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White Stripes – Get Behind Me Satan

Se depender de “Get Behind Me Satan”, quarto disco do White Stripes, podem começar a institucionalizar o fim do baixo, instrumento que não faz mais a menor falta na química da dupla. Os irmãos Jack e Meg White fizeram uma trajetória curtíssima do primitivo “De Stijl” ao excelente “Elephant”, mas chegam agora ao exagero do primoroso nesse, que vem para lavar a alma dos lançamentos “mais ou menos” que chegavam nas prateleiras.

Apesar de toda atmosfera macabra na identidade visual do CD, “Get Behind Me Satan” é, na verdade, uma referência bíblica ao popular “vade retro”. Frase que Jack White grita repetidamente, competindo com os pratos da bateria da irmã em “Blue Orchid”, primeira música de trabalho e o único hit de festa que o disco traz. Quem procurava a bandas apenas atrás desse lado mais farofa, pode se decepcionar, mas a identidade das músicas é muito mais calma.

A partir de “The Nurse”, impera um White Stripes mais contido, em muitos momentos com mais importância para o teclado que na guitarra. É inevitável não pensar num clima de garagem presente no disco em faixas como “Little Ghost” e “Instinct Blues”. Por sinal, a assinatura da produção do disco é do próprio Jack White, feito inédito já que poucas bandas conseguem chegar no quinto disco com tanto sucesso garantido e, ainda assim, continuar lançado por um selo.

Diz o boato que Jack White quer, com esse disco, marcar uma nova fase. O “vade retro” é para a época onde ele quase deformou a cara de outro músico durante uma briga. Se não conseguir lavar a alma no pessoal, “Get Behind Me Satan” com certeza pode ser visto como um ponto de virada para a banda. White Stripes não traz mais do mesmo, coloca o prestígio em risco para lançar no mercado um trabalho mais autoral.

E sai bem-sucedido. Com menos de um mês nas lojas, o CD já ganhou disco de ouro em vendas e, se manter o rimo, deve chegar na platina com menos de um semestre. A banda pode dar um tempo no repertório das festas, mas consegue ganhar um público bem mais importante, aquele que prefere comprar o original que baixar a música pela Internet.

Publicado originalmente em 06.07.05

Matanza: To Hell With Johnny Cash

Antes de ouvir o disco novo do Matanza, é preciso entender que a banda é o tipo de grupo de rock que o Brasil precisa. Eles fazem o tipo Motorhead, com a pose, roupas, bigodões e um som meia boca que gruda feito chiclete. O tipo de coisa que a MTV pode apresentar para lavar as mãos dizendo que dá atenção a alguma vertente underground do rock nacional. A banda fez uma homenagem ao cantor country Johnny Cash num produto bem interessante, metade CD, metade DVD.

“To hell with Johnny Cash” são 13 músicas com o vocal rouco puxado do sul dos estados, com a distorção de guitarra dando nova roupagem. Em certos momentos, até a bateria acelera em ritmo hardcore fazendo a mistura ficar mais estranha. São canções rápidas, dessas que fazem voltar uma faixa ou outra para ouvir de novo os trechinhos que ficam na cabeça com facilidade.

Os fãs de Cash vão sentir falta de algumas músicas. “Cocaine Blues”, por exemplo, é uma das canções perfeitas para acelerar no rock’n'roll. Além da clássica “Walk the Line”, que também ficou de fora. Bom mesmo acaba sendo “I Got Stripes”, que encerra o disco. A seleção ficou mais direcionada para o fã obsessivo, que conhece todas as músicas perdidas. Talvez o disco ficasse mais divertido se fosse uma doutrina rock para o country.

Dentro do que se propõe, o Matanza faz um som competente. E eles existem num cenário bem conveniente para atingir essa competência, já que outras bandas do porte dificilmente conseguem qualquer destaque no país. As músicas, todas em inglês, estão bem distante da idéia de inferno que traz no nome e capa e lembram muito o mote do disco anterior da banda, chamado “músicas para beber e brigar”.

Nesse cenário Harley Dayvidson, o Matanza se destaca muito mais pela atenção que a banda dá ao mercado que pelo próprio som. O disco de mídia dupla, lançado pelo selo Deckdisc se mostra uma opção bem interessante para evitar problemas com pirataria. Infelizmente, afeta muito o preço do produto final.

