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1, 2, 3, Volver!

Volver

Quando o festival Abril pro Rock anunciou inscrições para um concurso de bandas no Recife, Bruno Souto se recusou a participar. Sua banda ainda não tinha completado um ano e já tinha aparecido entre os cinco melhores discos demos do ano no respeitado site da revista e selo Senhor F. “A gente estava no caminho certo, porque pessoas que entendiam de música estavam elogiando. Não queria pensar em perder para alguém naquela hora”. Ele tinha motivo. Meses antes, um outro concurso havia escolhido uma banda para abrir um show dos Engenheiros do Hawaii antes mesmo das finais. Mas seus amigos de banda o convenceram. Ele assinou a inscrição no último dia e, em dezembro de 2004, a Volver era anunciada vencedora.

Difícil pensar que só faz dois anos disso. O que aconteceu deste tempo para cá pode ser contado em flyers e cartazes de festivais. A Volver participou de quase todos os grandes eventos independentes do país. Fechou contrato com a Senhor F e distribuição com a Monstro Discos. Foram convidados para participar lado-a-lado com nomes que já somam década de história, como o Mundo Livre S/A, no tributo a Odair José (Allegro). Entre uma viagem e outra, eles sentaram numa mesa no bar onde ficava o extinto Pina de Copacabana, outrora quartel general do defunto manguebeat, e contaram sua história.

“Mas o release é para isso, né?”; Bruno Souto abre o bom humor da conversa antes mesmo do garçom trazer a primeira cerveja. Antes de virar “a banda mais gaúcha de Pernambuco”, o Volver se chamou Headphone. “Tinha morado cinco anos em Gravatá [interior do estado] e quando voltei para a cidade conheci o Diógenes, que morava na mesma rua que eu em Olinda. A gente fez uma banda chamada Solar da Fossa, que era o mesmo nome de um antigo bar que tinha na cidade alta”.

Antes de voltar a morar na região metropolitana, Bruno já tinha criado o hábito de uma vez por semana vir garimpar CDs. “Lá em Gravatá só tinha uma loja de disco, ficava do lado de um supermercado e só vendia disco de novela, etc”, ri. As músicas da Volver são assinadas por ele, algumas em parceria com o restante da banda. “A primeira que escrevi na vida foi Lucy [faixa seis do disco], já na semana que montamos a Volver”, lembra o vocalista.

Histórias como a da Volver já estão perto de serem patenteadas no franchising das bandas independentes do Brasil. Eles partiram para algo mais sério, chamaram outros interessados e começaram a compor. As influências chegaram na mesma época. “Eu estava ouvindo muito Frank Jorge e Júpiter Maçã”, confessa Bruno. O primeiro show foi num aniversário, dia 20 de março de 2004. “Só tocamos músicas nossas”. Um mês depois, um show da Cachorro Grande no Abril pro Rock, deu a instigação restante para levar a história a sério.

Hoje, a Volver é a voz de Bruno Souto, a guitarra de Diógenes Baptisttella, o baixo de Fernando e bateria de Zeca. “Canções Perdidas Num Canto Qualquer”, o primeiro disco, abre com “Você que pediu” e segue com mais 10 músicas. Referências a jovem guarda e o rock de guitarras saltam a memória em cada segundo. “Mister Bola de Cristal”, “Charminho” e “Não Ria de Mim” são hits fáceis, radiofônicos e atingem nível 10 no efeito chiclete.

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“Quando a gente recebeu o dinheiro do Microfonia [R$ 4 mil], pagamos imediatamente o estúdio para gravar. Só tiramos R$ 20 para pegar um táxi”, conta Bruno. “Nossa vontade era de levar a sonoridade ao vivo o máximo para o disco”, completa. Quem os acompanhou no processo foram os produtores Leo D e William P, do estúdio Mr. Mouse, que virou selo de qualidade nos discos feitos 100% Made in Recife. “Mandamos a máster para Fernando Rosa, do Senhor F, e dois dias depois já tínhamos fechado contrato com eles”.

O disco serviu de passaporte e chave-mestra para os festivais Bananada, Calango (onde eles viajaram um total de 120 horas de ônibus, ida e volta, para tocar por 30 minutos), Goiânia Noise, Porão do Rock e dois Abris pro Rock seguidos. Fora isso, todos os festivais do Recife, além das principais casas de show das cidades que ficam no trajeto do Nordeste até o sul do país. “O massa porque a gente ganha muito em divulgação quando toca fora, os jornais sempre dão algum espaço. Em Brasília, depois do show do Porão do Rock, fomos capa de um caderno de cultura como destaque da noite”.

