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Tributo a Odair José – Vou tirar Você desse lugar

Dizer que o velho brega (aquele de Odair e Cauby), depois do novo brega (aquele do Calypso do pará), virou preciosidade cult já é repetir um clichê. O gênero deixou de passear no campo da pseudo-inteligência e já atingiu estado de moda. Que venham então os remakes, releituras e compilações, como esta “Vou tirar você desse lugar”, que inaugura o selo goiano Allegro, com bandas do cenário independente reapresentando, em clima rock e pop-chiclete, as músicas do ótimo Odair José.

O mesmo Odair que, em 1972, prometia tirar a meretriz da vida burlesca e chegava ao topo das paradas de sucesso. Sua prosa contemporânea que sofreu tanto com a ditadura quanto a construção de Chico Buarque, chega com novos arranjos de Paulo Miklos, Pato Fu e Zeca Baleiro. De apoio, nomes escondidos das cenas locais, com direito aos pernambucanos Mombojó, Mundo Livre S/A e Volver.

Ninguém quis ser brega no disco. Brincar com a área do verdadeiro Odair já seria um exagero. Todos deram uma assinatura muito forte nas músicas. Nada soa mais com o Mombojó que “Ela Voltou Diferente”, que eles registram na quinta faixa. Acaba sendo também uma boa maneira de conhecer novas bandas, como a ótima Jumbo Elektro e sua versão semi-eletrônica para “A Noita Mais Linda do Mundo”.

A introdução do disco é impecável. Com as versões de Suzana Flag, Pato Fu e Columbia, dando o tom certo de guitarras e vocais femininos para as músicas menos canastras do repertório de Odair. Conseguem até diminuir a presença do Titã Paulo Miklos, que começa os trabalhos com a música que dá título do CD.

O melhor recorte do tributo é o que começa com “Eu Queria ser John Lennon”, por Columbia; segue com “Ela voltou Diferente”, por Mombojó; passa para “Eu, Você e a Praça”, com Zeca Baleiro; e encerra com uma bizarra, eletrônica e divertida versão de “Deixe essa vergonha de lado”, com Mundo Livre S/A.

Umas presenças são realmente descartáveis, como as bandas Shakemakers, que fazem uma leitura pobre de “Nunca Mais”. Não chega a ofender o trabalho final, que é embalado num encarte pra lá de simpático. De quebra, uma versão bossa nova para “Pare de usar a Pílula” e um emo para “Que Saudade de Você”. Só coisa fina.

O Próprio
Odair José, que está com 52 anos e bem ativo, volta para as prateleiras ainda em março. O disco, que vem pela Deckdisc, terá duas de autoria do próprio homenageado, chamadas “Longe de Mim” e “Pensão Alimentícia”. De outros, no mesmo clima, terá uma chamada “Brad Pitt”, “Despeitada” e “Bebo Choro”. Já são clássicos antes mesmo de sair.

Cotação: [rate 5]

Escute aqui:
Ela Voltou Diferente – Mombojó

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A Noite Mais Linda do Mundo – Jumbo Elektro

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Capital Inicial – Aborto Elétrico

Não é difícil imaginar que o Capital Inicial e o Legião Urbana nasceram de uma banda de punk rock. Os três acordes clássicos foram escola de quase todo bom músico de rock no País (e fora dele). Difícil é pensar que a primeira ramificação, hoje linha de frente do pop nacional, consiga fazer o caminho contrário. Mas a MTV, campeã em fazer o que não deve, decidiu testar. Lança em CD e DVD “Aborto Elétrico”, com o Capital Inicial cantando as músicas que despontou a cena de Brasília.

O começo assusta. Tem até a contagem clássica “1, 2, 3, 4”, chamando para “Tédio (com um T bem grande pra você)” e, por breves dois minutos e 20 segundos, chega a dar idéia de que a voz puxada e já caracterizada de Dinho Ouro Preto vai dar espaço para a música rápida. Explicando, a vertente “Capital” do Aborto Elétrico eram a bateria e baixo dos irmãos Fê e Flávio Lemos. Talvez pelo excesso de músicas inéditas, o resultado final acaba lembrando a mesma banda na sua época pré-acústico.

Existe uma produção e cuidado audível no novo “aborto elétrico” que simplesmente não combinam com esse tipo de música. Um tratamento pop para a música punk. Opções equivocadas, como gravar a primeira música de Renato Russo, “Benzina”, totalmente instrumental. A letra dizia “não quero cocaína, não quero benzedrina, não quero heroína, vou cheirar benzina”. Mas o aborto da MTV é politicamente correto.

Pelas nove faixas que não são inéditas, só o projeto de um registro do Aborto Elétrico já seria suficiente para ser louvável. Funcionaria melhor, entretanto, com as atuais bandas da cena punk de Brasília prestando a homenagem. É verdade que não chamaria tanta atenção quanto ter a imagem bem comportada do Capital Inicial na capa do disco, mas ao menos teria sido mais merecido. Pelas outras nove, as inéditas, fica uma lembrança que Dinho Ouro Preto & Cia já foram menos melosos. Seriam mais que bem-vindos a voltar essa época.

Publicado originalmente em 08.11.05

Matanza: To Hell With Johnny Cash

Antes de ouvir o disco novo do Matanza, é preciso entender que a banda é o tipo de grupo de rock que o Brasil precisa. Eles fazem o tipo Motorhead, com a pose, roupas, bigodões e um som meia boca que gruda feito chiclete. O tipo de coisa que a MTV pode apresentar para lavar as mãos dizendo que dá atenção a alguma vertente underground do rock nacional. A banda fez uma homenagem ao cantor country Johnny Cash num produto bem interessante, metade CD, metade DVD.

“To hell with Johnny Cash” são 13 músicas com o vocal rouco puxado do sul dos estados, com a distorção de guitarra dando nova roupagem. Em certos momentos, até a bateria acelera em ritmo hardcore fazendo a mistura ficar mais estranha. São canções rápidas, dessas que fazem voltar uma faixa ou outra para ouvir de novo os trechinhos que ficam na cabeça com facilidade.

Os fãs de Cash vão sentir falta de algumas músicas. “Cocaine Blues”, por exemplo, é uma das canções perfeitas para acelerar no rock’n'roll. Além da clássica “Walk the Line”, que também ficou de fora. Bom mesmo acaba sendo “I Got Stripes”, que encerra o disco. A seleção ficou mais direcionada para o fã obsessivo, que conhece todas as músicas perdidas. Talvez o disco ficasse mais divertido se fosse uma doutrina rock para o country.

Dentro do que se propõe, o Matanza faz um som competente. E eles existem num cenário bem conveniente para atingir essa competência, já que outras bandas do porte dificilmente conseguem qualquer destaque no país. As músicas, todas em inglês, estão bem distante da idéia de inferno que traz no nome e capa e lembram muito o mote do disco anterior da banda, chamado “músicas para beber e brigar”.

Nesse cenário Harley Dayvidson, o Matanza se destaca muito mais pela atenção que a banda dá ao mercado que pelo próprio som. O disco de mídia dupla, lançado pelo selo Deckdisc se mostra uma opção bem interessante para evitar problemas com pirataria. Infelizmente, afeta muito o preço do produto final.

Publicado originalmente em 20.06.05