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A Reação é real

“Febre Confessional” é o nome do terceiro disco da banda Reação em Cadeia. O primeiro pela gravadora Deckdisc, agora com alcance nacional. Ele sugere aquele estado enfermo onde a temperatura do corpo provoca o cérebero a dizer apenas verdades. O batismo foi ideal para o trabalho. Apesar da bem sucedida carreira da banda no sul do país, existe uma grande resistência da parte da imprensa em aceitar a consagração nacional dela. Mas a cada show, sempre com as melhores respostas de público, a banda espalha essa doença. A febre força a confissão do sucesso do grupo. A reação em cadeia é de fato real.

Não existe um motivo claro para essa resistência da mídia. No geral, são feitas associações com bandas similares americanas. É uma das situações que deixam óbvio que a imprensa gosta de classicar algo como ruim, mesmo sem nenhum parametro real. Na primeira vez que a banda veio ao Nordeste, no festival Música Alimento da Alma (o Mada), disputou com o Cansei de Ser Sexy, de São Paulo, o pré-título de desastre da noite. Ambas tiveram o melhor público, com direito a fila para autografo. A febre também forçou confissões nos bastidores, quando todos se admitiram errados.

Em Porto Alegre, de onde vem a banda, a febre já fez sua cura. “A gente toca lá sempre para uma média de 3500 pessoas, o primeiro disco vendeu 150 mil cópias”, comenta o vocalista da banda, Jonathan Correa, 25 anos. Para deixar a proporção clara, um disco independente costuma sair com tiragem única de mil cópias e o festival Abril pro Rock concentra, nos shows do domingo, mesmo número de público.

Mas mesmo com essa resitência, o sucesso do Reação – e o eventual crescimento desse sucesso – não é de surpreender. O rock deles é radiofônico ao extremo. O timbre de Eddie Vedder, do Pearl Jam; a pegada do Stone Temple Pilots; e um visual que mistura tudo isso com um pouco de Creed. É essa última banda quem também faz o público mais adolescente se esforçar para ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo na frente do palco.

O Reação em Cadeia começou em 1999, quando Jonathan convidou os amigos para fazer uma banda cover. “Gravamos uma demo, saimos jogando as músicas em tudo que era lugar, na época a idéia era fazer um projeto em inglês”, lembra o vocalista. O idioma importado realmente combina mais com o tipo de som que eles fazem, mas “Febre Condicional” tem 11 músicas todas cantadas em português. Porto Alegre não tem muita tradição na música pop nacional, mas Jonathan destaca nomes que valem a pena procurar na Internet, “a banda Vincent, que lembra um pouco o Coldplay, e a Magma, que faz a mesma onda da gente”.

Se jornais e revistas ainda ignoram o efeito do Reação em Cadeia, a banda pode ficar tranquila de conquistar espaços muito mais importantes. O primeiro é o público, insubstituivel. O segundo é a execução em larga escala que tem tido na MTV e em rádios nacionais, como a Transamérica. O processo para o sucesso ainda é lento. Similar com a Pitty, que está na mesma gravadora deles. Dura alguns anos e talvez outro CD, mas deve acontecer sim cedo ou tarde.

Disco
De fato, associações é o forte do disco “Febre confessional” do Reação em Cadeia. Passear pelas faixas é puxar na memória algumas bandas do grunge do começo dos anos 90, como o já citado Pearl Jam. A embalagem polida e pop dos arranjos deixa mais forte ainda a semelhança desse “rock do vozeirão” da parada da MTV. A banda não procura sua própria estética, mas também não ofende. Nas 11 músicas, grudam na cabeça “O Jantar”, que abre o disco e “Me Deixe em Paz”. O CD acompanha ainda uma faixa multimídia, com um simpático making of da gravação.

Reação em Cadeia – Febre Confessional
Gravadora: Deckdisc
Preço: R$ 25

Nação Zumbi – Futura

Mais aguardado na música independente nacional do que o resultado da CPI do Mensalão, o novo disco da Nação Zumbi chega nas lojas do País na segunda-feira. “Futura”, que já tinha uma prévia circulando pela Internet no último mês, é o sexto da banda que estava há três anos sem novidade na praça. Período que rodou o mundo, absorveu referências, influências e transformou seu som em pleno palco.

