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Sinhô Pereira – Rádio de Pilha

Nos últimos dois anos, o rock independente pernambucano que conseguiu destaque foi o que decidiu contestar, mesmo de forma errada, os discursos e sonoridades do manguebeat. Essas bandas foram a frente da programação local de shows, que já encerra 2005 engessada e sufocada, procurando novidades. O próximo ano deve testemunhar uma volta a valores mais próximos do cotidiano da cidade, com boas promessas de novos destaques. O Sinhô Pereira é um nome que vale a pena anotar.

“Rádio de Pilha”, o disco de estréia, chega já descarregando uma experiência de quatro anos de banda. Produção profissional, 100% made in Pernambuco. Um dos raros exemplos onde o dinheiro do Funcultura não é jogado fora com discos locais. Um som forte, cantado em português, “Visão Periférica” já faz valer o CD, com interferências de scratchs de hip hop, guitarras altas e uma voz convidativa às outras 10 faixas seguintes.

A banda ainda experimenta um pouco e mostra potencial para o foco que decidir seguir. “Cidadão Planetário” e “Em Órbita” são exemplos mais compassados se comparados com o geral do disco. Outra que entra nesse time é a que dá nome ao disco. O Sinhô Pereira prefere falar de problemas, mas faz isso fugindo do lugar comum, sem apontar culpados ou dar carão no ouvinte. Fala do ponto de vista deles mesmo, no meio das pessoas. “Nos familiarizaram com a fome”.

Uma das passagens mais curiosas do Sinhô, “Voa Avião”, usa um coro de crianças do Projeto Rebento e Gilmar Vagalume. É, provavelmente, o que mais marca a criatividade da banda. Além do tradicional berimbau e percussão forte, a banda vai além no sax, trompete e batidas eletrônicas. E eleva a décima potência com caixa de café, apito e tonel, misturando com os instrumentos mais tradicionais.

Esse primeiro registro pode ser encontrado na Livraria Cultura e nas lojas Oficina do Som e Flowers. Quem tem pressa de ouvir, fica a dica que a banda coloca todas as músicas na Internet. O endereço é o www.sinhopereira.com.br.

Publicado originalmente em 16.11.05

ViladaFábrica – Terceira Travessa da Linha Férrea

O som da locomotiva nos primeiros segundos de abertura do CD brinca com a foto do encarte, que não casa em nada com o nome da banda. Não tem como ter idéia do que esperar da ViladaFábrica depois que aperta o “play”. Surpresa agradável e até necessária na música do Recife que já começava a ficar previsível demais. “Terceira Travessa da Linha Férrea” é a estréia oficial dessa banda de Jaboatão dos Guararapes que tem um pé forte no Cool Jazz, com uma já tradicional mistura de influências.

Existe um potêncial bem evidente na banda. ViladaFábrica pode ainda não estar no seu formato ideal, mas as 11 músicas que encartam o primeiro disco são uma boa promessa para o som da cidade no próximo ano. Principalmente por essa semelhança fácil com o Jazz mais esperto e swingado. Soa bem nos instrumentais e na voz leve. O pacote fecha com poesia no lugar da letra. Mais surpresas que surpreendem.

O ViladaFábrica escorrega apenas no próprio discurso. Certas horas o texto fica mais pesado e agressivo, não combina com a proposta que a banda mostra no início. Mas, são deslizes pequenos e compensados muito justamente pelo quarteto compensa. Em “Deusa Terra”, quinta da lista, grava “Hay Man” incidental, música do Ave Sangria. A novidade do Cool Jazz é também memória, só para somar pontos para eles.

O primeiro registro já mostra resultados. “Terceira Travessia…” ganhou um prêmio da Associação de Zines de Pernambuco, selecionado entre outros independentes da cidade. Não precisa correr muito para encontrar a música do VilaDaFábrica, o trabalho está espalhado pelas lojas da cidade e a banda começa a participar, timidamente, na programação local.

Publicado originalmente em 08.11.05

Nação Zumbi – Futura

Mais aguardado na música independente nacional do que o resultado da CPI do Mensalão, o novo disco da Nação Zumbi chega nas lojas do País na segunda-feira. “Futura”, que já tinha uma prévia circulando pela Internet no último mês, é o sexto da banda que estava há três anos sem novidade na praça. Período que rodou o mundo, absorveu referências, influências e transformou seu som em pleno palco.

