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Astronautas – O Amor Acabou

O mundo do rock independente é cheio de seus próprios folclores. Entre eles, tem uma frase que circula com grande freqüência nas mesas de bares, nos bastidores dos festivais, nas listas de discussão. Quase o discurso de frente das bandas, com um palavrão enorme no meio, quando todos confirmam que “Se tá no rock, é para se f….”. A história da banda pernambucana Astronautas, que lança agora o terceiro disco pela revista Outracoisa, foi construída quase que totalmente com base nesse ditado.

A banda partiu ano passado para São Paulo, com dois discos na bagagem (um deles por uma das mais importantes gravadoras independentes, a Monstro) e determinada a dar certo no cenário nacional. Vivendo a frase acima todos os dias, o grupo viu sua formação se desconstruir e nascer de novo, com mais de 20 integrantes diferentes. “Encontrar material humano, os ‘brothers’ mesmo, é difícil”, comenta André Frank, vocalista, líder e também parte do próprio folclore do rock independente.

O “comandante astronauta”, como é conhecido por todos, segurou as pontas da banda enquanto outros davam prioridade a empregos ou saíam do País para estudar. “O negócio é punk. Eu sou formado em duas faculdades e escolhi não exercer para fazer isso porque eu quero fazer essa história”, comenta. Frank (que comandava, antes, a Frank Jr.) faz questão de explicar que a banda não é só ele, mas, sim, todos que decidirem abraçar a idéia. “Eu sou um guerreiro incansável e agora sei que tenho mais dois comigo no mesmo pique”, celebra.

Guerreiro mesmo. Em 2006, ainda na entressafra do segundo disco, a banda fez 40 shows pelo Brasil. Passando, inclusive, por alguns dos principais festivais do País. A tendência agora é crescer mais. “Já deu 300% mais certo do que eu pensei”, comemora André Frank. “Além de uma tiragem muito maior (nove mil discos, contra três mil no anterior), ele chega mais barato às lojas, com uma divulgação nacional mais forte”, completa. O maior desafio para os Astronautas agora é o próprio Recife. A banda ainda passa despercebida pelos festivais locais e fica de indicação para um próximo Abril pro Rock.

Disco
“O Amor Acabou” é um disco fácil de digerir. Rock de guitarras altas, cheio de interferência eletrônica, quase como se o Kraftwerk resolvesse tocar hardcore. Apesar do nome, está longe de ser algo “emo”. O amor serve de leitura para as relações sociais, a política e, principalmente, a vontade humana de realizar as coisas. “Os sonhos nascem do marketing”, verso excelente de “A Era Moderna”, é o que melhor representa o texto deste disco. Porrada boa – na orelha – na renovação do repertório rock.

1, 2, 3, Volver!

Volver

Quando o festival Abril pro Rock anunciou inscrições para um concurso de bandas no Recife, Bruno Souto se recusou a participar. Sua banda ainda não tinha completado um ano e já tinha aparecido entre os cinco melhores discos demos do ano no respeitado site da revista e selo Senhor F. “A gente estava no caminho certo, porque pessoas que entendiam de música estavam elogiando. Não queria pensar em perder para alguém naquela hora”. Ele tinha motivo. Meses antes, um outro concurso havia escolhido uma banda para abrir um show dos Engenheiros do Hawaii antes mesmo das finais. Mas seus amigos de banda o convenceram. Ele assinou a inscrição no último dia e, em dezembro de 2004, a Volver era anunciada vencedora.

Difícil pensar que só faz dois anos disso. O que aconteceu deste tempo para cá pode ser contado em flyers e cartazes de festivais. A Volver participou de quase todos os grandes eventos independentes do país. Fechou contrato com a Senhor F e distribuição com a Monstro Discos. Foram convidados para participar lado-a-lado com nomes que já somam década de história, como o Mundo Livre S/A, no tributo a Odair José (Allegro). Entre uma viagem e outra, eles sentaram numa mesa no bar onde ficava o extinto Pina de Copacabana, outrora quartel general do defunto manguebeat, e contaram sua história.

“Mas o release é para isso, né?”; Bruno Souto abre o bom humor da conversa antes mesmo do garçom trazer a primeira cerveja. Antes de virar “a banda mais gaúcha de Pernambuco”, o Volver se chamou Headphone. “Tinha morado cinco anos em Gravatá [interior do estado] e quando voltei para a cidade conheci o Diógenes, que morava na mesma rua que eu em Olinda. A gente fez uma banda chamada Solar da Fossa, que era o mesmo nome de um antigo bar que tinha na cidade alta”.