A espera foi longa, mas antes de apertar o “play” é preciso se livrar de qualquer expectativa do que pode ser encontrado nas 12 faixas de “Futura”. O maracatu da Nação Zumbi perdeu uma tonelada, está menos percussivo, mais elétrico e até mesmo eletrônico. O pé, ainda com um cheiro forte de mangue, está fincado agora com muito mais força no dub, numa experiência linear, reflexiva e dançante. Sinais que a banda já mostrava no anterior homônimo.

A expectativa não vale nem sequer para a primeira impressão de “Hoje, Amanhã e Depois”, hit fácil e certo que já é trabalho de divulgação. O que segue no disco está mais contido, melancolico, conduzido de forma elétrica da marcação do baixo e guitarra. Em segundo plano, a percussão é acompanhada por efeitos e rebites eletrônicos que vão de VK7’s, TR808 (teclados sintetizados) a sons de videogames.

O primeiro grande surto vem na faixa sete, “Expresso da Elétrica Avenida”. Puxada por uma batida eletrônica, quase feita para as pistas de dança não fosse o grave da voz de Jorge du Peixe. Dela em diante, o disco fica agitado, com batidas mais fortes, chegando a lembrar os trabalhos anteriores da banda. “Pode Acreditar”, nome da penúltima música, é a palavra de ordem para “Futura”. Nação Zumbi surpreende, tirando o excesso regional do rock pernambucano.

Na sua fase mais psicodélica, a Nação Zumbi não só deu um tempo na batida do maracatu, como também dosou os instrumentos. “É um pouco da técnica do gringo que está trabalhando com a gente. Ele já tinha feito um pouco disso no anterior, só que agora ele estava com a gente desde o início”, explica o baixista Dengue, em referência a Scott Hardy.

“A gente procurou fazer umas levadas mais livres, não está mais preso a um certo regionalismo”, comenta. Depois de três anos na estrada, fazendo o show do DVD, ele reflete que esse é, provavelmente, o disco mais pensado por toda a banda. “A gente teve tempo de conversar bastante, na hora que entrou em estúdio ainda conversou mais. E isso fez uma diferença muito grande no ‘Futura’”.

Dos planos da banda para esse disco, ficou de fora o sampler com um discursso de Che Guevara, porque a gravadora não conseguiu os direitos do áudio. “Foi um discurso antigo que ele fez em Cuba, algum universitário acabou prensando em vinil. Precisamos tirar em cima da hora para não perder a música”, lembra. Agora, a banda prepara a turnê de divulgação de “Futura”, que deve chegar no Recife em dezembro.

Publicado originalmente em 12.10.05

MTV Apresenta Otto

De braços abertos em pose de cristo, usando uma manta bege, colares e seu tradicional óculos escuros, Otto coloca Pernambuco no mapa do projeto “Apresenta” da MTV. O show-DVD, gravado no Avenida Club, em São Paulo, deve entrar como uma das peças mais ambíguas da carreira do cantor. Ambígua porque existem duas maneiras bem claras de se ver o material, uma apenas como show, outra como DVD para guardar em casa. E uma delas não é uma opção muito boa.

Com alguns dos melhores talentos do Recife no palco, este “Apresenta” é, provavelmente a melhor configuração de show que Otto já fez até hoje. De longe um dos melhores repertórios, onde ele emplaca alguns sucessos esperados (“TV a Cabo” e “Bob”) e também músicas que nunca entraram nas suas apresentações (nada inédito, no entanto). Também apresenta, sem trocadilhos, um Otto que está extremamente a vontade com seu lado favorito da música, que é a percussão. São quatro batuqueiros no palco.

A seqüência de abertura do show é tão bem escolhida que deveria ser usada ao vivo por, pelo menos, um semestre inteiro de apresentações. “Anjos do Asfalto”, “Lavanda” e “Tento Entender” é Otto em sua melhor forma. Em alguns momentos para de cantar, se junta a percussão e quase entra em transe. Um dos poucos músicos nacionais que consegue transmitir uma inocência grande no palco, ele consegue fazer esse transe contagiar.

Mas do ótimo, o DVD “Apresenta” cai para o regular no quesito imagem. O show usa o mesmo formato de cenário escuro, valorizando certas cores, usado no recém lançado Simoninha canta Jorge Ben, que chega desgastado pela repetição. Mostra também um público que responde pouco as músicas, não dança, não mostra comoção. Em certo hora, num momento de refrão de música, a câmera vira para mostrar a desnecessária cena de um grupo de amigos bebendo próximo ao palco.