Publicado originalmente em 20.06.05

Cachorro Grande: Pista Livre

A banda Cachorro Grande, do Rio Grande do Sul, não podia ter escolhido nome melhor para o novo disco, “Pista Livre”. Existe hoje uma certa cumplicidade nacional para que eles se transformem na próxima grande banda de rock do País, da parte tanto dos produtores como da mídia. O momento é o mais oportuno, já que este é o primeiro a ser lançado por um selo de distribuição nacional, que chega com um prêmio Tim de melhor banda independente no bolso.

Com produção de Rafael Ramos, o mesmo que levantou a moral de Pitty, “Pista Livre” mostra um Cachorro Grande diferente do conhecido pelos dois primeiros discos da banda. O som afogado em influências sessentistas continua, assim como os terninhos e boinas no visual dos rapazes, mas agora com um som bem mais nítido, mostrando qualidade de gravação bem superior. Mesmo no disco anterior, lançado pela revista Outracoisa, a produção deixava muito a desejar.

O baixo bem amarrado chega até a ganhar destaque da guitarra Rickenbaker ligada a amplificadores valvulados, instrumentos datados que são assinatura da Cachorro Grande. Em entrevista por telefone, o vocalista Beto Bruno explica que essa evolução foi bem natural para a banda. “Gostamos de bandas que sempre mostravam uma diferença grande entre discos, como o Beatles. Achamos legal seguir a mesma linha”.

As músicas estão mais tranqüilas e menos gritadas do que o Recife conheceu na apresentação do Abril pro Rock em 2003. Momento que, segundo Beto, vai demorar a sair da memória da banda. “Eu preciso voltar urgentemente para o Recife e tomar um caldinho de Sururu! Não sei como estou conseguindo viver sem isso”, brinca. Piadas a parte, o show aqui foi o primeiro publico que a banda conheceu que já sabia cantar as músicas deles.

Das 13 faixas, se destaca “Novo Super-Herói”, uma auto-referência que o Cachorro Grande faz. Na letra, um cara que “tocava numa banda tipo anos 60, comprou uma guitarra e andava de lambreta”, é também a mais agitada, que dá sinais que o “clima de lado b” da banda ainda vai demorar a ir embora.

Publicado originalmente em 06.06.05

Kings of Leon: Aha Shake Heartbreak

Se as lojas de discos fossem perfeitas e as prateleiras descrevessem o gênero ideal das músicas, “Aha Shake Heartbraker”, novo disco do Kings of Leon, estaria na seção “trilhas sonoras para uma tarde longa”. A reunião de guitarras e baixos repetitivos, em clima do retrô-moderno em alta (The Strokes, White Stripes, etc), não pode ser apreciada às pressas ou correndo pelas faixas. Segundo disco do quarteto de irmãos americanos mostra que eles agora estão muito mais seguros onde pisam, o rock’n’roll cru que conquistou as paradas da MTV.

“Slow Night, so Long”, música que abre o disco, vende o material de cara. Tem a velocidade certa, com a repetição dos instrumentos em volume altíssimo, superado apenas pela voz de Caleb Followill. Mas, já na próxima, “King of the Rodeo”, a banda entrega que este ainda não é o disco da novidade. Assim como o primeiro “Youth & Young Manhood”, eles continuam forte nas notas puxadas do rock sulista americano.

Apesar de transparecer uma qualidade que dificilmente é atribuída a um grupo com faixa etária média de 22 anos (eles soam bem mais velhos), o disco tem seus momentos baixos. Duas faixas, “Milk” e “Day Old Blues” mostram que o Kings of Leon não tem potencial para ser melancólico. Bem destoante do restante do CD, as músicas comprometem o trabalho final, mas estão longe de mostrar uma tendência futura da banda tentar mudar de identidade.

A falta de novidade aqui cai bem melhor como uma demonstração de estabilidade. O susto do primeiro disco do Kings of Leon foi tanto que as previsões eram duas: salvação da música ou carreira curta. A passos curtos, eles preferiram aproveitar ainda o clima de receptividade positiva e gravar um disco modesto o suficiente para não passar despercebido.