Antes de voltar a morar na região metropolitana, Bruno já tinha criado o hábito de uma vez por semana vir garimpar CDs. “Lá em Gravatá só tinha uma loja de disco, ficava do lado de um supermercado e só vendia disco de novela, etc”, ri. As músicas da Volver são assinadas por ele, algumas em parceria com o restante da banda. “A primeira que escrevi na vida foi Lucy [faixa seis do disco], já na semana que montamos a Volver”, lembra o vocalista.

Histórias como a da Volver já estão perto de serem patenteadas no franchising das bandas independentes do Brasil. Eles partiram para algo mais sério, chamaram outros interessados e começaram a compor. As influências chegaram na mesma época. “Eu estava ouvindo muito Frank Jorge e Júpiter Maçã”, confessa Bruno. O primeiro show foi num aniversário, dia 20 de março de 2004. “Só tocamos músicas nossas”. Um mês depois, um show da Cachorro Grande no Abril pro Rock, deu a instigação restante para levar a história a sério.

Hoje, a Volver é a voz de Bruno Souto, a guitarra de Diógenes Baptisttella, o baixo de Fernando e bateria de Zeca. “Canções Perdidas Num Canto Qualquer”, o primeiro disco, abre com “Você que pediu” e segue com mais 10 músicas. Referências a jovem guarda e o rock de guitarras saltam a memória em cada segundo. “Mister Bola de Cristal”, “Charminho” e “Não Ria de Mim” são hits fáceis, radiofônicos e atingem nível 10 no efeito chiclete.

Volver

“Quando a gente recebeu o dinheiro do Microfonia [R$ 4 mil], pagamos imediatamente o estúdio para gravar. Só tiramos R$ 20 para pegar um táxi”, conta Bruno. “Nossa vontade era de levar a sonoridade ao vivo o máximo para o disco”, completa. Quem os acompanhou no processo foram os produtores Leo D e William P, do estúdio Mr. Mouse, que virou selo de qualidade nos discos feitos 100% Made in Recife. “Mandamos a máster para Fernando Rosa, do Senhor F, e dois dias depois já tínhamos fechado contrato com eles”.

O disco serviu de passaporte e chave-mestra para os festivais Bananada, Calango (onde eles viajaram um total de 120 horas de ônibus, ida e volta, para tocar por 30 minutos), Goiânia Noise, Porão do Rock e dois Abris pro Rock seguidos. Fora isso, todos os festivais do Recife, além das principais casas de show das cidades que ficam no trajeto do Nordeste até o sul do país. “O massa porque a gente ganha muito em divulgação quando toca fora, os jornais sempre dão algum espaço. Em Brasília, depois do show do Porão do Rock, fomos capa de um caderno de cultura como destaque da noite”.

“Para mim, nosso melhor show foi em Curitiba, com o Relespública”, conta o guitarrista Diógenes. “Lá tem muitos Mods e rockers, quando eles viram nosso show, adoraram, a energia foi muito boa”, concorda Bruno. A banda também já se apresentou em Porto Alegre, terra que virou referência na música que eles tocam. A brincadeira, que foi publicada originalmente num jornal local do Recife, criou eco no país. E aonde chegavam eles passavam a serem chamados da banda mais gaúcha do rock pernambucano.

“Esse rock gaúcho que falam é por causa da influência dos anos 60, que a gente pega muito também, eu sempre fui muito fã da Jovem Guarda”, comenta Bruno. Mas tanto ele, quanto Diógenes, não esperaram chegar à terceira cerveja para entregar o que pensam disso. “Essa história já está enchendo um pouco o saco, quer dizer, ninguém está aqui para revolucionar o Rock’n’Roll, mas estamos fazendo um som que é próprio nosso”.

Prata da Casa
A Volver é, certamente, a banda que tem tido melhor histórico nessa nova cena independente do Recife pós-Mombojó. Nenhuma conseguiu preencher tantos espaços no currículo em tão pouco tempo. Nenhuma tem tido uma atmosfera tão receptiva. “Mas falta muita coisa. Falta a gente se auto sustentar, acho que pouca banda do nosso tamanho consegue viver hoje do próprio trabalho”, comenta Bruno. “No Recife não dá, porque tem poucos lugares para tocar, raramente pagam cachê”.

