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Coquetel Molotov 2007

Esse deve ser meu ano mais relapso com o Coquetel Molotov. Fiz cobertura dele desde a primeira edição (o que não é muita coisa, já que esta ainda é a quarta), mas minhas férias do jornal cairam justamente em setembro. Não tive muito peso na consciência ao chegar tarde, exceto pelo fato que perdi o show do Fóssil, na sala da UFPE. A primeira banda, Backstages, nem tocou porque o baterista faltou. “Esse seria nosso último show, mas acho que agora será o nosso último show sem ele”, me disse Kleber Crócia, com uma cara de desanimo enorme.

A sala Cine UFPE, o cubículo onde acontecem os primeiros shows, sempre me passa uma incomoda sensação claustrofóbica. Me surpreendo como fica lotada de gente se apertando, sentando no chão e se encaixando onde mais dá. Só depois do show do Elma, que eu não aguentei mais que duas músicas, deu para ter idéia como o lugar tava cheio. Ainda não sairam os números, mas acho que esse ano já é a sexta-feira com mais gente que o festival já teve.

Fui ver o show da Volver, que não tocava no Recife desde o Carnaval, lá na primeira fila. Foi bem legal. Todos bem entrosados (a última vez que vi, em Natal, todos andavam meio distantes), só gostei mais do meio para o final, quando eles se empolgaram e aceleraram mais. É divertido no Coquetel ver as bandas daqui tocando em palco tão grande, com um som e acústica tão boa. Apesar de quem sentou atrás disse não ouvir nada da bateria, para mim soou ok. Me espantei como o público reagiu tão bem as músicas novas, ainda desconhecidas. Depois descobri que não era mérito da Volver, mas sim do público do festival, que estava super receptivo à novidades. Tomara que tenha dando pique para a banda voltar a aparecer mais, porque o próximo disco deles, que deve sair só no Carnaval, está muito, muito bom mesmo.

O show do Supercordas foi uma bosta. Não por culpa da banda, mas da técnica de som. Os microfones todos estavam estourando o tempo inteiro, deixando impossível entender o que os caras diziam. Acho que fiquei mais triste porque era a minha grande expectativa para a noite, quem eu mais queria ter visto e acabei saindo no meio. Pelos vídeos, as apresentações deles parecem bem legais, merecem retratação! =)

Eu confesso que sempre fui meio cético com essa Invasão Sueca (como assim, Suécia?). O Love is All me deixou menos chato em relação a isso. Foi surpreendente. Todo mundo dançando até do lado de fora do teatro! As músicas ajudaram, eram divertidíssimas. Deve ter sido a banda mais pop daqueles lados que o Coquetel Molotov já trouxe para cá. Tinha uma espécie de Barbara Jones suéca no palco que deixou todo mundo meio louco. Não foi apenas o melhor show da noite, foi também top 3 melhor de todas as edições do festival.

Deve ser divertido trazer uma banda que ninguém conhece na cidade e, de repente, ver todo mundo fã devoto dela.

Apesar de curtir muito bandas que tem formação totalmente esquista, o show do Prefuse 73 foi mais difícil de acompanhar. Era um bateristas e mais dois teclados (que certos momentos também se dividiam em mixers e samplers). Lembra um Ratatat mais simples e com mais elementos de Hip Hop. Foi bem bom, mas acho que funciona melhor em ambientes mais fechados, com todo mundo dançando. Naquele espaço que era o teatro, ouvir sóbrio mais que quatro músicas era uma tarefa complicada.


Recebi um monte de CDs. Novo single do Telerama, “sem ter amor”; a coletânea Ceará Original Soundfashion, o novo EP do Amps&Lina e um CD-R de umas bandas de, acho, Maceió. Os nomes das bandas já são fantásticos: My Midi Valentine e Super Amarelo. Quando ouvir tudo com calma organizo aqui direito as idéias.


Tive um treco ali na banquinha da Reverb City. As camisas mais legais de todas por um preço meio salgado (R$ 35). Fiquei com vontade de comprar umas 30, além de todos os bottons. Pelo bem do meu bolso, não tinha mais nenhuma do meu tamanho na hora que eu perguntei. Quem for ver Nouvelle Vague, vá preparado para sair com sacolas na mão.


