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No Ar Coquetel Molotov 2006: Cobertura

Crescer é sempre um processo longo e complicado. Ao fim de sua terceira edição, neste último sábado, o festival No Ar Coquetel Molotov já pode comemorar a vitória de algumas etapas deste processo. Nos dois dias que aconteceu no teatro da Universidade Federal de Pernambuco, segundo a organização, foi reunida uma média de 1100 pessoas no primeiro dia e 1300 no segundo. Quase o dobro dos números do ano passado. Reconhecimento de público e também dos cambistas, novidade que figurava este ano a área da frente dos shows.

Na medida em que cresce, o festival começa a desenhar também características próprias que já são reconhecidas pelo público. Como, por exemplo, o fato da sala “Cine UFPE” mostrar sempre shows melhores que as bandas de abertura no teatro. Com a exceção do ambiente claustrofóbico – quente, apertado e escuro – do espaço, as experiências que passavam por lá eram sempre impressionantes.

“Tenho certeza que o show do Toni da Gatorra mudou a vida de todo mundo que assistiu, para o bem ou para o mal”, comentaria mais tarde um dos jornalistas que passava pelo festival. Além deste, a Debate era, sem dúvidas, uma das bandas paulistas de rock independente mais legais que já tocou aqui. Rock numa linha “Rage Against The Machine canta Sonic Youth”, uma voz aguda, berrada e visceral cortando os ruídos das guitarras.

Chambaril parece não chamar mais tanta atenção do público de Pernambuco. Mesmo com um formato bem superior, tocando as músicas eletrônicas em instrumentos orgânicos, a banda espantou um pouco das pessoas durante o show. Diferente do Diversitrônica. Devagar e sem pressa, o trio William, Leo e Zé Guilherme caminham para ser uma das bandas mais legais que já surgiu no Recife. Eletrônico divertido, cheio de graça e que só ganhou com as projeções em vídeo.

Enquanto no teatro, o começo era sempre desanimador. Ahlev de Bossa com uma desconfortável falta de preocupação visual, fez um show chato de se ver. Sem performance, sem uma preocupação com palco, eles tocavam de maneira introspectiva músicas lentas, arrastadas e demoradas. Quase um choque com o rock de guitarras do Badminton, primeiro sinal de vida que surgiu naquele palco.

Outra tradição que o Coquetel Molotov já pode comemorar é o de fazer daquele público que acreditou no evento uma parcela privilegiada. O show do Spleen e Cocoroise poderia até ser desses que já chegam formatados em esquema de franquia, mas ainda reservava uma espontaneidade muito forte. Spleen pulava de um canto para o outro, usando uma saia colorida, enquanto as irmãs Cassidy tocaram num palco totalmente escuro, envolto por sombras.

No sábado, o formato se repetia. As Barbis de Olinda entram no time do desnecessário, não apenas pelos comentários sem graça que fazem entre as músicas, quanto pela escalação de três vocalistas que simplesmente não conseguem cantar. As músicas têm até um bom potencial, assim como a performance delas no palco, mas tudo se perde num jogo de afeto próprio e confuso.

Para compensar, Valv (MG) e Móveis Coloniais de Acaju (DF) foram, com o perdão do adjetivo resumido, fantásticos. A primeira nem tanto, considerando que um teatro não é o ideal para o rock cantado em inglês deles, com músicas que lembram uma versão hetero do Placebo. Já a segunda, com um vocalista que recria um novo Wilson Simonal mais pop e jovem, se daria bem tocando até no Pólo Norte, para um público de pingüins.

É uma espécie de formato orquestra, com vários metais e em especial um cara que é realmente louco no palco com um trombone de vara. Cantaram ainda uma versão divertida de “Take me Out”, do Franz Ferdinand, e outra do Portishead. Foi tanta animação que ofuscou um pouco os franceses do Rubin Steiner. Outro rock bem legal de guitarras, que também brinca com instrumentos de metais e um cello.