Volver

É um dos principais motivos para a banda estar arquitetando a mudança de sua base de operações. “Quando você toca em São Paulo, isso costuma repercutir no país, e o contrário não acontece. Tenho certeza que se a Volver passasse dois meses lá, já estaria muito a frente do que está hoje”, avalia. “Os gaúchos também têm esse mesmo problema que nós, estão muito longes do eixo, mas lá eles tem rádios que tocam a música deles e no Recife isso não existe”.

Não é deslumbre. Falar do momento rock independente nacional com a Volver, é ouvir de resposta o nome de suas companheiras de palco. “Recife está muito bem de bandas. Claro que porcaria tem em todo canto, em São Paulo mesmo tem muita”, compara. “Minhas favoritas”, diz Bruno, na promessa de não fazer política, “são Mellotrons, Rádio de Outono, Carfax, Mombojó, Bonsucesso Samba Clube, Eddie, Insites e Superoutro. O que é péssimo mesmo aqui são as bandas de covers do disk MTV”.

No restante da cadeia produtiva da música, a banda também sinaliza para o positivo. “A imprensa do Recife sempre nos trata bem, dos três jornais da cidade, dois deram críticas positivas ao disco. Rádio é complicado, mas a gente ainda consegue tocar nas comerciais, uma vez perdida, num horário louco”.

Meia volta, Volver
Depois de fechar este circuito de festivais, fechar contrato e ganhar menção na edição argentina da revista Rolling Stone, os planos da Volver é recuar de volta até o momento de partida. “A gente está relançando o primeiro disco, agora com nova capa e uma faixa multimídia. Nosso plano é aproveitar para divulgar ele com mais força, agora que as principais capitais já conhecem nosso trabalho”, comenta o vocalista.

“Também vamos ver o que dá nessa gravação do Banda Antes MTV [exibido no dia 31/07], queremos gravar outro clipe, a idéia ainda é trabalhar este disco”, completa o guitarrista Diógenes. “Mas enquanto isso, o segundo disco está sendo composto, claro” diz Bruno Souto. A banda não faz previsões, mas promete um single virtual para ser lançado em breve no próprio site e também no do selo Senhor F. “Já mostramos a música para algumas pessoas e a resposta foi positiva”.

Nesse trajeto de dois anos, as “Canções Perdidas num Canto Qualquer” da Volver foram encontradas, acolhidas e os quatro pernambucanos já podem contar com o elemento mais valioso para uma banda: uma platéia formada. De hits numa festa em Salvador, os aplausos de um público notadamente de hip hop em Natal até o momento de uma conversa perdida em um corredor do Rio de Janeiro, o nome da banda provoca reações. E esses encontros sempre provocam sorrisos, daqueles que observam o rock independente nacional em movimento.

Essa matéria foi publicada originalmente na revista OutraCoisa n.16 | as fotos são da Angela Smaniotto

Cordel do Fogo Encantado: Transfiguração

O trânsito é situação comum na vida do homem. É o processo. Por onde ele passa, absorve referências e se transforma. Para o Cordel do Fogo Encantado, é como ele também se transfigura. E a velocidade desse trânsito já faz de “aguardado” um adjetivo pobre para o novo disco da banda. “Transfiguração” remete suas conversas de lançamentos desde novembro de 2005, quando a lançava seu primeiro registro visual em DVD. E todo esse tempo acumulou ainda mais mudanças, todas traduzidas em 14 faixas.

É fundamental pensar que é desse tempo também a despedida que o mundo físico deu a Manoel Filó; aquele que transformou o sertão em poesia. Não por acaso, ele dele o poema recitado que abre “Transfiguração”, disco que tem encarte em tons azuis, com um homem se transformando em borboleta. Essa oposição estética – até então, as apresentações do cordel eram sempre em vermelho – é o primeiro choque que o disco apresenta. Faz isso com sussurro de calmaria, em composições que são batizadas com dois nomes, lembrando que esta ainda é a mesma banda.

Se a configuração sonora do Cordel do Fogo Encantado ainda não se transformou – continua com três percussões e um instrumento harmônico – o sertão poético introduzido por Filó agora passeia no concreto. “O Sinal Ficou Verde” e “Pedra e Bala” são as maneiras que o vocalista Lirinha encontra para falar sobre as fronteiras entre o bem e o mal. “Nossa vida é feita assim / na estrada”, canta em “Na Estrada (ou Quando Encontrai Dean Pela Primeira Vez)”.