“Para mim, nosso melhor show foi em Curitiba, com o Relespública”, conta o guitarrista Diógenes. “Lá tem muitos Mods e rockers, quando eles viram nosso show, adoraram, a energia foi muito boa”, concorda Bruno. A banda também já se apresentou em Porto Alegre, terra que virou referência na música que eles tocam. A brincadeira, que foi publicada originalmente num jornal local do Recife, criou eco no país. E aonde chegavam eles passavam a serem chamados da banda mais gaúcha do rock pernambucano.

“Esse rock gaúcho que falam é por causa da influência dos anos 60, que a gente pega muito também, eu sempre fui muito fã da Jovem Guarda”, comenta Bruno. Mas tanto ele, quanto Diógenes, não esperaram chegar à terceira cerveja para entregar o que pensam disso. “Essa história já está enchendo um pouco o saco, quer dizer, ninguém está aqui para revolucionar o Rock’n’Roll, mas estamos fazendo um som que é próprio nosso”.

Prata da Casa
A Volver é, certamente, a banda que tem tido melhor histórico nessa nova cena independente do Recife pós-Mombojó. Nenhuma conseguiu preencher tantos espaços no currículo em tão pouco tempo. Nenhuma tem tido uma atmosfera tão receptiva. “Mas falta muita coisa. Falta a gente se auto sustentar, acho que pouca banda do nosso tamanho consegue viver hoje do próprio trabalho”, comenta Bruno. “No Recife não dá, porque tem poucos lugares para tocar, raramente pagam cachê”.

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É um dos principais motivos para a banda estar arquitetando a mudança de sua base de operações. “Quando você toca em São Paulo, isso costuma repercutir no país, e o contrário não acontece. Tenho certeza que se a Volver passasse dois meses lá, já estaria muito a frente do que está hoje”, avalia. “Os gaúchos também têm esse mesmo problema que nós, estão muito longes do eixo, mas lá eles tem rádios que tocam a música deles e no Recife isso não existe”.

Não é deslumbre. Falar do momento rock independente nacional com a Volver, é ouvir de resposta o nome de suas companheiras de palco. “Recife está muito bem de bandas. Claro que porcaria tem em todo canto, em São Paulo mesmo tem muita”, compara. “Minhas favoritas”, diz Bruno, na promessa de não fazer política, “são Mellotrons, Rádio de Outono, Carfax, Mombojó, Bonsucesso Samba Clube, Eddie, Insites e Superoutro. O que é péssimo mesmo aqui são as bandas de covers do disk MTV”.

No restante da cadeia produtiva da música, a banda também sinaliza para o positivo. “A imprensa do Recife sempre nos trata bem, dos três jornais da cidade, dois deram críticas positivas ao disco. Rádio é complicado, mas a gente ainda consegue tocar nas comerciais, uma vez perdida, num horário louco”.

Meia volta, Volver
Depois de fechar este circuito de festivais, fechar contrato e ganhar menção na edição argentina da revista Rolling Stone, os planos da Volver é recuar de volta até o momento de partida. “A gente está relançando o primeiro disco, agora com nova capa e uma faixa multimídia. Nosso plano é aproveitar para divulgar ele com mais força, agora que as principais capitais já conhecem nosso trabalho”, comenta o vocalista.

“Também vamos ver o que dá nessa gravação do Banda Antes MTV [exibido no dia 31/07], queremos gravar outro clipe, a idéia ainda é trabalhar este disco”, completa o guitarrista Diógenes. “Mas enquanto isso, o segundo disco está sendo composto, claro” diz Bruno Souto. A banda não faz previsões, mas promete um single virtual para ser lançado em breve no próprio site e também no do selo Senhor F. “Já mostramos a música para algumas pessoas e a resposta foi positiva”.

Nesse trajeto de dois anos, as “Canções Perdidas num Canto Qualquer” da Volver foram encontradas, acolhidas e os quatro pernambucanos já podem contar com o elemento mais valioso para uma banda: uma platéia formada. De hits numa festa em Salvador, os aplausos de um público notadamente de hip hop em Natal até o momento de uma conversa perdida em um corredor do Rio de Janeiro, o nome da banda provoca reações. E esses encontros sempre provocam sorrisos, daqueles que observam o rock independente nacional em movimento.