O No Ar encerrou depois das quatro da manhã, outra boa novidade deste ano, já que nos passados o fim chegava sempre no começo da madrugada. Para todos que se aventuraram em entrar nessa linha experimental, o Tortoise deu aula. Duas baterias e uma formação que é até visualmente simétrica, com mais outros três teclados. Também mandaram a melhor projeção de vídeo dos dois dias.

Começa o NoAr: Coquetel Molotov

Rubin Steiner
Rubin Steiner

Durante as duas últimas semanas, o coletivo Coquetel Molotov, formado por Ana Garcia, Jarmeson de Lima, Tathiana Nunnes e Viviane Menezes, recebeu vários e-mails. Um deles dizia algo do tipo “sou estudante, mas faço questão de pagar entrada inteira para assistir a este festival!”. O No Ar começa hoje, no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco, sua terceira edição que encerra amanhã. E nos últimos três anos, ele sempre traz essa sensação de que o Recife ainda tem solução para um dos públicos mais complicados de música.

Apesar do preço acessível, R$ 20 para cinco shows (sendo dois internacionais), o Coquetel Molotov traz a cara de um novo Recife segmentado. É um festival para um grupo seleto que tem acesso à informação privilegiada. Hoje, a música não chega mais pela rádio ou televisão. Ela aparece raramente nos jornais e revistas especializadas, enquanto trafega em abundância na Internet. Os produtores perderam os termômetros do que o público quer. O Coquetel fez a seguinte equação: se colocou no lugar do público e trouxe quem quis. Uma parcela significativa de pessoas já aprovou.

Este ano, o festival apresenta o Tortoise, Cocoroise, Spleen e Rubin Steiner de atrações internacionais. Talvez com a exceção do primeiro da lista, são todos nomes novos, ainda com quase nenhuma representatividade no universo hype-fast-food onde eles existem. É uma oportunidade de participar da formação da moda. Opção melhor que simplesmente seguir o rastro da mesma. É um evento para deixar a pose de lado, sentar numa cadeira de teatro e conhecer música nova e boa.

Mesmo tendo pouco tempo de estrada, as bandas do Coquetel Molotov representam, cada uma, uma revolução própria dentro da música pop. A começar pelo Tortoise, que, em meados dos anos 90, fez uma mistura louca de quase todos os gêneros que eram tocados na Inglaterra na época de uma estética que hoje praticamente carrega o nome deles como assinatura. Esse som “experimental” tem um pouco de dub, jazz, eletrônico e krautrock, com um toque exagerado de minimalismo. Os americanos são o bom motivo para ir até lá este ano.

De atrações nacionais, o Coquetel Molotov afirma ter feito enquetes no problemático site de relacionamentos Orkut sobre o que seria legal de trazer para o festival. Do Rio Grande do Sul chegam o divertido Júpiter Maçã e o esquisito Tony da Gatorra. Também as bandas Valv (MG), Debate (SP) e Móveis Coloniais de Acaju (DF). A música deles é bem mais convidativa que os nomes que escolheram, isso é garantido.

Nessa linha das experimentações, vale a pena conferir a apresentação da paulista Debate. Eles misturam uma pegada forte do rock pós-punk com um pouco de jazz e outras sonoridades brasileiras. O resultado é curioso e deve repetir o que aconteceu no último Coquetel Molotov com a também paulista Hurtmold; que chegou lá desconhecida e saiu cheia de fãs. O melhor é que eles estão na sala Cine UFPE, onde todas as apresentações são gratuitas.

SERVIÇO
No Ar: Coquetel Molotov
Hoje e Amanhã
Teatro da Universidade Federal de Pernambuco
Ingressos: R$ 20 inteira e R$ 10 meia. R$ 15 como ingresso cidadão (+1 kg de alimento)
Clientes Tim e alunos da Aeso tem meia entrada.

Leia também: Entrevista com o Coquetel Molotov