O Karaokê indie montado pela Tim foi a coisa mais fantástica que vi lá na primeira noite. Sorte minha que eu não bebi (muito) e fiquei só assistindo.

Rock no interior

Aproveitando os recém completados 150 anos da cidade de Caruaru, vale parabenizar o trabalho feito pelas seletivas do festival Pe no Rock. Se já é difícil para as bandas da capital aparecerem num ambiente sem espaços para shows, rádio e agora também sem televisão, para quem está distante do centro das atenções é ainda mais complicado. Por isso, conseguir destacar tantos nomes de Garanhuns, Caruaru, Lajedo e até do Quilombola Castanhinho, já  pode ser uma vitória cantada pela produção antes mesmo do evento acontecer.

Mas ainda permanece a crítica sobre as atrações escolhidas para as duas noites do evento. Marcelo Nova faz apenas uma reprise do falecido discurso “voltamos pelo dinheiro”, que ficou cansado no dia seguinte que foi pronunciado por Johnny Rotten, do Sex Pistols. O festival poderia aproveitar para trazer nomes mais honestos, próximos dessa proposta de apresentar novidades na região. Não precisa esticar muito o pescoço para enxergar bons nomes que já fazem história nos estados vizinhos.

Novos espaços
Por falar em rock, bandas e produtores estão conseguindo conquistar, aos poucos, novos espaços na cidade. O Downtown e o UK Pub começam a sair da lista de “point de balada” para figurar nos endereços de quem realmente gosta de música. Resta torcer para que os donos dessas casas saibam valorizar essa ótima mudança.

Shows
Otto, que já está terminando de gravar o novo disco – agora 100% independente, ele comprou um laptop e fez tudo sozinho – se apresenta quinta-feira no projeto MPB Petrobras. Um dia antes, o sempre ótimo guitarrista Big Joe Manfra toca seu blues no UK Pub. Na virada do mês, os lendários The Gladiators voltam ao Recife.

Nordeste Independente

A articulação virtual Nordeste Independente é uma das poucas boas idéias nacionais que envolvem Internet e música. Uma idéia que, por sinal, ainda tem poucos, mas significativos, participantes do Recife. Em poucas palavras, é um espaço para músicos, produtores, jornalistas e interessados em geral trocarem idéias, fecharem shows e festivais, montarem novos sites, etc.

Um exemplo prático, bandas do mesmo gênero costumam fechar turnês entre as cidades vizinhas, descolando as vezes até hospedagem. Ou, o que é mais importante, dividindo o cachê de uma atração de peso nacional para dar força aos shows. Conseguem também distribuição e parcerias para vender discos em outras cidades.

No momento, o coletivo está se organizando para transformar o site num ponto de encontro para notícias sobre tudo que acontece de música na região. Para participar, acesse o site www.nordesteindependente.com.br ou mande um email para nordeste-independente-subscribe@yahoogroups.com

Emos
Quem curte hardcore vai gostar da notícia. A banda gringa MxPx confirmou um show no Recife para o dia 05 de maio. Os californianos são uma das principais conexões entre a velha guarda do NOFX e essa confusão adolescente que aparece hoje nas reportagens do Fantástico.

Abril
A programação oficial do Abril pro Rock sai hoje. Então, para adiantar um pouco: Carfax, Parafusa, Terra Prima e Iupi confirmados entre as atrações locais. Também a dobradinha Volver e Frank Jorge. De Salvador, Lou, uma banda bem parecida com a Pitty. Ainda as bandas Medulla (RJ) e Montage (CE). E tudo promete que a Fernanda Takai esteja no palco, mas talvez não seja com o Pato Fu.

Online
Desde o Porto Musical, representantes de vários Estados estão reunidos virtualmente para lançar, ainda este mês, um novo site de música. Será uma espécie de ponto de encontro, onde poderá ser encontrado tudo que é publicado de interessante sobre rock independente nos jornais, sites e blogs pelo Brasil. Nome e endereço, por enquanto, ainda são segredos ;)

A gente vai muito mal, obrigado!