A espera foi longa, mas antes de apertar o “play” é preciso se livrar de qualquer expectativa do que pode ser encontrado nas 12 faixas de “Futura”. O maracatu da Nação Zumbi perdeu uma tonelada, está menos percussivo, mais elétrico e até mesmo eletrônico. O pé, ainda com um cheiro forte de mangue, está fincado agora com muito mais força no dub, numa experiência linear, reflexiva e dançante. Sinais que a banda já mostrava no anterior homônimo.

A expectativa não vale nem sequer para a primeira impressão de “Hoje, Amanhã e Depois”, hit fácil e certo que já é trabalho de divulgação. O que segue no disco está mais contido, melancolico, conduzido de forma elétrica da marcação do baixo e guitarra. Em segundo plano, a percussão é acompanhada por efeitos e rebites eletrônicos que vão de VK7’s, TR808 (teclados sintetizados) a sons de videogames.

O primeiro grande surto vem na faixa sete, “Expresso da Elétrica Avenida”. Puxada por uma batida eletrônica, quase feita para as pistas de dança não fosse o grave da voz de Jorge du Peixe. Dela em diante, o disco fica agitado, com batidas mais fortes, chegando a lembrar os trabalhos anteriores da banda. “Pode Acreditar”, nome da penúltima música, é a palavra de ordem para “Futura”. Nação Zumbi surpreende, tirando o excesso regional do rock pernambucano.

Na sua fase mais psicodélica, a Nação Zumbi não só deu um tempo na batida do maracatu, como também dosou os instrumentos. “É um pouco da técnica do gringo que está trabalhando com a gente. Ele já tinha feito um pouco disso no anterior, só que agora ele estava com a gente desde o início”, explica o baixista Dengue, em referência a Scott Hardy.

“A gente procurou fazer umas levadas mais livres, não está mais preso a um certo regionalismo”, comenta. Depois de três anos na estrada, fazendo o show do DVD, ele reflete que esse é, provavelmente, o disco mais pensado por toda a banda. “A gente teve tempo de conversar bastante, na hora que entrou em estúdio ainda conversou mais. E isso fez uma diferença muito grande no ‘Futura’”.

Dos planos da banda para esse disco, ficou de fora o sampler com um discursso de Che Guevara, porque a gravadora não conseguiu os direitos do áudio. “Foi um discurso antigo que ele fez em Cuba, algum universitário acabou prensando em vinil. Precisamos tirar em cima da hora para não perder a música”, lembra. Agora, a banda prepara a turnê de divulgação de “Futura”, que deve chegar no Recife em dezembro.

Publicado originalmente em 12.10.05

Caju & Castana – Embolando o Futebol

Faz cinco anos que a dupla Caju e Castanha não se apresenta no Recife. Mas se faltam convites na sua cidade natal, sobram pessoas na fila ao lado de fora das casas de shows lotadas que os emboladores se apresentaram em Londres semana passada. E para encerrar com o jejum de quem não pode investir numa viagem ao exterior, ou mesmo outro estado, eles lançam agora seu primeiro DVD, ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo.

Apesar do disco novo, “Embolando o futebol”, lançando em abril, o repertório do show é centrado principalmente na carreira da dupla. Onze músicas que reúnem os sucessos mais fáceis de lembrar dos dois. “A Mulher do Corno Rico e a do Corno Pobre”, “Ladrão Besta e o Sabido” e outras que ganharam rádios, comerciais de TV e uma geração inteira de emboladores que começam sua carreira igual a Caju & Castanha, nos ônibus da cidade.

O mais surpreendente no vídeo, entretanto, passa bem longe da seleção de músicas. Quem está a tanto tempo sem ver uma apresentação da dupla vai se surpreender ao ver como os dois cresceram no palco. Não falta produção para o Caju & Castanha, que agora tem no palco banda, cenário, figurino, coreografia e tudo mais que tem direito. Chega a custar a acreditar que a simplicidade dos dois no palco só multiplica o efeito visual do show.

Além do show, o DVD acompanha ainda um documentário com imagens da dupla feitas ainda na época que os dois começavam ganhar atenção do Brasil, aos cinco anos de idade. Mostra a trajetória passando pelos momentos altos e baixos, do falecimento de Caju e da substituição pelo seu sobrinho Cajuzinho. Vêm também com o curta “Caju & Castanha contra o Encouraçado Titanic”, dirigido por Walter Sales e que vai virar um longa em breve.

