não ganham destaque. Nas ruas de Olinda, num espaço menor que uma hora, o frevo de Vassourinhas tocou nove vezes. Falta de compositores, com certeza, está longe de ser motivo para isso. Durante uma entrevista para a Rádio Folha FM 96,7, o secretário de Cultura Roberto Peixe disse que o Recife tem o maior Carnaval do mundo. Menos na música, pelo visto.

Novo
Por falar em frevo novo, a prefeitura de Olinda escolheu um composto por J. Michielis para representar a cidade como Primeira Capital Brasileira da Cultura. Quem interpreta a canção é o músico Silvério Pessoa, junto com o maestro Adelmo Apolônio. A música já está circulando pela Internet.

Violência
O slogan da revista Bizz diz que “música é tudo”. Infelizmente, parece que isso também inclui violência. Transitar no palco do festival RecBeat estava impossível, com uma briga acontecendo a cada dois metros de distância. Para piorar, a Nação Zumbi foi obrigada a fazer um show bem mais baixo e lento que o normal.

Mombojó
O último segredo sobre o novo disco do Mombojó, que passeia pela cidade para ouvidos exclusivos, era o nome. Mas, esse fim de semana, o boato era que a criança já tinha sido batizada. E o nome escolhido foi Laça Cheddar. Pode?

Zine?
O músico China fez o que deve ser o primeiro fanzine via Orkut. É só procurar pela comunidade “Que conversa é essa?“. Lá, ele entrevista pessoas de frente e de bastidores da música local. A idéia é ótima.

Transformer

Boas idéias demoram, mas eventualmente, chegam. Em dias onde todo mundo inventa de ser DJ, Bruno Pedrosa (do núcleo dos DJs de padaria) dá um reforço classe A no repertório das noites da cidade. “Transformer”, CD que nasce com patrocínio da Chesf, traz músicas de artistas pernambucanos remixados por DJs que vão do dono da idéia à presenças nacionais, tipo o Drumagick (SP). As 14 faixas tem desde Cordel do Fogo Encantado à Mundo Livre S/A com programações que ficam entre o drum’n’brass e tecno.

Tudo feito com responsabilidade. Bruno Pedrosa fez questão de pedir a versão “master” (a que tem a voz e instrumentos gravados em canais diferentes) para cada artista. Deu liberdade artística para cada DJ convidado fazer da maneira que achasse melhor o remix. Assim, no som, não tem nada de realmente modernoso. Essa é a melhor parte do CD, que não embarca na moda trance ou no afetado electro para embalar músicas tão regionais. Todos os sons casam muito bem na “versão pista”.

O disco já abre com uma preciosidade. É a música “Morte e Vida Stanley”, do Cordel do Fogo Encantado, que ainda não tinha sido registrado pela banda em nenhum disco. Nesse mesmo quesito, traz também “Meu Esquema”, do Mundo Livre S/A. A trupe de 04 tinha perdido as masters quando se desligou da primeira gravadora. Entraram em estúdio para refazer tudo, apenas para participar do disco. Por isso, aproveitou ainda para entrar em versão acústica, encerrando o “Transformer”.

Apesar de vir com esse estigma, “Transformer” não é para ser tomado como um “disco de festa / balada / pista”, etc. Dentro dessa categoria estão “Na Boléia da Toyota”, de Silvério Pessoa com remix do Drumagick e “Deixe-se Acreditar”, do Mombojó em versão BTK and Spleen. Fora dela, estão “O Baile”, de Erasto Vasconcelos e “Veja Lá”, do Bonsucesso Samba Clube, em climão de Lounge Eufrásio Barbosa com batidas leves e discretas.

A versão jungle de Mombojó está entre os pontos altos de todo o disco. Não altera arranjo nenhum da música, apenas com as batidas “anosnoventa” por cima, casando tudo com perfeição. Consegue renovar o clima da banda de uma maneira legal e com cara que vai dar muito certo numa festa perdida na noite da cidade.

Cotação: [rate 5]
Escute: Mombojó – Deixe-se acreditar / BTK and Spleen remix
[http://www.popup.mus.br/mp3/mombo.mp3]