Essa matéria foi publicada originalmente na revista OutraCoisa n.16 | as fotos são da Angela Smaniotto

Lá fora

A Prefeitura prometeu uma renovação cultural no Recife Antigo e, até agora, as ruas continuam desertas e o público sem opção. Numa noite quente de sábado, da janela do prédio da Folha de Pernambuco, podia-se ver várias pessoas, a maioria casais, andando sem pressa pela rua do Bom Jesus. Elas estavam indo para o Festival da Seresta, que acontecia na Praça do Arsenal.

Existe vontade do público, existe demanda de artistas. Esse tipo de evento não deveria ser pontual, acontecendo apenas uma vez por ano, mas sim todos os fins de semana. Palcos na rua são uma tradição tanto em Recife, quanto em Olinda, e precisam voltar para forçar mais policiamento, diversão e clima nas ruas.

Encontro
Odair José só teve 30 minutos de tempo livre no Recife. Foi o momento onde aguardava transporte do areoporto para o hotel. Mas foi suficiente para rolar um encontro entre a banda Volver e o músico. A banda gravou a música “Vou contar de um a três” no disco “Vou tirar você desse lugar”, tributo ao cantor. Confere o momento coluna social entre Bruno Souto (vocalista da Volver), Odair e Fernando (baixista).

Lá fora
“Forró in Brazil: Under a Full Moon, Dancing to the Beat of the Zabumba” é o nome da matéria assinada por Seth Kugel no jornal New York Times, um dos mais importantes do mundo. Ele passou uma temporada no Recife e levou para o periódico entrevistas com Xico Bizerra, Chiquinha Gonzaga e o ambiente de espaços como o Forró de Arlindo. Além de vídeos fotos do pé-de-serra daqui.

Mais Coquetel
Semana passada, adiantei aqui a confirmação do Cansei de Ser Sexy no festival Coquetel Molotov, que será em setembro. Mais duas bandas confirmaram estarem em negociação – nada certo ainda – com o evento. São o Bonde do Rolê, de Curitiba, e a gaúcha Pata de Elefante. Uma das mais pedidas pelo público, a Violins de Goiânia, encerrou as atividades.

Tributo a Odair José – Vou tirar Você desse lugar

Dizer que o velho brega (aquele de Odair e Cauby), depois do novo brega (aquele do Calypso do pará), virou preciosidade cult já é repetir um clichê. O gênero deixou de passear no campo da pseudo-inteligência e já atingiu estado de moda. Que venham então os remakes, releituras e compilações, como esta “Vou tirar você desse lugar”, que inaugura o selo goiano Allegro, com bandas do cenário independente reapresentando, em clima rock e pop-chiclete, as músicas do ótimo Odair José.

O mesmo Odair que, em 1972, prometia tirar a meretriz da vida burlesca e chegava ao topo das paradas de sucesso. Sua prosa contemporânea que sofreu tanto com a ditadura quanto a construção de Chico Buarque, chega com novos arranjos de Paulo Miklos, Pato Fu e Zeca Baleiro. De apoio, nomes escondidos das cenas locais, com direito aos pernambucanos Mombojó, Mundo Livre S/A e Volver.

Ninguém quis ser brega no disco. Brincar com a área do verdadeiro Odair já seria um exagero. Todos deram uma assinatura muito forte nas músicas. Nada soa mais com o Mombojó que “Ela Voltou Diferente”, que eles registram na quinta faixa. Acaba sendo também uma boa maneira de conhecer novas bandas, como a ótima Jumbo Elektro e sua versão semi-eletrônica para “A Noita Mais Linda do Mundo”.

A introdução do disco é impecável. Com as versões de Suzana Flag, Pato Fu e Columbia, dando o tom certo de guitarras e vocais femininos para as músicas menos canastras do repertório de Odair. Conseguem até diminuir a presença do Titã Paulo Miklos, que começa os trabalhos com a música que dá título do CD.

O melhor recorte do tributo é o que começa com “Eu Queria ser John Lennon”, por Columbia; segue com “Ela voltou Diferente”, por Mombojó; passa para “Eu, Você e a Praça”, com Zeca Baleiro; e encerra com uma bizarra, eletrônica e divertida versão de “Deixe essa vergonha de lado”, com Mundo Livre S/A.

Umas presenças são realmente descartáveis, como as bandas Shakemakers, que fazem uma leitura pobre de “Nunca Mais”. Não chega a ofender o trabalho final, que é embalado num encarte pra lá de simpático. De quebra, uma versão bossa nova para “Pare de usar a Pílula” e um emo para “Que Saudade de Você”. Só coisa fina.