Somado aos últimos trabalhos da dupla, o DVD é mais um puxão de orelha na produção local que ignora a presença de Caju & Castanha mesmo durante o São João. A promessa é que o show de lançamento acontece no Recife, evento confirmado pela Fundação de Cultura de Pernambuco (Fundarpe), mas ainda sem data certa.

“Levam todo mundo, só não levam a gente”. Castanha, arquiteto de toda carreira da dupla de embolada que faz com Caju, não está reclamando. “Somo sempre muito bem recebidos no sudeste, agora até fora do País, mas Recife faz cinco anos que eu não faço show”. Provavelmente os principais divulgadoras da cultura pernambucana hoje no Brasil e fora dele, capa dos jornais na Europa, eles continuam de fora da extensa programação festiva da cidade.

“Eu adoro minha cidade, ainda vou voltar a morar nela”. Caju & Castanha estão morando hoje em São Paulo, onde montaram sua produtora e até estações de rádio na maior cidade do País. Trajetória comum para os músicos locais hoje, mas com a diferença de uma modéstia e simplicidade que chega encanta. 2005 é, sem dúvidas, o ponto mais alto na carreira deles, que acabam de voltar da temporada feita durante a semana de Pernambuco no Ano do Brasil na França.

“De lá a gente foi em Londres, Amsterdã, shows com 22 mil pessoas assistindo a gente”. A temporada encerrou com a notícia da participação da dupla na premiação do Grammy Latino. Não deu sequer tempo de comemorar. Caju & Castanha voltaram direto para o estúdio, onde fizeram toda a trilha sonora para a nova temporada da série Cidade dos Homens, da Rede Globo, e já começam a planejar o retorno a Europa.

Tudo isso e ainda uma agenda de entrevistas para todo o Brasil durante a semana, não abalam o bom humor de Castanha, que não se engana. “Ta na hora de tirar a cobra do poço e chamar o Caju & Castanha para tocar”. Todo esse sucesso não esconde a vontade que a dupla tem de voltar a tocar em casa, momento que ainda não aconteceu pela simples falta de convite.

Publicado originalmente em 10.10.05

MTV Apresenta Otto

De braços abertos em pose de cristo, usando uma manta bege, colares e seu tradicional óculos escuros, Otto coloca Pernambuco no mapa do projeto “Apresenta” da MTV. O show-DVD, gravado no Avenida Club, em São Paulo, deve entrar como uma das peças mais ambíguas da carreira do cantor. Ambígua porque existem duas maneiras bem claras de se ver o material, uma apenas como show, outra como DVD para guardar em casa. E uma delas não é uma opção muito boa.

Com alguns dos melhores talentos do Recife no palco, este “Apresenta” é, provavelmente a melhor configuração de show que Otto já fez até hoje. De longe um dos melhores repertórios, onde ele emplaca alguns sucessos esperados (“TV a Cabo” e “Bob”) e também músicas que nunca entraram nas suas apresentações (nada inédito, no entanto). Também apresenta, sem trocadilhos, um Otto que está extremamente a vontade com seu lado favorito da música, que é a percussão. São quatro batuqueiros no palco.

A seqüência de abertura do show é tão bem escolhida que deveria ser usada ao vivo por, pelo menos, um semestre inteiro de apresentações. “Anjos do Asfalto”, “Lavanda” e “Tento Entender” é Otto em sua melhor forma. Em alguns momentos para de cantar, se junta a percussão e quase entra em transe. Um dos poucos músicos nacionais que consegue transmitir uma inocência grande no palco, ele consegue fazer esse transe contagiar.

Mas do ótimo, o DVD “Apresenta” cai para o regular no quesito imagem. O show usa o mesmo formato de cenário escuro, valorizando certas cores, usado no recém lançado Simoninha canta Jorge Ben, que chega desgastado pela repetição. Mostra também um público que responde pouco as músicas, não dança, não mostra comoção. Em certo hora, num momento de refrão de música, a câmera vira para mostrar a desnecessária cena de um grupo de amigos bebendo próximo ao palco.

E é provavelmente este dedo da MTV que deixa o disco tão subaproveitado. As câmeras são muito pouco a nada ousadas, com uso excessivo de plano americano (aquele que filma da cintura até a cabeça) no músico. Um contraste enorme, por exemplo, ao DVD da Nação Zumbi, que é rico em arte e planos criativos. Além de cenas desnecessárias, como a esposa de Otto, que é filmada mais de três vezes. A salvação vem no único extra, uma entrevista com cenas interessantes de ensaio.

Publicado originalmente em 23.07.05