Esse trânsito cosmopolita da banda ainda é sutil. Nas 13 músicas que seguem pelo disco, variando entre um a três minutos cada, permanece a identidade rural e percussiva da banda. Mas existe uma necessidade verbalizada de comunicar novas geografias. E como Lirinha já se mostrou, nos dois discos anteriores, uma grande facilidade em deturpar conceitos, ele faz dessas mesmas geografias uma paródia para o próprio corpo. Em “Louco de Deus (ou Perto de de Você)” ele canta “Perto de Você / Dentro da Tua História / Eu Carrego as Paisagens”.

“Transfiguração” traz essas mudanças por um motivo bem específico. Esse é o primeiro disco realmente musical lançado pela banda. Até então, o Cordel do Fogo Encantado primeiro lançava um espetáculo que tinha preocupação teatral e só depois era gravado. Agora, suas músicas chegam dentro de uma grife. É a da produção do ex-Trama Carlos Eduardo Miranda e Scotty Hard que também produziu o ótimo “Futura” da Nação Zumbi.

Essa troca de papéis entre disco e espetáculo traz o sabor maior deste terceiro trabalho do Cordel do Fogo Encantado. As novas cores, os desenhos que se refazem de acordo com a dobra do encarte e essa paisagem perto do urbano nas letras despertam a curiosidade sobre como essas músicas vão se comportar em palco. É essa necessidade visual que completa o ciclo desta nova experiência.

Escute: Aqui (ou Memórias do Cárcere)

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O Sinal Ficou Verde (ou Além do Bem e do Mal)

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“Vai ser o maior espetáculo do Cordel” - entrevista: Lirinha

Pelo telefone, a voz de Lirinha na ligação de São Paulo chega bem rouca. O Cordel do Fogo Encantado está, no momento, preso entre viagens, preparação de um novo espetáculo e divulgação do CD para imprensa. “A correria é o disco mesmo”, diz entre tosses. “Foi a gente mesmo que fez a opção por essa diferença de lançar o disco antes”, explica. A primeira cidade a conhecer o novo show será o Rio de Janeiro. Recife apenas até na primeira quinzena de outubro. “Temos uma data marcada no dia 6, mas não está fechado ainda”, adianta o vocalista.

Lirinha explica que a influência urbana em “Transfiguração” é uma característica do disco e não da banda. “Talvez poeticamente a gente tenha menos referências de nossa região num sentido geográfico, mas fica impossível apagar nosso tempo de vivência”, se justifica. “A banda tem mais tempo agora que partiu nesse sonho de viver de um projeto artístico, temos um trânsito menos surpreso por cidades como São Paulo e claro que isso tem uma influência”.

Ele adianta pouca coisa do novo espetáculo. O Rio de Janeiro ainda deve ter a oportunidade de ver um show que conta com a participação de BNegão, que também canta em uma das faixas do disco, no mais, segundo ele serão as mudanças de cenário. “Vai ser um mergulho maior nessa fronteira entre o teatro e a música. Acredito que vai ser o maior espetáculo do Cordel”, promete.

Lenine – Acústico MTV

No recém lançado musical “Alabê de Jerusalém”, Altay Veloso faz uma narrativa pessoal para a história de Jesus Cristo. Dois pernambucanos interpretam papéis fundamentais no conto. Um deles é Lenine, vestido como “o ateu”. Veloso diria mais tarde que ninguém seria mais perfeito para o personagem. Essa verdade se potencializa este fim de semana, quando Lenine lança a primeira parte do seu Acústico MTV. Trabalho que começa com o próprio músico desbancando a crença no formato “se o microfone está ligado, não é acústico”.

Sendo mais reflexivo, Lenine lembra que essa imagem do acústico, como uma apresentação de volume mais baixo, tem raízes na sua própria origem. “Acho que era mais um produto diferenciado porque era direcionado para as bandas de rock”. E ele, de novo, desafia as crenças. “Para mim foi mesmo uma oportunidade de evidenciar minha banda e me divertir no processo”, diz, sempre num tom tranqüilo de voz. “Eu me diverti muito”, garante.

Mesmo para alguém que lança o terceiro disco seguido ao vivo, escolher um repertório não pareceu tarefa complicada para Lenine. O acústico dá um tempo nas músicas do anterior InCitté, mas vem recheado dos lugares comuns de sua carreira. “Jack Soul Brasileiro”, “A Ponte” e “Hoje eu Quero Sair Só” pontuam esses momentos. O que impressiona mais são os convidados, como Iggor Cavaleira, Julieta Venegas, Richard Boná e Gog. Mas esses só farão mais diferença para o público quando chegar o segundo momento do projeto, que será o DVD.