E é provavelmente este dedo da MTV que deixa o disco tão subaproveitado. As câmeras são muito pouco a nada ousadas, com uso excessivo de plano americano (aquele que filma da cintura até a cabeça) no músico. Um contraste enorme, por exemplo, ao DVD da Nação Zumbi, que é rico em arte e planos criativos. Além de cenas desnecessárias, como a esposa de Otto, que é filmada mais de três vezes. A salvação vem no único extra, uma entrevista com cenas interessantes de ensaio.

Publicado originalmente em 23.07.05

Nine Inch Nails – With Teeth

Poucas bandas têm a competência do Nine Inch Nails para soar depressiva sem que o som pareça rasteiro ou bobo. Qualidade que o grupo liderado por Trent Reznor não perdeu em “With Teeth”, sexto disco que chega agora nas lojas brasileiras. A verdade é que hoje (a banda estava há seis anos sem gravar), já não se precisa de tanto esforço para isso. Se prestar atenção, o legado deixado por eles se resume ao pop gótico pouco convincente do Evanescense e afetado de Marilyn Manson (referências que destacam a importância de se ouvir este novo disco).

São 13 músicas, que marcam a fase mais calma da banda. Estão presentes todas as fases da banda, desde o industrial ao eletrônico, tudo dosado ao excesso. No fim da equação, o resultado é mesmo a voz de Reznor, única coisa que permanece imutável na banda. Aliás, voz e texto, já que o discurso do Nine Inch Nails, ainda bem, não se alterou. O disco abre com a distorcida “All the Love in The World”, que esconde as remixagens que dão o tom das outras músicas.

O segundo ponto alto é quando Dave Grohl, do Foo Fighters, aparece na bateria de “You Know What You Are?”, trazendo energia que também se confunde com o que está por vir. Por um triste acaso, as duas músicas abrem o repertório, o que pode enganar um pouco a primeira impressão do CD. De resto, “With Teeth” é disco médio, bom de ouvir, mas que adiciona muito pouco para quem é fã ou quer conhecer a banda. Principalmente no cenário de bandas como Linkin Park, responsáveis por grande parte do novo público que precisava de um lançamento desses em sua coleção.

Assim, Nine Inch Nails perde a oportunidade de educar essa nova geração para assumir uma posição de “velhos” e “exóticos”, desses que todo mundo vai procurar escutar para poder dizer que está naquela desde o começo. O que reforça a questão de exigência. Para quem estava há tanto tempo sem dar as caras, se esperava, pelo menos, algo no mesmo nível. Talvez por medo da associação com essa nova fase do rock industrial, Trent Reznor volta tímido e até mesmo cansado.

Morrisey – Live at Earls Court

Já fazem 18 anos que o The Smiths acabou, mesmo tempo que o vocalista e líder Morrissey tem de carreira solo. Números que, mesmo somados, não deixam sua música datada. Um dos últimos representantes vivos e atuantes de uma época onde a afetação e envolvimento eram necessárias para uma boa canção, ele lança seu segundo disco ao vivo, “Live at Earls Court”, que chega no Brasil pela Sony/BMG.

Não é o mesmo show do DVD “Who put the M in Manchester”, que foi lançado há poucos meses. Apesar da apresentação fazer parte da mesma turnê, o disco chega com um repertório diferente. Abre com “How Soon is Now”, do The Smiths e mostra vários momentos da carreira de Morrissey, incluindo algumas versões raras.

Além dos instrumentos da banda, aparecem no CD o grito conjunto de 17.183 pessoas, número de presentes no show. E eles estão lá o tempo todo, gritando quase em desespero no começo de faixas como “Bigmouth Strikes Again”. Nesta, por sinal, Morrissey muda a letra mais uma vez. Ele aproveita a versão que o Placebo fez, trocando a palavra “Mega Drive” por “Discman”. Mas como a vida da tecnologia é mais curta, ele brinca “e agora eu sei como Joana D’arc se sentiu quando seu iPod começou a derreter”.

A maior falta do DVD é, provavelmente, a versão de “My Way”, de Frank Sinatra, que ele fez em vários palcos da turnê. Ele encerra com uma música da antiga banda, “Last Night I Dream’t that Somebody Loved Me”, num clima de fim de festa arrasada, com uma boa porção de gente já perto do choro.

Publicado originalmente em 06.07.05