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Uma das partes menos glamourosas do cotidiano de quem escreve sobre música é ter que ouvir diariamente as rádios e sempre dar uma olhada no que toca nas novelas. De quem quer fazer um trabalho bem feito, claro. Se você não tiver nenhum interesse sobre o que as pessoas são forçadas a ouvir, pode ficar sentado dentro da redação ouvindo o novo Franz Ferdinand e acreditando que a vida é realmente só aquilo. Não chega a ser uma má opção, porque a qualidade dos dials está triste. Muito triste.

Outro dia, perto da hora do almoço, fui obrigado a antecipar um pouco a fome. Era um novo bloco, onde os ouvintes podiam ligar e dar seu recado amoroso. Novo para aquela rádio e naquele horário, claro. Foram 20 minutos de “Me chamo Maria, queria conhecer novos rapazes. Meu número é…”. Vou me permitir um pouco de polêmica aqui para dizer que se o povo soubesse do que quer, o Brasil não estaria conhecendo tantos neologismos engraçados como mensalinho. Democracia é bom com responsabilidade. Esse tipo de coisa já passa longe de anarquia barata. Desliguei o rádio e fui comer mais cedo.

Um colega de profissão costuma dizer insistentemente que, se não tocar numa rádio nacional, o artista não vai fazer sucesso nunca. Não chega a ter a dimensão apocalíptica que ele propõe, mas, de certa forma, ele está certo. E as rádios locais, infelizmente, não oferecem mais argumento para uma banda tocar na programação nacional. Tudo anda muito mal e a opção de quem quer fazer um trabalho sério é dar a volta pela lateral. Conseguir ser encontrado por uma gravadora e, assim, chegar ao ouvinte.

Você pode argumentar que existem novas iniciativas de pessoais legais. É verdade. Mas isso não quer dizer que é bom. Gente legal não faz um programa ter qualidade. Caso contrário João Kleber deve ser a pessoa mais desprezada a nascer no Brasil. E existem as alternativas. Rádios de bairro, de Internet. Mas esse afunilamento, no fim das contas, só consegue deixar a coisa mais distante. Aliás, fim das contas mesmo é considerar que essa grande quantidade de novos programas só é um reflexo do descaso das rádios.

Para não dizer que não falei de flores, vou listar aqui os programas que valem à pena ligar o rádio para ouvir. Por “valer a pena”, digo que você vai escutar aquele hit do novo disco do Franz Ferdinand, mas também vai ouvir coisa nova, de qualidade e não vai perder tempo ouvindo muita bobagem e piada sem graça. Dá para contar na mão e você só vai usar um dedo: o coquetel molotov. O caminho das pedras: sábado, das 11h às 12h, na Universitária (99.9 FM).

Mas queria lembrar mesmo era do “Sintonize Pernambuco”. Um programa que estreou nessa mesma rádio e, todos os dias, trazia um personagem diferente da música local fazendo sua programação. Era apresentado por Pupilo, José Telles, Paulo André, Renato L e Débora Nascimento. Time de primeira qualidade que hoje é simplesmente ignorado pelas estações. Logo, não é um programa que faz a gente ter saudade, mas faz sentir vergonha de não ter mais.

Saideras

* Falando no diabo
O novo disco do Franz Ferdinand não é melhor que o primeiro. Se você queria um motivo para deixar de baixar MP3’s e comprar um CD, ele se chama “LCD Soundsystem”. Faça sem pensar. É duplo, vale o preço de R$ 45 e você só vai parar de ouvir quando acabar a pilha do discman.

* Faça barulho
A Bizz está de volta no formato mensal. Vale à pena. Tem algumas verdadeiras lendas escrevendo ali. O mais legal, no entanto, está no final. Um texto curto que ensina como transmitir seu show por Podcast. Formato que está fazendo o maior sucesso e não sai do ouvido de gente importante como Lúcio Ribeiro, colunista da Folha.
Sobre a revista, outro detalhe, quem abre é a Nação Zumbi.