A maneira diferente de Lenine fazer acústico – tocando com orquestra e em um tom muito mais alto, quase elétrico – é exemplo fundamental de sua posição hoje na música. Ele é o único artista do Estado que não tem “pernambucano” como adjetivo. Fica cada vez mais difícil demarcar uma geografia nas músicas que ele faz. “É música e ponto. Contemporâneo e ponto”, como ele mesmo bem encerra o assunto.

Entrevista: Coquetel Molotov

Nos próximos dias 1 e 2 de setembro, acontece em Recife a terceira edição do festival No Ar: Coquetel Molotov. É um festival novo, feito por pessoas bastante novas, com um perfil bem específico. O nome é bem sugestivo para o que começou com a intenção de cumprir tabela nas aulas de jornalismo na faculdade e acabou conquistando as freqüências moduladas; e explodiu em um coletivo que é também revista, selo e agora festival.

A atividade do Coquetel é um passo mais significativo na renovação da cena pernambucana. A carência que a região tinha para novidades refletiu na velocidade em que o evento foi bem recebido pelo público e, principalmente, pela imprensa local.
O Coquetel é formado por Ana Garcia, Tathianna Nunes, Jarmeson de Lima e Viviane Menezes. As duas primeiras responderam esse entrevista, específicamente sobre as dificuldades de inserção, legitimação e formação de um novo mercado local.

Overmundo: Quando foi que você teve o estalo da idéia “Preciso fazer um festival”?

Aninha: Quando tivemos a oportunidade de levar o Teenage Fanclub para Recife, aproveitamos para criar um festival. Aí convidamos artistas que gostamos e pensamos em dar o nome de No Ar Coquetel Molotov. Preciso dizer que a inspiração do nome veio do Sonar (Som no ar…) e foi também uma homenagem ao nosso programa de rádio. Mas, bem, antes mesmo do show do Teenage Fanclub, já estávamos escrevendo projetos para o Ministério da Cultura e tínhamos começado a conversar com algumas empresas sobre apoio e patrocínio. Ou seja, queríamos fazer algo com o Coquetel Molotov que fosse além do programa de rádio… Tínhamos criado o site e percebemos que Recife estava realmente aberto, ou carente, a algo com uma proposta um pouco mais inovadora. No fim, eu acredito que a nossa motivação seja igual para todos os nossos projetos – queremos escutar e assistir a bandas que nunca têm a oportunidade de tocarem em Recife e que achamos legais. Eu cresci dentro de uma família musical, então foi fácil aprender a colocar as idéias no papel, mas a produção nós aprendemos na raça mesmo… Ainda está sendo um bom processo!

Tathi: Além de tudo o que Aninha disse, a idéia de construir algo além de um programa de rádio com pessoas queridas (porque antes de produtores e jornalistas, somos amigos de faculdade) sempre foi presente no CM e que cresceu absurdamente quando Aninha resolveu passar uma temporada em São Paulo e o grupo simplesmente precisava se reunir novamente. Acho que o Coquetel teria acabado se tivesse continuado apenas como um programa de rádio.

Overmundo: O que é mais difícil de fazer na produção de um evento do porte do Coquetel?

Aninha: Achamos muito importante fazer as coisas pessoalmente, desde assessoria, fechar os apoios, contatos com as bandas, a panfletagem. Então, a dificuldade está em conseguir produzir um festival com uma equipe com apenas quatro pessoas. Sabemos que não podemos continuar assim por muito tempo porque o festival está crescendo, mas espero nunca perder esse detalhe tão importante. Eu percebo uma diferença muito grande do nosso festival aos outros – que é a atenção que temos com os artistas e com as pessoas que trabalham dentro do evento. Lembrando que a produção de qualquer projeto do Coquetel Molotov sempre envolve várias pessoas, como a Mooz, as bandas, instituições…

Tathi: E tem a questão do apoio. Trabalhamos com um orçamento apertado e isso atrapalha bastante.

Overmundo: O Coquetel são várias mentes pensantes. Algumas com perfis bem diferentes. Como vocês chegam na programação final do evento?

Aninha: Com certeza somos bem diferentes, mas temos uma sintonia incrível e sabemos o que cada um acharia legal dentro de um festival. Então, quando alguém consegue um contato ou fecha uma banda, normalmente todos concordam. Também sabemos um pouco do sonho de cada um, o que é ótimo, assim na hora de escolher os artistas, já sabemos quem chamar. Sabíamos que Viviane estava louca para convidar CocoRosie e coincidiu a vinda das meninas para o festival Mutzi que acabou rolando na mesma época. Eu e Tathi queríamos convidar Tortoise, já Jarmeson fez uma enquete no Orkut e chegou a conclusão que o público queria Júpiter Maçã e Móveis Coloniais de Acaju… Não sei, mas a programação era bem óbvia para a equipe, é algo que não sei explicar… Acho que isso é um resultado do grande convívio que temos e dos nossos projetos.