O Próprio
Odair José, que está com 52 anos e bem ativo, volta para as prateleiras ainda em março. O disco, que vem pela Deckdisc, terá duas de autoria do próprio homenageado, chamadas “Longe de Mim” e “Pensão Alimentícia”. De outros, no mesmo clima, terá uma chamada “Brad Pitt”, “Despeitada” e “Bebo Choro”. Já são clássicos antes mesmo de sair.

Cotação: [rate 5]

Escute aqui:
Ela Voltou Diferente – Mombojó

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A Noite Mais Linda do Mundo – Jumbo Elektro

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Resultados

A coluna reclamou e a resposta já chegou esta semana. No auditório da Livraria Cultura, será realizado o debate “O papel do Poder Público, o mercado da música e a OMB”, dentro da programação do festival Pré-AMP 2006. O palestrante será o advogado e coordenador de produção da Orquestra Popular do Recife, Adriano Araújo. Junto com ele, na mesa, estará o coordenador da Articulação dos Músicos de Pernambuco (AMP), Alex Mono.

Resta agora o público que lota os shows no Recife marcar presença e mostrar que essa carência de debates não é por falta de interesse. Principalmente para quem trabalha com música. De incentivo, fica a notícia que foi manchete nos jornais do Rio Grande do Norte semana passada: a carteira da Ordem dos Músicos não é mais obrigatória naquele Estado. Resultado de discussões que começaram em 2004 pela Internet.

Maracatu na Bahia
Depois de anos de invasão do axé no Carnaval do Recife, a Bahia cedeu e terá seu primeiro bloco de maracatu, o Bizoro Avoador. Do Recife, quem sobe no trio elétrico é a banda Cordel do Fogo Encantado. Junto com eles, estão Chico César, Val Macambira e Tonton Flores. Vai ter direito até a ingresso-camisa, pelo valor de R$ 40.

Na Internet
Estreou semana passada a coluna “Popup”, no portal Folha Digital. Quem assina é o colega de redação Guilherme Gatis, que pretende manter uma atualização semanal no esquema comentário + notinhas. O próximo texto, ele já adiantou, será sobre os relançamentos dos discos do Mutantes.

Bem na fita
Apesar dos fãs fardados do Gram (SP) – com direito até a gatinho de pelúcia – quem roubou a cena do show, que aconteceu sábado passado no Armazém 14, foi a Volver. Entre as músicas, o público só fazia gritar o nome da banda, que já está fechando uma nova turnê pelo Nordeste com direito a presença num grande festival da região. Vacilo da programação do Carnaval do Recife, que não incluiu os rapazes em nenhum dos palcos.
Escute: Charminho

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Download: Pegue o disco completo

Tudo de novo

Já ouvi uma vez que não é bom ser músico em Pernambuco, mas é muito bom ser músico pernambucano. Pura verdade. 2005 encerra com um adesivo do Sedex colado nas bandas de rock que lançaram seu primeiro trabalho ainda este ano. Numa conversa um tanto tensa com Lúcio Maia, o guitarrista da Nação Zumbi disparou: “não precisa hipocrisia, a gente sai porque no Recife não rola dinheiro”.

Faltam lugares decentes de médio porte na cidade para as bandas se apresentarem. O resultado são nomes super novos, como a Volver e a Rádio de Outono, com agendas já recheadas no sudeste do país. E o problema cresce. O público não aceita pagar o valor merecido de uma apresentação local. Com tanto desinteresse, só faltam os patrocinadores irem embora.

Abril
O Festival Abril pro Rock revelou para a coluna sua primeira banda confirmada. É a Cidadão Instigado, dona do disco independente “E o Meto Tufo de Experiência” (Slag Records), um dos mais elogiados pela crítica em 2005. O nome é disputado. Dois outros produtores da cidade já tinham mostrado interesse em organizar um show aqui no primeiro semestre.

Gringos
Recife já tem um show internacional marcado para 2006. São os portugueses da The Gift. Eletro-pop na encruzilhada entre Placebo e Portishead que já rendeu o prêmio MTV European Music Awards em 2005. As chances são que a banda vá se apresentar ou no Porto Musical ou no festival Abril pro Rock. Quem não conhece, as músicas estão no site http://www.thegift.pt/.

Vizinhos
O Tim Festival, que já trouxe os shows dos Strokes, Kraftewek e PJ Harvey para o Brasil anunciou que está bastante interessado em produzir uma edição do evento em Salvador. A idéia é agregar o público do Norte-Nordeste que não pode bancar uma passagem e hospedagem em São Paulo.

Publicado originalmente em 27.12.05