* Não somos tão feios assim
O Recife está merecendo que um artista local grave seu DVD na cidade onde nasceu. Este mês chega às lojas o do Cordel, gravado em São Paulo. O discurso de todos é o mesmo, “queria muito, mas não tinha como”. O Mundo Livre promete quebrar esse descaso e gravar seu primeiro DVD por aqui.

* Uma reflexão…
…Para banda Rádio de Outono. Nada é bom com exagero. Muita gente vem comentar que não vê motivo para tantos shows em fins-de-semana seguidos. Tirando uma folga ocasional, chegou a passar de cinco. Mais de um mês seguido. Não faz bem para a imagem da banda que vai precisar pensar numa estratégia diferente para divulgar o primeiro CD que sai no Curitiba Rock Festival.

Precisamos aprender a ser pequenos

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Demorei a escrever outro texto para a coluna de propósito. Durante os quase dois meses que passaram tive a oportunidade de assistir a dois shows de artistas pernambucanos que tocaram fora do Estado e queria, de alguma forma, transmitir a experiência disso. O primeiro foi em São Paulo, com Cordel do Fogo Encantado, Lenine e, de certa forma, Otto. O segundo, mais recente, aconteceu em Natal, durante o Festival Mada. A conclusão foi uma só: Recife precisa aprender a ser uma cidade menor do que pensa ser.

Foram dois shows extramente bem organizados e que tinham em comum uma noção de espaço geográfico de fazer inveja. Para se ter uma idéia, o Palco Pernambuco conseguiu casa lotada na mesma noite que Roberto Carlos, Sandy e Junior (separados, ela com jazz e ele com funk. Uma apresentação bem curiosa para quem curte música e consegue se livrar dos preconceitos) e o rapper Ja Rule. Já no Imirá, a mesma façanha: 12 mil pessoas para ver um monte de show nada interessante na areia da praia.

O segredo do sucesso está nessa noção de espaço. Recife tem uma frustração imensa com tamanho: temos que ter o maior shopping, maior livraria, maior aeroporto, maior festival, ninguém é pequeno aqui. Show de Mundo Livre só acontece em palco para 10 mil pessoas, de um rapper que ninguém conhece, para 18 mil. Se alguém faz uma festinha que dá certo, no mês seguinte quer competir com o Abril pro Rock, sempre nessa lógica de precisar ser imenso, precisar ser maior, enfim.

Imaginem o clima maravilhoso que não ia ser assistir a Nação Zumbi numa estrutura super organizada, de primeira qualidade, com espaço para 3 mil pessoas? Ia estar lotado, principalmente com gente que gosta mesmo do som e não que foi por obrigação conjugal ou amizade. Os donos do espaço não iam ter prejuízo, porque poderiam contar com público cheio todo fim de semana, dando espaço para investir em estrutura.

No lugar disso, encontro frequentemente declarações “tive prejuízo, só deu seis mil e preparei um show para 18 mil”. Putz. Seis mil é muita gente. E o pior é que até os shows menores estão entrando nesse clima. Parece uma obrigação de ser pequeno independente e grande independente. Quando uma banda começa a fazer sucesso, cria uma regra de só tocar no Ancoradouro, Centro de Convenções ou então São Paulo. Deve ser frustrante para quem resolver fazer as malas para encontrar um estádio lotado e descobrir que, lá, os shows legais acontecem com apenas 2 mil pessoas assistindo.

E, com isso, chegamos ao problema central. Não podem existir dois shows grandes na mesma noite no Recife. Se Nação e Mundo Livre tocarem no mesmo sábado, mas em palcos diferentes, um deles vai ficar com esse clima de vazio. O que é engraçado, já que é um clima vazio para um lugar que, na verdade, está cheio de gente. E o produtor, frustrado, desiste, xinga o concorrente, as outras bandas, etc. Vira o paradoxo, Recife quer ser pequena para ter esse clima de fofoca de vilarejo, mas não quer ser pequena para hospedar shows.

Publicado originalmente em 03.06.05