Tathi: Essa sintonia acaba presente em todos os projetos do CM.. A diferença, aqui, tem ajudado bastante até agora e espero que continue por muito tempo.

Overmundo: Como vocês lidam sendo ao mesmo tempo mídia – a revista e a rádio – produção de festival e também de bandas? Vocês tentam evitar falar / expor sobre o que produzem? Ou a revista/festival serve mesmo de vitrine?

Aninha: Esse ano, tivemos a nossa primeira derrota que foi não conseguir produzir a segunda revista… Acho que falamos demais sobre a segunda edição, criamos uma expectativa, não apenas para os leitores, mas para os músicos e até para nós mesmo, e não saiu. Tem sido algo tão triste que nem gosto de falar muito a respeito… A revista foi um sonho realizado e daremos tudo de nós para que ela saia direito a partir do próximo ano. Como disse anteriormente, acho que o Coquetel Molotov tem muitos projetos e poucas pessoas envolvidas. Pelo fato de não termos lucro nós precisamos trabalhar com coisas não relacionadas ao Coquetel Molotov. Tathi e Viviane ainda estudam e eu sou mãe. Mas eu acho que a revista / festival é uma vitrine, claro, porque já que tudo acaba sendo feito na brodagem, o mínimo que podemos oferecer para esses artistas, seja das artes visuais ou músicos, é uma vitrine.

Tathi: Hmm.. Não consigo separar os projetos do Coquetel. Claro que, por serem muitos projetos dentro de um, um acabe andando mais do que o outro. Mas, sempre que penso e falo no CM, penso no conjunto e por isso não procuro evitar falar e/ou expor o conjunto do nosso trabalho.

Overmundo: Tantos produtos permitem um contato próximo demais com os músicos, que geralmente outros jornalistas não conseguem ter. Consequentemente, um contato com as carências de uma cadeia produtiva. Como vocês se envolvem com essas necessidades do meio musical?

Tathi: É. Realmente é um envolvimento que ultrapassa as barreiras apenas de um contato profissional. Acabamos amigos de músicos e produtores e, assim, dividimos com eles as carências do mercado que anda nos afetando muito. Mas, gosto desse envolvimento. Como Aninha disse anteriormente, esse contato mais pessoal com quem trabalhamos dá mais graça ao negócio e ficamos sabendo de mais fofocas também que é sempre bom.

Overmundo: O Coquetel Molotov faz parte, ou pretende fazer, da Associação Brasileira de Festivais Independentes? O que vocês acham da Abrafim?

Aninha: Não fazemos parte, nunca recebemos um convite e para ser sincera, eu realmente não sei do que se trata. Uma vez convidamos Rodrigo Lariú e Fabrício Nobre durante o Porto Musical para participar do nosso programa de rádio e eles falaram um pouco sobre o assunto, mas achei tudo um pouco contraditório. Ainda estavam formulando as regras, mas já tinham um monte de exceções…

Overmundo: Qual a maior dificuldade que vocês têm, num nível mais pessoal, de se legitimar como um festival? Não falo de dificuldades técnicas, mas coisas com idade, sexo, naturalidade.

Aninha: Com certeza ainda estar na casa dos 20 e ser mulher nessa área produção / jornalismo é complicado… Várias vezes perguntam a nossa idade antes de começar uma reunião… A nossa sorte é que Recife é uma cidade pequena e depois de duas ou três reuniões, eles entendem que somos sérios. Deve ser a minha agenda de florzinha. Mas sinceramente, o nosso problema não é idade e nem sexo, mas sim a falta de uma política cultural séria na cidade.

Tathi: Além do festival, nós acabamos entrando em turnê com os grupos. Tanto o TFC em 2004, tando o Dungen em 2005, ficavam admirados porque duas meninas estavam ocupando o papel de “tour manager”. Acho que eles gostaram de trabalhar conosco.. Pelo menos, foi o que eles disseram. A questão do sexo e a idade a gente passa por cima, o problema de falta de direcionamento na política cultural pesa mais. E, Aninha, no próximo ano vou te dar uma agenda de capa de couro preta.

(publicado originalmente no Overmundo)